quarta-feira, 21 de setembro de 2022

QUANDO O ALHEIO INVADE O PRIVADO (I)

Foto: Nathalie Bernardo da Câmara

 

Ninguém será sujeito à interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques” – art. 12 da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH), adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948.[1]

 

Um tema recorrente no planeta, invariavelmente em debate, é o direito à privacidade[2] – um direito humano que, na legislação brasileira, por exemplo, é garantido pela Constituição Federal (1988) e pelo Código Civil (2002), além de ser igualmente resguardado por vários documentos de âmbito internacional – entre eles, a supracitada declaração dos direitos humanos, da qual, inclusive, o Brasil é um dos seus signatários, sendo a violação desse direito, portanto, o da privacidade, crime previsto por um rol de leis e, naturalmente, cabível de penalidades, embora, em inúmeras situações e por motivos os mais diversos, não aplicáveis, imputáveis.

 

Infelizmente, por um precário, seletivo e, por conseguinte, excludente acesso à educação e à informação, a maioria da população ignora o direito em questão – um direito, na verdade, de todo cidadão, sem exceção. O leque, entretanto, daqueles que têm ciência da sua existência não é pequeno, mas apenas na teoria, porque na prática o desdenham, posto que não se importam com os danos das suas deliberadas intromissões na vida privada de terceiros – fato que, particularmente, me incomoda, isto é: o acintoso desrespeito e a inaceitável violação do direito à privacidade de outrem, conquanto, no caso, o meu e o da minha entourage.

 

E um episódio recentemente ocorrido é exemplo disso: sem decoro algum, estupidamente, “entupiram” a caixa para correspondências da nossa casa com propaganda eleitoral de diferentes formatos, contendo dados de uma dada candidatura para o pleito de outubro do corrente, além de arremessarem por cima do muro um punhado de “santinhos” políticos que se espalharam na garagem e no jardim, poluindo visual e ambientalmente um espaço privado. Achando pouco, ainda colaram um adesivo com foto e identificação numérica da tal candidatura no invólucro que protege o registro de luz que fica na parte externa do muro, defronte à rua.

 

Pois, saliento que o registro de luz pertence à empresa que distribui energia elétrica no Rio Grande do Norte, encarregada por sua instalação, mas a guarda do aparelho é de nossa responsabilidade. Daí que, na condição de consumidores, devemos responder por todo e qualquer eventual dano causado ao registro. Ocorre que, por não presenciar o vandalismo, não tive a oportunidade de soltar uns impropérios contra os vândalos, restando-me, assim, retirar o adesivo da capa de proteção do registro de luz e as demais peças publicitárias eleitorais atrevidamente depositadas na chamada caixa dos Correios, desocupando-a – no caso, limpando-a.

 

Sem falar que os “santinhos” jogados a esmo no jardim e na garagem foram recolhidos, devidamente picotados e jogados num saco de lixo, visto que nem para reciclagem o material não teria serventia em razão do seu alto grau de toxicidade. Porém, apesar de cientes de que o entulho que recolhemos não receberia o tratamento adequado, isso porque não defendemos lixões a céu aberto nem aterros controlados ou sanitários, muito menos a incineração de resíduos produzidos pelas populações do mundo inteiro por questões ambientais, sabíamos que, de uma forma ou de outra, ele seria eliminado, presumindo, agora, que muitos estão a questionar...

 

E não apenas o destino da imensa produção de lixo da humanidade, mas também do lixo em questão, ao mesmo tempo se pensaríamos e agiríamos de igual modo caso alguma candidatura que apoiamos com a intenção de nela votar promovesse essa espécie de “boca de urna domiciliar”. Em termos, já que, apesar de não compactuarmos com esse tipo de prática, pouco importando o remetente, e se a propaganda eleitoral divulgada, mesmo de forma indevida, aleatória, fosse palatável à nossa ideologia, simplesmente a guardaríamos, mantendo-a sempre à mão para, dependendo da situação, do contexto, repassá-la a um parente ou amigo.

