segunda-feira, 21 de março de 2022

VOLTAIRE E O PADRE (atualizado)


Arte: Scabini


“A religião é o ópio do povo.”

Karl Marx (1818-1833), filósofo e teórico político alemão.


Do Ocidente ao Oriente, ouve-se muitos discursos reivindicando mais tolerância, seja ela social, racial, sexual, de credos, opiniões etc. Na verdade, parece até uma súplica, um mantra, reverberando por toda parte, a fim de que manifestações de intolerância sejam combatidas, abrindo alas para o respeito às diferenças – condição sine qua non para se viver em sociedade. Só que as diferenças existem apenas e exatamente porque o humano em si possui uma espécie de marca registrada, um carimbo, ou seja, a sua individualidade, com personalidade e características intrínsecas, que o distingue dos demais, sendo, assim, um ser único, original. E livre nem que seja para pensar e acreditar ou não no que bem entender!

 

O problema é que, por não aceitarem tal fato, muitos, em sua alienante intransigência, agem como se dessem murros em ponto de faca, numa cegueira que, de tão desbotada, se perde de vista... Ocorre que essa tacanha postura, muitas vezes irredutível – bestial, eu diria –, finda por promover um embate sem fim, como a milenar e insana luta entre o bem e o mal, já que, afinal, querendo ou não, a intolerância é algo inerente a todos os povos, estando culturalmente alojada em suas entranhas, transpirando por todos os seus poros. Lamentavelmente, quando o assunto em pauta é a intolerância religiosa, os confrontos acumulam-se feito bolas de neve – um retrato da cena são os conflitos existentes entre os adeptos das mais variadas crenças.

 

Isso porque, apesar de não haver verdade absoluta, cada um empenha-se o máximo que pode para fazer prevalecer a sua, negando as outras. O curioso é que boa parte dos que “pregam” a tolerância entre as religiões, que devem se respeitar mutuamente, esquecem de “pregar” a tolerância em relação aos ditos descrentes por parte dos religiosos, que, na maioria das vezes, apesar de “tolerarem” crenças diferentes das suas, não “toleram” os que vivem sem fé alguma, sejam agnósticos ou simplesmente ateus – entendimento esse, diga-se de passagem, totalmente desprovido de nexo, já que, indivíduos, agnósticos e ateus também merecem respeito. Uma realidade, aliás, que costuma ficar de fora das falas consideradas politicamente corretas.

 

Sim, porque, na prática, funciona mais ou menos assim: o fulano crente na religião X deve ser tolerante com o beltrano crente na religião Y e vice-versa, mas ambos não são tolerantes, por exemplo, com o cicrano ateu, como se, para viver, todos tivéssemos de ter uma religião ou, mesmo sem uma, acreditar num ser dito supremo, não importa o nome que lhe é dado. E o que é pior: fulano e beltrano ainda “cobram” de cicrano que ele tolere as suas respectivas religiões, mas, paradoxalmente, são incapazes de respeitar o ateísmo alheio. Só que crer ou não crer é uma questão de foro íntimo. E esse tipo de intolerância, vigente ao longo da história da humanidade – o que dirá no Século XXI! –, é deveras entediante. E esdrúxulo.

 

Por isso ser necessário desmascarar atitudes arrogantes, como, por exemplo, a de certos religiosos, que aparentam ser relativamente tolerantes, mas que, na verdade, são essencialmente hipócritas, o que favorece determinados pensamentos tortos que persistem em vagar a esmo mundo afora, igual alma penada. Sem falar que não há fé na face da Terra que mova montanhas! O que move uma montanha são os deslocamentos de placas tectônicas, o que me faz lembrar de um adágio em latim, que remonta aos escolásticos da Idade Média,de gustibus et coloribus non disputandum”, embora, após ser “incorporado” pelos franceses, se transformou em des goûts et des couleurs, il ne faut pas discuter”. Na língua portuguesa, no popular, significa “gosto não se discute”.

 

Daí que, nesse bojo e contexto de pluralidade das preferências pessoais de cada um, se torna até pertinente mencionar a importância da laicidade de um Estado, pressuposto para que uma população possa melhor coexistir em sociedade – conceito que anda de mãos dadas com a democracia e o respeito dos direitos fundamentais dos indivíduos. Infelizmente, muitos ainda ignoram tal conceito, inclusive, no caso do Brasil, cujo Estado é laico. Sim, ignoram e desdenham do que “reza” a Constituição Federal a respeito, a começar pelo próprio Executivo, que, a 3x4, se encarrega de dar o mau exemplo. Isso porque, na prática, esse “detalhe”, isto é, a laicidade do Estado brasileiro, é relevado, invariavelmente menosprezado, contrariando as leis do país.

