sábado, 14 de maio de 2011

O ÉDEN NUNCA EXISTIU*

“Adão não foi expulso do éden,
simplesmente nunca nele entrou...”.

José Saramago, escritor português
(1922 -2010)



Sorte a de quem não é cristão. Pode nutrir certos sentimentos, ou a sua ausência, sem culpa ou remorso. O desprezo, por exemplo. Querem coisa mais sublime que o desprezo? Desprezar alguém com todas as forças que ainda lhe restam, sobretudo se o desprezo decorre de algum mal que nos foi cometido? Afinal, se todo mal é injusto, amoral e nocivo, natural sentir desprezo por quem o provocou, não importa quem seja nem, quando há, o grau de parentesco. Se o mal, contudo, foi decorrente de um crime, a repulsa, então, é duplamente sentida. Duplamente reverenciada.

Sorte a de quem não é cristão. Não prejulga os seus sentimentos. Melhor! Pode dar vazão a todos eles. É só querer. Ou não. Pode, inclusive, não perdoar. Uma sensação boa, não perdoar. Dá-nos força para desprezar ainda mais e nos confere um poder irrestrito sobre o outro, impotente que fica diante do nosso desdém, do nosso merecido descaso. E odiar. Ah, odiar! Que sentimento nobre, odiar... Tão eloqüente quanto o amor, propulsor da vida e estimulante diário para seguirmos em frente, nos tornando mais fortes. Tanto quanto o seu antagonista, o ódio faz-se necessário.

Sorte a de quem não é cristão. Pode desprezar, não perdoar, odiar. Afinal, podem querer nos sonegar direitos, mas não podem nunca adentrar nas malhas insondáveis do nosso coração – quando ainda o temos –, porque sentimos apenas o que permitimos. Não podem, por mais que queiram, adentrar em um território que só a nós pertence. Igual a nossa mente, na qual ninguém penetra para ditar o que quer que seja. Se devemos pensar isso ou aquilo. Ou não pensar. Pensamos o que queremos. Ou não pensamos. Depende, exclusivamente, de nós. De mais ninguém.

Sorte a de quem não é cristão. Tem liberdade plena para sentir e acreditar no que bem entender, sem as amarras nem os censores que andam de braços dados com os que se sentem cristãos. Tem liberdade plena para usufruir dos seus desprezos e ódios. Para ver e falar com quem quiser. E quando não se está onde gostaria de estar, se isola. Busca um alheamento qualquer, se abstrai. Cultiva a misantropia como forma de escape, alimentando, cada vez mais, o desprezo, o ódio e, muitas vezes, sem espaço para outros sentimentos, a indiferença. Sábia indiferença!

Sorte a de quem não é cristão. Pode contar com a indiferença como aliada para enfrentar os dissabores sem tanto sofrimento, sem precisar tecer um rosário de fados, não dando vazão a ilusões enganosas, maledicentes. Pode contar com o ódio, que lhe confere imunidade. Ao contrário do amor – essa coisa abjeta, que nos deixa vulneráveis, idiotas e vítimas fáceis do desvario de outrem. De certo autoritarismo caduco e malévolo, tanto quanto os desmandos da Inquisição, que, impiedosamente, queimava viva gente humana. Inocentes. Feliz de Adão, que nunca existiu. Feliz de Eva.

Sorte a de quem não é cristão. Não acredita no éden – visão literalmente distorcida de uma mente que, em tempos remotos, deve ter sido assolada pelo ópio, impondo uma verdade una, quando – sabemos – verdade alguma é absoluta. Não acredita no paraíso, no purgatório nem no inferno – outra visão distorcida, fruto, quiçá, do consumo de um alucinógeno qualquer. Não acredita em deus nem no diabo – visões essas de uma mente possivelmente bipolar. Não acredita em mais nada que não seja em si mesmo. Feliz de Adão. Feliz de Eva. Feliz de quem nunca foi apunhalado pelas costas.

Sorte a de quem não é cristão...


Nathalie Bernardo da Câmara
Registro profissional de jornalista:
578 - DRT/RN, desde 1989



* Postado, originalmente, no dia 16 de agosto de 2009

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto. Ele está no vooz com fonte e link para seu blog. Abraços, Jefferson Xavier - Jex

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