 

Decisão essa, verdade seja dita e sem vestígio algum de hipocrisia, uma questão de foro íntimo, outro direito resguardado por lei, até porque não saímos por aí alardeando os nossos votos, algo que, diga-se de passagem, estamos evitando fazê-lo por uma questão de cautela, o que me faz lembrar de um provérbio popular português, igualmente apreciado por um saudoso e estimado camarada, ou seja, o escritor José Saramago (1922-2010), isto é: “Cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém” – não à toa, outro dia escrevi no cabeçalho de uma postagem que compartilhei numa certa rede social da internet o texto transcrito abaixo:

 

“Diante dos inúmeros casos de violência, sejam elas físicas, morais e/ou correlatas, que, abismados e indignados, o Brasil e o mundo têm testemunhado ao longo dos últimos anos, antes mesmo das iminentes eleições e que, infelizmente, já viraram lugar-comum ou, melhor dizendo, uma habitual e desprezível prática de determinados candidatos reacionários de direita, de seus correligionários e de seus potenciais eleitores, que ignoram o que seja democracia e civilidade, desrespeitando às diferenças e sobretudo o direito de pensar – o que dirá respeitar o direito inalienável de votar dos cidadãos, livres, inclusive, para optar sobre o seu próprio voto –, fica uma dica: ‘abstrai e finge demência’”.

 

Obviamente que não somos de abstrações quando se trata de política – talvez em momentos de ócio criativo. Sem falar que em hipótese alguma somos dementes – pelo contrário! E se reagimos com repulsa em relação à propaganda eleitoral que agrediu o nosso direito à privacidade e a nossa ideologia – que o assédio não se repita – foi porque ela consistia num engodo de quinta, evitando, ao picotarmos o material, não mais servindo nem para fabricar um quebra-cabeças, que nenhum desavisado corra o risco de lê-lo, quiçá sendo influenciado por falácias e tomando a incauta decisão de votar numa candidatura comprometida com o retrocesso.

 

Porém, pensei em mudar de ideia quanto ao destino dado ao “lixo” em pauta – voilà a abstração! Quis até queimá-lo, não nego, mas igualmente descartei a ideia. Vaso sanitário? Nesse caso, o estrago seria grande... Reciclar? Nem pensar, também por causa dos efeitos nocivos do material! Daí, sem mais opções, só restou destinar as ditas “tripas” de celulose à caçamba do caminhão de limpeza da cidade, inexorável destino, aceitem ou não, de certos partidos políticos, cujos aderentes, de asas “picotadas”, partidas, não passam de causas perdidas, sem direito sequer a um santo que, mesmo se quisesse, não poderia salvar as penadas “almas”... 


Nathalie Bernardo da Câmara

 



[1] Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: ˂https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos˃. Acesso em: 17 de set. 2022.

[2] HIRATA, Alessandro. Direito à privacidade. Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Direito Administrativo e Constitucional. Vidal Serrano Nunes Jr., Maurício Zockun, Carolina Zancaner Zockun, André Luiz Freire (coord. de tomo). 1. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017. Disponível em: ˂https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/71/edicao-1/direito-a-privacidade˃. Acesso em: 17 de set. 2022.

 

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

DE PERDAS E LEGADOS

 

Se o tráfico de órgãos é o crime do Séc. XXI

e a guerra ora em curso uma insanidade

– como o são todos os conflitos bélicos –

a fome é o maior flagelo da humanidade.

 

“Fruto” de desigualdades socioeconômicas,

apesar dos vastos campos férteis do planeta,

obscuros interesses ideológicos e políticos

entravam a erradicação da obscena tragédia.

 

No podium, ainda, outro flagelo é a covid-19:

afora os contágios incalculáveis

e milhares de vidas ceifadas pela pandemia,

a rejeição às vacinas só agrava a situação!

 

Já os que sobrevivem à doença

– a dimensão dos seus danos no organismo humano

permanece uma incógnita para a ciência –

convivem, impotentes, com indigestas sequelas.

 

Diante, portanto, de cenários desoladores,

desencadeando um pavoroso nevoeiro,

além de duplamente alvo do novo coronavírus,

o poeta segue sem animus, anima, ânimo...

 

Nathalie



terça-feira, 9 de agosto de 2022

IGNÓBIL PLATA

 

Câncer maligno em todos os seus estágios,

flanando e vivendo de ágios,

o capital menosprezou vidas,

impôs-se às autoridades políticas e científicas constituídas

e pôs fim a uma quarentena

no auge da pandemia que ainda acena,

já que contágios e óbitos teimam em manter o cerco

sem data marcada para o seu termo.

