segunda-feira, 19 de março de 2018

ERA UMA VEZ POESIA...


“Queimar de amor: se é por isso que eu sou culpado,
que o seja, também, a minha purificação!”.

Le Testament d’un hérétique ou la dernière prière de Giordano Bruno (1994)
por Eugen Drewermann

***

“Giordano Bruno foi queimado.
Se gritou, não ouvimos.
E se não ouvimos, onde está a dor?
Mas gritou, meus amigos.
E continua a gritar...”.

José Saramago (1922 – 2010)
A Bagagem do viajante (1973)


É sempre bom lembrar: por escrever o livro Heróicos furores (1595), uma elegia ao amor, e defender a teoria heliocêntrica do astrônomo e matemático polonês Nicolau Copérnico (1473 – 1543), afirmando que o Sol estava no centro do universo, contrariando a teoria geocêntrica, imposta pela Igreja católica, entre outros pequenos “delitos”, o filósofo e escritor dominicano italiano Giordano Bruno (1548 – 1600) foi queimado vivo, aos 52 anos, numa das fogueiras da ensandecida Inquisição medieval.


O dia 14 de março de 2018 entrou para a História: num só arremate, o mundo perdeu o físico britânico Stephen Hawking, 76, em decorrência da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença degenerativa ainda sem cura, e a socióloga e vereadora brasileira Marielle Franco, 38, cravada de balas nada perdidas, vítima de um atentado político.

“Olhe para as estrelas e não para os seus pés...”.
Stephen Hawking ao completar 70 anos

No caso de Stephen Hawking, uma perda para a ciência, considerando que nenhuma outra mente tão brilhante e genial resplandeceu no universo desde a aparição por essas plagas do físico alemão Albert Einstein (14/3/1879 – 18/4/1955), a não ser a do britânico, que, aliás, era um raro exemplo de determinação, resistência e enfrentamento à doença que o consumia desde os 21 anos de idade – a respeito, em maio de 2011, Stephen Hawking declarou ao jornal britânico The Guardian: — “Vivo com a perspectiva de uma morte precoce há 49 anos. Não tenho medo de morrer, mas também não tenho pressa...”.

“Lugar de mulher é onde ela quiser...”.
Marielle Franco ao longo da sua militância política

“Cria da favela”, segundo as suas próprias palavras, Marielle Franco era mulher, negra, mãe, feminista, socióloga, ativista dos direitos humanos... Nascida no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 27 de julho de 1979, foi eleita vereadora com 46.502 votos, a quinta mais votada na cidade dita maravilhosa em sua primeira disputa eleitoral. Incomodou. Sim, mas a quem, a ponto de ela ser executada brutalmente, chocando até mesmo os corações mais empedernidos? Quem, quem se incomodaria tanto apenas porque uma jovem e bela mulher lutava por seus direitos e os dos demais? Quem, quem se sentiu tão ameaçado para autorizar uma descarga de quatro tiros a sangue frio na cabeça de um ser humano que era a encarnação em pessoa da amorosidade, solidariedade e justiça social? Foram tiros certeiros num “alvo” pré-determinado. Que sejam, então, certeiras as convicções de que o (a) mandante, covarde por excelência, de uma execução tão bárbara, seja, um dia, identificado (a) e, perante a Justiça, se é que ainda temos uma no Brasil, pague por seu crime – não com propina, mas amargando atrás de uma cela de cadeia cuja chave será jogada nas águas da Baía da Guanabara, que, de tão poluídas e em sinal de protesto, nem um escafandrista experiente, política e humanamente correto ousaria resgatá-la.

Segundo as estatísticas, a cada 100 vítimas de homicídios de mulheres no Brasil – o feminicídio  , 71 são negras... É um fato, mas, no caso de Marielle Franco, a sua cor, acredito, foi só, digamos, um “detalhe”, sobretudo se levarmos em conta as causas pelas quais militava. O que aconteceu, sem nenhuma sombra de dúvida, foi um crime com motivações políticas. Ponto. E que o (a) mandante seja punido (a) no rigor da lei – o ideal, eu sei, mas, diante da atual conjuntura, qual lei? E em defesa de quem? A serviço de quem?

