segunda-feira, 14 de setembro de 2009

ATA-ME...



“A natureza nada vale
sem o clarão da sensibilidade humana...”.

Luis da Câmara Cascudo (1898 - 1986)
Folclorista e escritor brasileiro

Uma relação atávica, a da poeta brasileira Zila Mamede com o mar – ela não gostava do termo poetisa. Porém, o encontro com o mar de todas as possibilidades demorou um pouco a acontecer, já que Zila da Costa Mamede nasceu no sertão, no sítio do seu avô materno, Francisco Bezerra de Medeiros, no dia 15 de setembro de 1928, em Nova Palmeira, na Paraíba. Então um povoado, fundado por seu Caçote, como era conhecido o avô da futura poeta, juntamente com o seu padrinho de batismo, Francisco de Medeiros Dantas, Nova Palmeira foi o berço esplêndido daquela que, um dia, o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) elegeria como um dos maiores nomes da poesia nacional.

Antes disso, contudo, Zila deu duro, porque, criança e adolescente – que paradoxo! – não era afeita a livros. No máximo, parcos folhetos de literatura de cordel e versos de Olavo Bilac (1865 - 1918), lido à luz de uma lamparina a noite pela mãe, a costureira e doceira Elydia Bezerra de Medeiros. Os seus primeiros estudos? Em Currais Novos, no Rio Grande do Norte, onde moravam os avós paternos e o pai, Josafá Gomes da Costa Mamede, passou a trabalhar em uma oficina da família, que prestava serviços para firmas de beneficiamento de algodão instaladas na região. Os livros, emprestados de dona Suetônia, vieram juntos. Do Almanaque Capivarol as histórias de Monteiro Lobato. E o mar?

O mar ela só conheceria anos depois, quando, em uma viagem a Pernambuco, se viu frente a frente com aquele que, um dia, desposaria “como o canto das estrelas”... Um misto de paraibana e norte-rio-grandense – o avô materno era de Jardim do Seridó e o pai de Caicó, localidades do Rio Grande do Norte – Zila passou a morar em Natal a partir de dezembro de 1942, quando, aos quatorze anos, ela chegou, junto com a mãe, ainda desconhecendo o papel que a poesia e o mar exerceriam em sua vida. O seu pai, por sua vez, já trabalhava em Parnamirim, próximo a capital, onde fora instalada uma base da aeronáutica brasileira – trampolim entre os Estados Unidos e a Europa quando da Segunda Guerra Mundial.

Enquanto isso, prosseguindo com os estudos, Zila foi matriculada em uma escola da cidade de tradição religiosa, o que a fez despertar para uma eventual vocação. Em 1949, aos vinte e um anos, viajou de férias com o padrinho Dantas. Foi para João Pessoa e Recife. Homem culto, humanista e marxista, Dantas descobriu que a afilhada pouco sabia de literatura e passou a incentivá-la a ler. E ela leu. Lia. O português Eça de Queiroz (1845 - 1900); o brasileiro Machado de Assis (1839 - 1908); o francês Jacques Maritain (1882 - 1973); o russo Leon Tolstoi (1828 - 1910)... Zila, contudo, apesar do súbito despertar da sua porção intelectual, continuava a acalentar a aspiração em ser freira, gerando conflitos interiores.

Uma forte angústia existencial, contudo, a fez escrever e publicar na imprensa local. No início, timidamente, sobretudo após o poeta e crítico literário Antônio Pinto de Medeiros ter dito que ela escrevia bobagens. Nascido em Apodi, no Rio Grande do Norte, mas radicado em Natal, Antônio Pinto era uma referência intelectual da época. Zila não esmoreceu diante as críticas. Um dia, em uma festa, o próprio Antônio Pinto de Medeiros a tirou para dançar e elogiou o poema Mar Morto, alegando que, com esse soneto, um divisor de águas em sua produção, Zila se impunha como uma verdadeira poeta. Os versos foram publicados pela autora no jornal Tribuna do Norte, com data de 26 de maio de 1952.