 

Sistemas monitoram casos notificados

em todo o planeta e em tempo real,

divulgando cerca de 6 milhões e 500 mil perdas fatais,

mas, ante os casos não registrados, o número é irreal:

estima-se, na verdade, mais de 20 milhões de ais.

Só que enquanto calculam a precisão de almas mortas

– citando Gogol –

o capital desdenha e galopa com as pernas nada tortas...

 

Nathalie


07-09/08/2022


Um poema realista para todos os que tiveram as suas vidas ceifadas, que se foram no olho do furação, e os que perderam entes queridos, mas, sobretudo, para os que insistem em ignorar a pandemia, os que a negam, os que fazem chacota do fato e os que fomentam a sua perpetuação, além dos que execram a ciência, permanecendo na ignorância, e falam disparates em relação à covid-19 e às vacinas contra o novo coronavírus – ignorariam também estes últimos que, no mundo inteiro, são exatamente eles, alienados, os que mais estão a fenecer em leitos de hospitais e justamente por não se vacinarem? #UseMáscara

 

terça-feira, 31 de maio de 2022

ARROGANTES ATRÁS DE VOLANTES

“A arrogância é o reino – sem a coroa.”

Provérbio judaico

 

Nem me surpreende mais ou causa espanto – já virou lugar-comum –, apenas sinto revolta e ira, ao ver um incauto motorista frear brusca e literalmente em cima de uma faixa de pedestres quando um está atravessando-a, no caso, por exemplo, sobre uma lombada, por pouco também não passando por cima do pedestre. Isso quando não o atropelam e ainda seguem em frente, sem sequer olhar para trás, como se o atropelado fosse um mero entulho largado a esmo na rua – o detalhe é que muitas faixas são pintadas sobre lombadas exatamente para evitar atropelamentos, mas quem se importa com isso? Como também não sei quem se importa com câmeras, radares ou algo do gênero, considerando, por exemplo, que, aqui e acolá – de há muito também lugar-comum –, o infrator desembolsa uma propina para a “autoridade competente” a fim de não pagar a multa correspondente a sua infração, pouco importando a sua gravidade.

 

Não à toa, invariavelmente questiono qual a serventia dos Detrans da vida que não fazem, digamos, um exame de caráter no cidadão que pretende habilitar-se para poder conduzir um veículo motorizado, já que não são poucos os que não estão aptos para circularem nas ruas nem sobre os próprios pés! Isso porque são kamikases de plantão que, sem aviso prévio, agem a seu bel prazer, para o desprazer de uma maioria – a lista de mentes desajustadas é longa, a perder de vista. Sem falar nos sociopatas e nos psicopatas, que, convenhamos, nunca deveriam ser habilitados para pegarem nem na direção de uma bicicleta! Ou andar de skat... Há também as imprudências cometidas quando, atrás dos volantes dos veículos, muitos estão sob efeito do álcool ou de alguma outra droga, ilícita ou lícita, como, por exemplo, o celular...

 

Sim, muitos vivem “plugados” em seus celulares como se fossem macacos atracados em pencas de bananas, cegos para qualquer outra coisa que não seja a fruta, ou, ainda, como se fossem bichos-preguiça pendurados em galhos de árvores, dos quais só saem para fazeres as suas necessidades fisiológicas ou mudar de árvore. Quanto aos “distraídos” que não se concentram à direção porque estão ocupados demais com os seus “brinquedinhos” eletrônicos, esses tagarelam até dizer basta e ainda “compram” briga no trânsito com quem ousar chamar-lhes a atenção por sua insensatez. Isso porque ficam focados apenas em si mesmos, numa visível e explícita declaração de egoísmo, ainda desdenhando dos direitos de outrem, numa indiferença atroz à vida que pulula ao seu redor e que, muitas vezes, chega até mesmo a gritar, apesar de, na maioria das situações, sequer há tempo de emitir um último suspiro... Ou, quiçá, de soltar um palavrão daqueles!


