sexta-feira, 22 de maio de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE
CHAPEUZINHO VERMELHO


Uma parábola do estupro
Quem nunca ouviu falar da história da menininha que recebe da mãe a missão de entregar uma cesta com broas fresquinhas, um pote de geléia e um tablete de manteiga à avó doente e solitária, que vive em uma casinha, isolada, na floresta, mas não sem antes receber uma série de recomendações, tipo: não falar com estranhos? Em seu percurso, contudo, antes de chegar ao seu destino, um lobo cruza o caminho de Chapeuzinho Vermelho – a menininha – e com ela faz uma aposta: quem chegaria primeiro a casa da vovozinha? Porém, Chapeuzinho logo esquece a aposta e fica a flanar na floresta, distraindo-se com frutos, folhas, flores e vôos de pássaros. Nesse ínterim, o lobo chega a casa da vovozinha e a devora. Deitando-se na cama, ainda não saciado, fica a espera da sobremesa: Chapeuzinho, que, não demora muito, bate à porta, logo indo ter com a suposta avó – o lobo, que, alegando sentir frio, faz com que ela se deite na cama, ao seu lado, debaixo das cobertas. Só que, detalhe: além de estranhar os pêlos da suposta avó, Chapeuzinho questiona os seus olhos, nariz, mãos e boca tão grandes. É quando o lobo engole-a por inteiro, refestelando-se em seguida. E haja sono! Roncos e mais roncos, o que chama a atenção de um lenhador, que, passando defronte a casa, flagra o lobo deitado e dormindo na cama da avó de Chapeuzinho. Desconfiado, o lenhador aproveita que o lobo está em sono profundo e corta a sua barriga, tirando de dentro Chapeuzinho e a avó, salvando-as da digestão do bicho. O resto? Bom! O resto todo mundo também já sabe. O lobo morre e Chapeuzinho Vermelho sai dessa história com uma lição aprendida: não conversar com estranhos e sempre seguir o seu caminho.
Eu nunca acreditei nessa história! Sempre achei que tinha algo estranho nela... Afinal, eu não tenho só dois neurônios e li a obra do escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882 - 1948). Eu sei o que é um conto de fadas e congêneres, bem como sei ler nas entrelinhas. Ocorre que essa é a versão dada à história de Chapeuzinho Vermelho pelos alemães Irmãos Grimm – Jacob (1785 - 1863) e Wilhelm (1786 - 1859) –, que reuniram numerosos contos populares e os publicaram em 1812. Um desses contos era, exatamente, a história da menininha comida pelo lobo mau. E é a versão que conhecemos. No entanto, a origem da história é outra.














Remonta ao escritor francês Charles Perrault (1628 - 1703), que, inspirando-se na tradição oral, publicou O Chapeuzinho Vermelho, em 1697, um dos Contos da mãe gansa, com o pseudônimo Perrault d’Armancour, nome do seu filho. Poderíamos até, para nos referirmos à versão dos Irmãos Grimm, transcrever, por exemplo, as palavras do Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, do romancista inglês Lewis Carroll (1832 - 1898), publicado em 1865, que disse: “Eu sou uma fraude!”. Sim, porque, a bem da verdade, os Irmãos Grimm negaram a versão original da historinha de Chapeuzinho Vermelho e deram corpo a outra versão e possibilidades de leitura.
Tanto fizeram que amenizaram a intenção original da história, embora não tenham destituído-a do seu simbolismo. E qual era a intenção original de Perrault? Fins didáticos. Segundo a pesquisadora norte-americana Catherine Orenstein, em seu livro Chapeuzinho Vermelho desencapuzada: sexo, moralidade e a evolução de um conto de fadas, 2002, Perrault queria “alertar as jovens virgens e mesmo as não tão virgens que brilhavam na corte do Rei-Sol”, fundando, com o seu gesto, a literatura infantil clássica, não tão infantil. Para ela, “as alegorias de seus contos representam as preocupações políticas e sexuais da França no século XVII”.


Ainda segundo a pesquisadora, “vestir a sua heroína com um capuz vermelho – a cor das prostitutas, do escândalo e do sangue – simboliza o pecado da menina e a previsão do seu destino”. E ela conclui: “Somente agora, trezentos anos depois que Perrault transformou A História da vovó [tradição oral] em seu Le Petit chaperon rouge, é que o feminismo impregnou o conto de fadas de um sentido de patriarcado e nos deu o vocabulário e a estatística para ler O Chapeuzinho vermelho como uma parábola do estupro”. No caso, com o agravante da pedofilia, sendo, de certa maneira, a menina, o lobo e a vovozinha – os três – uma única personagem, em busca de uma identidade.