Fico a divagar, pensando que, agora, em universos paralelos, Stephen Hawking e Marielle Franco possam empreender um tour de force para que, antes tarde do que nunca, não nos surpreendendo, a verdade venha à tona, porque, afinal, como diria o físico, o universo caberia numa casca de noz – sugiro uma casca de pitomba, ainda menor, mas que, pelo menos, numa ou noutra, contenha uma lasca de nós, gravitando...

É curioso... No documentário Into the Universe, do The Discovery Channel, exibido em 2010, Stephen Hawking fez, provavelmente, uma espécie de premonição: “Se os extraterrestres visitarem-nos algum dia, eu acredito que o resultado será parecido a quando Cristóvão Colombo desembarcou na América, um resultado nada positivo para os nativos”.

Não duvido de nada!

O fato é que o 14 de março foi uma jornada de luto – no caso do Brasil, onde se comemora o Dia Nacional da Poesia, não houve verso que não derramasse uma lágrima no Estácio, a ponto de eu até pensar no ator, cantor e compositor brasileiro Luiz Melodia (1951 – 2017), que também deve ter derramado as suas.

E a poesia pede licença, mas presente, sempre...

Nathalie Bernardo da Câmara



domingo, 11 de março de 2018

FEIRA PARA QUE TE QUERO...


“O uso de plantas medicinais faz parte do conhecimento tradicional da humanidade e desde os tempos mais remotos vem sendo utilizada na prevenção e tratamento de seus males. O resgate desses valores culturais aliado aos conhecimentos científicos é recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS)” - Walter Radamés Accorsi, professor da Escola Superior Luiz de Queiroz - ESALQ/USP.



Todo domingo, na feira, uma de Natal, dita popular, é uma surpresa ou fico sabendo de uma novidade: a de hoje, foi demais! Ou de menos. Saí em busca de um ramo de arnica para fazer uma infusão com álcool de cereais, igualmente medicinal, usado, inclusive, pela homeopatia, da qual sou adepta desde criança. Detalhe, por possuir substâncias tóxicas, a única arnica que pode ser ingerida, via oral, pois a família é grande, é a Montana – arnica é adstringente; analgésica; anti-inflamatória; antiespasmódica, estimulante circulatório; é hipotensora; sedativa; tônico cerebral etecetera, ou seja, uma das maravilhas da natureza: dá uma imunidade incrível! – na última vez em que morei em Brasília, o pessoal entrava nos ônibus vendendo ramos de arnica. Cansei de comprar os tais ramos.
Então... Chegando à banca da mangueira, ela disse que não vende mais e que eu não encontraria arnica nem na feira do Carrasco, que acontece toda quarta-feira, no bairro das Quintas. Fiquei querendo entender e a senhora ainda disse que, se eu quisesse arnica, fosse a uma farmácia qualquer, comprá-la em comprimidos. Revoltei-me: eu sou lá mulher de comprar arnica em comprimido?! Não sou astronauta.
De volta para casa, pensei em ligar para uma grande amiga farmacêutica, da Officinalis, que, entre outras fórmulas, produz arnica Montana, para ingerir. Só que é caro demais! Por isso que queria fazer em casa. E também pensei que, nos anos noventa, quase não acreditei quando, em Paris, numa rua que dava para a Praça d’Italie, vi uma vitrine que praticamente estampava toda a floresta amazônica: eram os mais variados produtos naturais made in Brazil. Sim, tipo copaíba, andiroba e por aí vai...
Na verdade, a Amazônia não é somente o pulmão do planeta, mas também onde reside toda uma farmacopeia capaz de curar os males da humanidade. Tanto que, no quesito aroma, reza a lenda que o segredo do perfume mais famoso do mundo, o Chanel nº 5, veio das nossas florestas – não sei de nada. Enfim! Ontem, um amigo carioca postou uma matéria sobre o Camapu, uma planta amazônica com o poder de criar novos neurônios e ajudar no tratamento do Alzheimer. Que o seja!

Nathalie Bernardo da Câmara