P.S. Sugestão para frase de um adesivo a ser colado em muitos automotores: "O veículo é inteligente, mas o motorista é um asno”.


Nathalie Bernardo da Câmara

 

domingo, 3 de abril de 2022

LYGIA SE FOI...

Foto: Divulgação


Lygia Fagundes Telles recebendo o seu exemplar de Os contos, numa edição especial, em capa dura, lançado pela Companhia das Letras, em novembro de 2018. É a mais completa antologia de contos da escritora que, à ocasião, estava com 95 anos de idade.

 

Soube há pouco, através de uma postagem do também jornalista e escritor Suênio Campos de Lucena​, da triste partida, na manhã deste domingo (03/04), aos 98 anos de idade, da escritora Lygia Fagundes Telles, por quem eu sempre tive verdadeira afeição, desde criança... Depois de adulta, jornalista, encontrei Lygia num encontro literário, em São Paulo, e tivemos um bate-papo, anos depois retomado por e-mail que, inclusive, foi intermediado pelo próprio Suênio. O resultado, portanto, desses dois momentos foi publicado pelo já extinto Pasquim21 quando a escritora completou 80 anos de idade – publicação essa, aliás, ilustrada com o impecável traço de Cláudio de Oliveira, que, à época, fez uma caricatura da entrevistada.

Nathalie


Link para a entrevista publicada em 2003:

https://abagagemdonavegante.blogspot.com/2009/07/do-bau_30.html

 

sexta-feira, 25 de março de 2022

LANÇAMENTO DAS MEMÓRIAS DO COMUNISTA VULPIANO CAVALCANTI (1911-1988)

Arte: Cláudio de Oliveira





Autobiografia inédita do médico comunista Vulpiano Cavalcanti será lançada nesta sexta (25) em Natal

 

Por Rafael Duarte

Saiba Mais – Agência de Reportagem

 

 

Quis o destino e a luta daqueles que defendem os Direitos Humanos que as memórias de um médico comunista, preso e torturado no passado, fossem publicadas num período da história do Brasil em que o país flerta com o fascismo. Também por isso, a autobiografia “Vulpiano Cavalcanti, memórias de um médico do povo” ganha ainda mais relevância porque, além de livro, é um instrumento de informação, verdade, memória, justiça e resistência.



Uma das fichas de Vulpiano Cavalcanti / foto: acervo: CDHMP 

 

Nesta sexta-feira (25), o público poderá conhecer um pouco mais da história e sobre o que pensava o médico cearense Vulpiano Cavalcanti de Araújo que chegou ao Rio Grande do Norte ainda em 1937, após a insurreição comunista ocorrida dois anos antes, em 1935. A obra, segundo livro editado pelo selo Potiguariana, será lançada a partir das 17h, no livraria Manimbu, localizada na rua Açu, 666 A, no Tirol.

 

A obra conta com a capa e ilustrações de Cláudio Oliveira e com o apoio do médico Edrisi Fernandes, do fotógrafo Mario Takeya e do videomaker Rômulo Sckaff. Cada exemplar custará R$ 50, dinheiro que será usado para pagar os custos desta edição e financiar futuras obras da Potiguariana. Já está em fase de produção um livro que conta a história do Partidão, como era conhecido o Partido Comunista Brasileiro (PCB), com lançamento previsto para 2023.

 

Vulpiano veio para o Rio Grande do Norte para estruturar o PCB, que completa 100 anos exatamente na data do lançamento das memórias do médico. Cirurgião respeitado, trabalhou em Mossoró a convite do então prefeito Duarte Filho. Foi preso em 1952 quando já exercia de forma plena suas atividades políticas. Na base aérea de Natal, acabou encarcerado durante 135 dias em uma pequena cela e foi torturado. Os relatos da barbárie contra Vulpiano estão registrados no livro “Campo de Concentração no RN – Torturas na Base Aérea de Natal – 1952/1953”, lançado pela Potiguariana em dezembro de 2021. Após o golpe de 1964 também preso e torturado várias vezes.

 

O médico comunista foi um dos fundadores da Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização que contou em seus quadros com o lendário baiano Carlos Marighllea e o escritor Graciliano Ramos.