MAR MORTO

Parado morto mar de minha infância
sem sombras nem lembranças de sargaços
por onde rocem asas de gaivotas
perdendo-se num rumo duvidoso.

Pesado mar sem gesto, mar sem ânsia,
sem praias, sem limites, sem espaços,
sem brisas, sem cantigas, mar sem rotas,
apenas mar incerto, mar brumoso.

Criança penetrando no mar morto
em busca de um brinquedo colorido
que julga ver no morto mar vogando.

Infância nesse mar que não tem porto,
Num mar sem brilho, vago, indefinido,
Onde não há nem sonhos navegando.

Em 1953, publicou o primeiro dos livros de poemas que escreveu: Rosa de pedra. De certa forma, apesar de visto pela autora como “intuitivo”, o livro recebeu influências da Geração de 45, registrou a pesquisadora brasileira Nelly Novaes Coelho, em seu Dicionário crítico de escritoras brasileiras. Além disso, Rosa de pedra foi considerado pelo poeta modernista brasileiro Manuel Bandeira (1886 - 1968) como “um dos melhores livros de versos” produzido, até então, no país. E foi exatamente através do amigo Bandeira, que, em 1955, Zila, que depois viria a atuar como jornalista, inclusive como correspondente internacional do jornal O Globo, conseguiu uma bolsa de estudos para estudar biblioteconomia na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, curso que concluiu em 1956.

“Nunca fui herege em minha poesia,
mas nunca fui mística”.

Zila Mamede

Depois disso, estudou administração de bibliotecas nos Estados Unidos e na Universidade de Brasília, justo durante aquele que seria o primeiro de mais de vinte anos de uma atroz e indigesta ditadura militar. Antes, contudo, publicou o livro de poemas Salinas, 1958. Laureado com o Prêmio Vânia Souto Carvalho, conferido pela Academia Pernambucana de Letras de Recife, Salinas foi definido como sendo uma transição da autora. Segundo o poeta brasileiro Paulo de Tarso Correia de Melo, em um ensaio de sua autoria, uma “transição para o canto agro-lírico de O Arado”, 1959, o terceiro livro da poeta, que, apesar do seu fascínio pelo mar, a fez falar da terra. Prefaciado pelo folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo, o livro teve quatro edições: 1959, 1978, 2003 e 2005.




No dia 1° de fevereiro de 2009, o cinqüentenário de O Arado. Porém, como aniversário de livro se comemora o ano inteiro... Rendo, então, esta sucinta homenagem não somente aos poemas arados com o sabor da terra, mas, sobretudo a sua agricultora, que, inclusive, quando eu era ainda apenas uma adolescente, ávida por livros e já cometendo travessuras poéticas, tive o privilégio de conhecer, chegando a lhe dedicar dois poemas de minha autoria. Em O Arado, portanto, Zila tece versos sobre enxadas, capoeiras, açudes, rios e pastos. Decanta a casa de farinha, a plantação, a cacimba, a ovelha e o algodão, sem esquecer-se das redes, das candeias, do barro e do pão. Do medo infante no sereno da lua. Relembra as cabaças, as roças, as tabocas, os capinzais e as ravinas.

As lavras, as eiras e o sol. As lavouras, as colheitas, as espigas e a moenda. Os mourões e os bois. O da cara preta também... Mas, recordando a fazenda do avô, o sertão de Nova Palmeira – depois Vila e, hoje, município, Zila revive as colinas, os lírios, os pastos e os penedos. Sente o gosto das frutas, dos peixes do rio. Dos pássaros e dos feixes de luz tirando os passarinhos dos seus ninhos... Reminiscências de um tempo distante, tal qual o suor do rosto de quem ara a terra, de quem tece versos e do labor que emprega nesse nem sempre fácil ofício. Em seu prefácio de O Arado, Câmara Cascudo diz que, ao escrever o livro, “Zila Mamede sentiu a voz irresistível da terra, onde vivem marujos sem mar”, dedicando-o ao avô Caçote e à Nova Palmeira.