 

O que não deveria acontecer, posto que numa nação onde o Estado é laico ou secular (por oposição a eclesiástico)as religiões não podem interferir nos affaires estatais nem exercer influência em decisões políticas, ou seja, não podem meter o bedelho onde não são chamadas, ao mesmo tempo em que o Estado laico deve ser oficialmente imparcial em relação às religiões e as suas questões, além de não poder privilegiar uma religião específica em detrimento das demais. E em hipótese alguma! Porém, é seu dever garantir e proteger a liberdade religiosa, bem como a descrença, já que um Estado laico deve tratar todos os cidadãos de maneira igualitária e, sobretudo, com respeito – algo que todos os indivíduos também deveriam prezar, tratando uns aos outros com dignidade.

 

Não à toa, quando presencio uma situação onde o preconceito desnuda-se, no caso, contra um ateu, logo penso num texto que relata um dado momento da vida do filósofo iluminista e escritor francês Voltaire (1694-1778), mas que, equivocadamente, muitos consideram uma pilhéria. Não, a narrativa não é um motejo. Pelo contrário! Sem falar que é brilhante ao resumir aspectos de eventos similares – demais corriqueiros, eu diria, ainda mais porque também caracteriza uma invasão de privacidade daquelas! Isto é, um baita desrespeito. Não obstante, se for para encarar o referido enredo com gracejos, como se ele fosse uma piada, “confesso”, então, que é a melhor que já ouvi em toda a minha vida, a mais criativa – sem falar no aprazível gostinho de desforra...

 

Enfim, contam que, pouco antes de morrer, Voltaire recebeu a visita de um padre ansioso por dar-lhe a extrema-unção e redimir o ateu impenitente num ato de contrição. Por sua vez, o irônico e cínico moribundo não teria hesitado em perguntar ao religioso: — Vens da parte de quem?

 

— Sou um representante de Deus... – respondeu o padre.

 

De maneira incisiva, apesar dos seus últimos suspiros, Voltaire não se fez de rogado: — Mostre-me, então, as vossas credenciais ou, senão, saia deste quarto!

 

Nathalie Bernardo da Câmara

 

P.S. Considerando, ainda, que o princípio de laicidade não permite pitacos de religiosos em assuntos estatais e que assuntos religiosos devem limitar-se aos adros das suas igrejas, certas iniciativas em espaços públicos, como, por exemplo, a edificação de monumentos para homenagear ícones de não importa qual religião ou o assentamento, digamos, de um busto ou de uma estátua de corpo inteiro para reverenciar um líder religioso qualquer, não devem ser permitidas, salvo se a homenagem for num espaço privado. E se ressalto esse detalhe é porque empreendimentos dessa natureza de há muito poluem visualmente inúmeras paisagens do território nacional, traduzindo-se, o que é mais grave, em arroubos de parlamentares religiosos inescrupulosamente amparados por toda sorte de governo, seja ele federal, distrital, estadual ou municipal.

 

Práticas equivalentes são a defesa do disparate que é o repasse de recursos públicos para instituições religiosas de ensino e a esdrúxula possibilidade, mesmo facultativa, do ensino religioso em escolas públicas – ambas, é sempre bom lembrar, são inconstitucionais. Sem falar que, num Estado laico, feriado religioso nem pensar – hors de question! Porém, no caso do Brasil, não é bem isso que se vê, já que o país tem até uma padroeira, cuja epopeia, aliás, por seus tons surrealistas, dá uma crônica! Mas, essa é uma outra história, apesar de servir de exemplo para ilustrar este post scriptum.

 

Isso porque, no quesito ‘feriado religioso’, o general-de-exército João Batista Figueiredo (1918-1999), então presidente de uma esfacelada nação (1979-1985), não deixou por menos: resguardado por brechas legadas pela Constituição Federal de 1967/69, elaborada nos fétidos porões da ditadura militar (1964-1985) por mãos encharcadas de sangue, suor e lágrimas, ele sequer hesitou ao sancionar a Lei n° 6.802/1980, que, além de oficialmente reconhecer Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, declarou o dia da sua festa litúrgica, ou seja, 12 de outubro, como feriado nacional.

 

Na verdade, essa coisa de feriado, seja ele religioso ou não, é deveras curiosa – o da sexta-feira da paixão, então, um feriado tido como móvel! Sem falar em Tiradentes (21/02), considerado o mártir da independência... “Mártir”? E de qual independência, mesmo? Sim, porque, afinal, basta conhecer a verdadeira história do Brasil, não a dita oficial, que nos fazem “engolir” ainda na escola, descendo goela abaixo, sem que seja preciso nem nos mostrar a famosa e tão decantada pintura Tiradentes esquartejado (1893), de Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905), cujo título, por si só, já aumenta o nosso mal-estar diante da violência em questão, para saber que o alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792) não passou de um mero bode expiatório de uma frustrada conjuração que ganhou o nome de Inconfidência Mineira (1789). Mas, essa também é uma outra história... E voilà!

 

Sugestão de leitura:

No meio do caminho tinha uma Bíblia, tinha uma Bíblia no meio do caminho...

https://abagagemdonavegante.blogspot.com/2012/07/no-meio-do-caminho-tinha-uma-biblia.html


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