 

O livro de memórias, segundo conta o editor Roberto Monte, havia sido idealizado pelo próprio Vulpiano com o apoio do PCB.

 

Roberto Monte lembra que a figura de Vulpiano Cavalcanti se assemelha a de Luiz Ignácio Maranhão Filho, duas lendas comunistas do PCB e que se dedicaram à luta pelos direitos humanos, pela democracia e em defesa dos mais pobres:

 

“Vulpiano, uma vez por semana, clinicava de graça no edifício 25 de março, na Cidade Alta. A fila era imensa. Esse livro começou a ser feito nos anos 1980, com o próprio Vulpiano, Hermano Paiva e outros camaradas do PCB… começaram a fazer gravações em fitas cassete. O livro já foi preso, já passou por mãos de pessoas que já morreram e acabou nas mãos de Moacyr de Goes. Dele foi para as mãos de Mailde Pinto Galvão e só então chegou a mim”, contou.

 

SERVIÇO:
Vulpiano Cavalcanti – memórias de um médico do povo
Nesta sexta-feira, 25 de março
A partir das 17h
Livraria Manimbu, Rua Açu, 666A, Tirol, Natal (RN)

 

Transmissão ao vivo do lançamento no canal do youtube da Pós-TV DH Net:

https://www.youtube.com/watch?v=6Lysnj7dggk

 

 

Link para a matéria:

https://www.saibamais.jor.br/autobiografia-inedita-do-medico-comunista-vulpiano-cavalcanti-sera-lancada-nesta-sexta-25-em-natal/

 

 




 

segunda-feira, 21 de março de 2022

VOLTAIRE E O PADRE (atualizado)


Arte: Scabini


“A religião é o ópio do povo.”

Karl Marx (1818-1833), filósofo e teórico político alemão.


Do Ocidente ao Oriente, ouve-se muitos discursos reivindicando mais tolerância, seja ela social, racial, sexual, de credos, opiniões etc. Na verdade, parece até uma súplica, um mantra, reverberando por toda parte, a fim de que manifestações de intolerância sejam combatidas, abrindo alas para o respeito às diferenças – condição sine qua non para se viver em sociedade. Só que as diferenças existem apenas e exatamente porque o humano em si possui uma espécie de marca registrada, um carimbo, ou seja, a sua individualidade, com personalidade e características intrínsecas, que o distingue dos demais, sendo, assim, um ser único, original. E livre nem que seja para pensar e acreditar ou não no que bem entender!

 

O problema é que, por não aceitarem tal fato, muitos, em sua alienante intransigência, agem como se dessem murros em ponto de faca, numa cegueira que, de tão desbotada, se perde de vista... Ocorre que essa tacanha postura, muitas vezes irredutível – bestial, eu diria –, finda por promover um embate sem fim, como a milenar e insana luta entre o bem e o mal, já que, afinal, querendo ou não, a intolerância é algo inerente a todos os povos, estando culturalmente alojada em suas entranhas, transpirando por todos os seus poros. Lamentavelmente, quando o assunto em pauta é a intolerância religiosa, os confrontos acumulam-se feito bolas de neve – um retrato da cena são os conflitos existentes entre os adeptos das mais variadas crenças.

 

Isso porque, apesar de não haver verdade absoluta, cada um empenha-se o máximo que pode para fazer prevalecer a sua, negando as outras. O curioso é que boa parte dos que “pregam” a tolerância entre as religiões, que devem se respeitar mutuamente, esquecem de “pregar” a tolerância em relação aos ditos descrentes por parte dos religiosos, que, na maioria das vezes, apesar de “tolerarem” crenças diferentes das suas, não “toleram” os que vivem sem fé alguma, sejam agnósticos ou simplesmente ateus – entendimento esse, diga-se de passagem, totalmente desprovido de nexo, já que, indivíduos, agnósticos e ateus também merecem respeito. Uma realidade, aliás, que costuma ficar de fora das falas consideradas politicamente corretas.