Diferentemente do desenho do francês Gustave Doré (1832 - 1883), a ilustração de Munro D. J., que acompanha o manuscrito de Perrault é ousada: “o lobo não usa disfarce e está em cima da menina, com uma pata de cada lado”, diz a pesquisadora brasileira Eliane T. A. Campello, em seu artigo As Múltiplas vidas de “Chapeuzinho Vermelho”. Segundo ela, que analisa a tese de Catherine Orenstein, “no fim do conto, a menina é comida por ele [lobo], sem salvação nem redenção. A perda da virgindade encontra sinônimo na expressão popular, na época do autor: elle avoit vû le loup – ela viu o lobo, incorporada na arte e na cultura dos últimos séculos com a mesma conotação sexual”.

Para o psicólogo norte-americano Bruno Bettelheim (1903 - 1990), em seu livro Na terra das fadas, ou Chapeuzinho é estúpida ou deseja ser seduzida e se finge de estúpida. Ao mesmo tempo, o pesquisador diz que “Chapeuzinho é mais madura do que João e Maria [conto publicado pelos Irmãos Grimm], demonstrando uma atitude interrogativa diante do mundo que os dois irmãos desconhecem, por não questionarem sobre a casa de biscoitos nem explorarem as intenções da bruxa. Chapeuzinho é curiosa”. Só que foi a vitória do lobo, na versão de Perrault, que levou o escritor escocês Andrew Lang (1844 - 1912) a republicar o seu Chapeuzinho Vermelho.

De fato, uma versão sem escape, a de Perrault, considerado o pai da literatura infantil. Daí, a pergunta que não quer calar: Onde esteve o pai da menina durante toda a narrativa? Simbolicamente, o lenhador? Ou, segundo Bettelheim, o sujeito oculto no lobo? E que seria, sim, “a externalização dos perigos de sentimentos edípicos reprimidos e, como caçador [lenhador] na sua função resgatadora e protetora”. Uma informação à parte: existe um adendo na história contada por Perrault. Ou seja, um pequeno poema. Nele, ainda segundo o psicólogo, ficamos sabendo que “meninas bonitinhas não deviam dar ouvidos a todo tipo de gente”. As feiosas também, bem!


Afinal, a pedofilia não vê cara. Nem o estupro. E se as meninas dão ouvidos a todo tipo de gente – prossegue Bettelheim –, “não é de surpreender que o lobo as pegue e as devore”. Igual a história foi devorada pela mídia. Afinal, o mais popular conto de fadas foi reescrito não sei quantas vezes, adaptado para o teatro e o cinema outras tantas, virou moda de canção e, até, mote de cordel, inspirando, ainda, artes as mais diversas. Agora, vamos devorar a parábola, já que as proporções do estupro e da pedofilia, no Brasil, chegaram, realmente, a proporções alarmantes. E vem de toda parte, parte para cima de qualquer um, indiscriminadamente.

Vejamos alguns exemplos, recorrendo, para isso, a imagens. Elas falam por si só...


E voilà!








Versão surreal...
























































Cenas que não gostaríamos de ver...























Desenhista do jornal português Expresso, António desenhou este cartoon e o publicou com o título Deixai vir a mim as criancinhas... E os católicos continuaram serenos! Continuam, até hoje... E haja serenidade!
























































E agora, José?



















No Brasil, o número de páginas na internet denunciadas por divulgação de pedofilia e exploração sexual de crianças dobrou entre 2006 e 2007. A informação vem da Organização não governamental que cuida da Central Nacional de Denúncias por crimes Cibernéticos.Somente em 2007 foram realizadas 267.470 denúncias a respeito de 38.760 páginas com este tipo de conteúdo, contra 121.635 em 2006, envolvendo 17.148 páginas. O aumento entre um ano e outro foi de 126%.Este aumento pode ter sido gerado por dois fatores: o crescimento em 20% dos usuários da net no país e das redes de relacionamento. Em se tratando de rede de relacionamentos, o Orkut, com perfis e comunidades virtuais, é responsável por 90% das páginas denunciadas. Portanto, pais e mães, olho vivo nos amigos, comunidades e fotos que estão disponibilizados nos perfis de suas crianças (Este texto não é de minha autoria).


















Deu no Expresso, de Portugal:

“Se depender do ministro da Justiça espanhol, Mariano Fernandez Bermejo, os juízes poderão vir a obrigar os pedófilos a submeterem-se a tratamentos de ‘inibição do desejo sexual’, ou seja, à castração química obrigatória para pessoas que tenham cumprido pena por abuso sexual de menores. O ministro da Justiça defende que tratamento siga critérios médicos e seja aplicado no caso de os visados continuarem a ser considerados perigosos para a sociedade. O tratamento com hormonas antiandrogénios leva à diminuição das hormonas masculinas ( testosterona e a di-hidrotestosterona), o que é comparável com o efeito da castração cirúrgica dos testículos. O resultado é facilmente medido através de análises ao sangue, permitindo ao clínico um melhor controlo da eficácia do tratamento”.






















Nathalie Bernardo da Câmara
Pela estrada afora...

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