“Os responsáveis pela grandeza poética de Zila Mamede: a liberdade sintática, a linguagem inusitada e, em muitas vezes, repentino acento metafísico...”.

Paulo de Tarso



Para Zila, o sítio do avô era a sua “terra mãe, fonte raiz, chão do meu chão”, que ela deixou, por entre caminhos ocultos, na firmeza dos cascos do cavalo... Certo dia, outros tempos, confessou: “É o chão onde nasci, e eu gostaria que ela [Nova Palmeira] fosse no Rio Grande do Norte, porque me sinto tão norte-rio-grandense que tenho susto quando olho a minha carteira de identidade”, costumando comparar-se à muda de alguma flor: “Fui transplantada muito pequena, a tempo de me sentir enraizada no Rio Grande do Norte”. E foi mesmo, transplantada e enraizada ainda menina na paisagem litorânea que não somente recorta Natal, mas, também, imprime uma espécie de marca registrada, inebriando, sobretudo os sentidos dos poetas.

Foi o caso de Zila, que, desde o seu primeiro encontro com o mar, intuiu que, nele, encontraria a redenção por cometer poemas em seu nome. Começou, então, naquele momento, uma história de amor... Depois de O Arado, contudo, Zila fez uma pausa nas publicações, mas sem deixar de lado a poesia. Dedicou-se à pesquisa e publicou: Bibliografia sobre Chico Santeiro, 1966; Luís da Câmara Cascudo: um pesquisador, 1968; Luís da Câmara Cascudo: cinqüenta anos de vida intelectual (1918 - 1968), 1970. Com o folclorista norte-rio-grandense, Zila manteve uma relação atávica, igual a que mantinha com o mar – mar esse que ela clamava por seus ventos, pretendendo desposá-lo, “como o canto das estrelas”. Em 1974, publicou, ainda, Os Vários caminhos de Maria Alice Barroso.



Câmara Cascudo e Zila Mamede

No ano seguinte, Zila lançou o Exercício da palavra, um “doce-amargo livro” de poemas, nas palavras do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). O tempo passou e, em 1978, saiu Navegos, que reuniu os seus quatro primeiros livros de poemas, acrescidos de um quinto, Corpo a corpo. Em 1984, é a vez de A Herança e, postumamente, em 1987, foi publicado, de sua autoria, Civil e geometria: bibliografia crítica e anotada de João Cabral de Melo Neto. Em 2003, em um único volume, a Editora da UFRN reeditou Navegos e A Herança. Em 2005, o historiador Claudio Galvão publicou uma biografia da poeta, intitulada Zila Mamede em sonhos navegando. No ano seguinte, Alexandre Alves lançou Silêncio, mar – A Poesia de Zila Mamede nos anos 50.

O poema Banho (rural) é um dos que constam no livro O Arado e está na seleção de Os Cem melhores poemas brasileiros do século [XX], publicada pela Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2001, pág. 141, organização de Ítalo Moriconi.

BANHO (RURAL)


De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.


Zila Mamede


Em 2008, se viva, Zila Mamede teria completado oitenta anos. Porém, ela não quis esperar data tão memorável e, no dia 13 de dezembro de 1985, com apenas cinqüenta e sete anos, na Praia do Forte, em Natal, partiu, provavelmente serena, com os “cabelos de musgos lavados de espuma”, nos braços daquele que a conquistou: o mar – um fim, contudo, não tão surpreendente assim, mesmo para uma exímia nadadora, que via nos sargaços a mortalha dos seus sonhos...
Nathalie Bernardo da Câmara


2 comentários:

  1. São pessoas como você que mergulham no tempo e nos trazem do passado ilustríssimas personalidades que por muitos tornaram-se esquecidas.
    Zila Mamede
    "A natureza nada vale sem o clarão da sensibilidade humana...".
    Adorei.
    Parabéns!

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