 

Sim, porque, na prática, funciona mais ou menos assim: o fulano crente na religião X deve ser tolerante com o beltrano crente na religião Y e vice-versa, mas ambos não são tolerantes, por exemplo, com o cicrano ateu, como se, para viver, todos tivéssemos de ter uma religião ou, mesmo sem uma, acreditar num ser dito supremo, não importa o nome que lhe é dado. E o que é pior: fulano e beltrano ainda “cobram” de cicrano que ele tolere as suas respectivas religiões, mas, paradoxalmente, são incapazes de respeitar o ateísmo alheio. Só que crer ou não crer é uma questão de foro íntimo. E esse tipo de intolerância, vigente ao longo da história da humanidade – o que dirá no Século XXI! –, é deveras entediante. E esdrúxulo.

 

Por isso ser necessário desmascarar atitudes arrogantes, como, por exemplo, a de certos religiosos, que aparentam ser relativamente tolerantes, mas que, na verdade, são essencialmente hipócritas, o que favorece determinados pensamentos tortos que persistem em vagar a esmo mundo afora, igual alma penada. Sem falar que não há fé na face da Terra que mova montanhas! O que move uma montanha são os deslocamentos de placas tectônicas, o que me faz lembrar de um adágio em latim, que remonta aos escolásticos da Idade Média,de gustibus et coloribus non disputandum”, embora, após ser “incorporado” pelos franceses, se transformou em des goûts et des couleurs, il ne faut pas discuter”. Na língua portuguesa, no popular, significa “gosto não se discute”.

 

Daí que, nesse bojo e contexto de pluralidade das preferências pessoais de cada um, se torna até pertinente mencionar a importância da laicidade de um Estado, pressuposto para que uma população possa melhor coexistir em sociedade – conceito que anda de mãos dadas com a democracia e o respeito dos direitos fundamentais dos indivíduos. Infelizmente, muitos ainda ignoram tal conceito, inclusive, no caso do Brasil, cujo Estado é laico. Sim, ignoram e desdenham do que “reza” a Constituição Federal (1988) a respeito, a começar pelo próprio Executivo, que, a 3x4, se encarrega de dar o mau exemplo. Isso porque, na prática, esse “detalhe”, isto é, a laicidade do Estado brasileiro, é relevado, invariavelmente menosprezado, contrariando as leis do país.

 

O que não deveria acontecer, posto que numa nação onde o Estado é laico ou secular (por oposição a eclesiástico)as religiões não podem interferir nos affaires estatais nem exercer influência em decisões políticas, ou seja, não podem meter o bedelho onde não são chamadas, ao mesmo tempo em que o Estado laico deve ser oficialmente imparcial em relação às religiões e as suas questões, além de não poder privilegiar uma religião específica em detrimento das demais. E em hipótese alguma! Porém, é seu dever garantir e proteger a liberdade religiosa, bem como a descrença, já que um Estado laico deve tratar todos os cidadãos de maneira igualitária e, sobretudo, com respeito – algo que todos os indivíduos também deveriam prezar, tratando uns aos outros com dignidade.

 

Não à toa, quando presencio uma situação onde o preconceito desnuda-se, no caso, contra um ateu, logo penso num texto que relata um dado momento da vida do filósofo iluminista e escritor francês Voltaire (1694-1778), mas que, equivocadamente, muitos consideram uma pilhéria. Não, a narrativa não é um motejo. Pelo contrário! Sem falar que é brilhante ao resumir aspectos de eventos similares – demais corriqueiros, eu diria, ainda mais porque também caracteriza uma invasão de privacidade daquelas! Isto é, um baita desrespeito. Não obstante, se for para encarar o referido enredo com gracejos, como se ele fosse uma piada, “confesso”, então, que é a melhor que já ouvi em toda a minha vida, a mais criativa – sem falar no aprazível gostinho de desforra...

 

Enfim, contam que, pouco antes de morrer, Voltaire recebeu a visita de um padre ansioso por dar-lhe a extrema-unção e redimir o ateu impenitente num ato de contrição. Por sua vez, o irônico e cínico moribundo não teria hesitado em perguntar ao religioso: — Vens da parte de quem?

 

— Sou um representante de Deus... – respondeu o padre.

 

De maneira incisiva, apesar dos seus últimos suspiros, Voltaire não se fez de rogado: — Mostre-me, então, as vossas credenciais ou, senão, saia deste quarto!

 

Nathalie Bernardo da Câmara

 

P.S. Considerando, ainda, que o princípio de laicidade não permite pitacos de religiosos em assuntos estatais e que assuntos religiosos devem limitar-se aos adros das suas igrejas, certas iniciativas em espaços públicos, como, por exemplo, a edificação de monumentos para homenagear ícones de não importa qual religião ou o assentamento, digamos, de um busto ou de uma estátua de corpo inteiro para reverenciar um líder religioso qualquer, não devem ser permitidas, salvo se a homenagem for num espaço privado. E se ressalto esse detalhe é porque empreendimentos dessa natureza de há muito poluem visualmente inúmeras paisagens do território nacional, traduzindo-se, o que é mais grave, em arroubos de parlamentares religiosos inescrupulosamente amparados por toda sorte de governo, seja ele federal, distrital, estadual ou municipal.

 

Práticas equivalentes são a defesa do disparate que é o repasse de recursos públicos para instituições religiosas de ensino e a esdrúxula possibilidade, mesmo facultativa, do ensino religioso em escolas públicas – ambas, é sempre bom lembrar, são inconstitucionais. Sem falar que, num Estado laico, feriado religioso nem pensar – hors de question! Porém, no caso do Brasil, não é bem isso que se vê, já que o país tem até uma padroeira, cuja epopeia, aliás, por seus tons surrealistas, dá uma crônica! Mas, essa é uma outra história, apesar de servir de exemplo para ilustrar este post scriptum.

 

Isso porque, no quesito ‘feriado religioso’, o general-de-exército João Batista Figueiredo (1918-1999), então presidente de uma esfacelada nação (1979-1985), não deixou por menos: resguardado por brechas legadas pela Constituição Federal de 1967/69, elaborada nos fétidos porões da ditadura militar (1964-1985) por mãos encharcadas de sangue, suor e lágrimas, ele sequer hesitou ao sancionar a Lei n° 6.802/1980, que, além de oficialmente reconhecer Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, declarou o dia da sua festa litúrgica, ou seja, 12 de outubro, como feriado nacional.

 

Na verdade, essa coisa de feriado, seja ele religioso ou não, é deveras curiosa – o da sexta-feira da paixão, então, um feriado tido como móvel! Sem falar em Tiradentes (21/02), considerado o mártir da independência... “Mártir”? E de qual independência, mesmo? Sim, porque, afinal, basta conhecer a verdadeira história do Brasil, não a dita oficial, que nos fazem “engolir” ainda na escola, descendo goela abaixo, sem que seja preciso nem nos mostrar a famosa e tão decantada pintura Tiradentes esquartejado (1893), de Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905), cujo título, por si só, já aumenta o nosso mal-estar diante da violência em questão, para saber que o alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792) não passou de um mero bode expiatório de uma frustrada conjuração que ganhou o nome de Inconfidência Mineira (1789). Mas, essa também é uma outra história... E voilà!

 

Sugestão de leitura:

No meio do caminho tinha uma Bíblia, tinha uma Bíblia no meio do caminho...

https://abagagemdonavegante.blogspot.com/2012/07/no-meio-do-caminho-tinha-uma-biblia.html


domingo, 20 de março de 2022

DE LABORES, CORES E ODORES


Arte por natureza

– não importa a matéria-prima –

o artesanato, por si só,

conta histórias...

 

Lembrando o Dia Mundial do Artesão (19/03), uma homenagem a Salete Bernardo, minha mãe, por sua expressiva, inestimável e reconhecida contribuição ao fomento e ao incremento do artesanato no Rio Grande do Norte (RN) ao longo da sua vida e que, no auge dos seus 81 anos de idade, ela siga a gerar frutos, angariando fundos: gratidão, admiração, respeito... 





 

Meada

 

Hábeis em seu ofício,

artesãos fiam rústicos fuxicos:

flores únicas se entrelaçam,

recortes outros se congraçam

em meio aos matizes tecidos

que lhes dão vida e sentido

em molduras de simples pureza

encantando por rara beleza.

 

Dentre as peças mais cobiçadas

das cortinas às almofadas;

dos adornos aos chinelos

a colcha de retalhos singelos

aquece leitos variados,

acolhendo os enfadados,

aconchegando os risonhos...

É alento acalentando sonhos.

 

Nathalie