segunda-feira, 1 de julho de 2019

ERA UMA VEZ UM PÉ DE FEIJÃO...


Foto e edição de imagem: NBC

“Sabe aquele pote de feijão que você achou que era sorvete? O amor é mais ou menos isso”
Soulstripper, banda de rock de Piracicaba (SP), considerada irreverente e divertida pelos fãs.


Nem vaca, nem um punhado de supostos grãos mágicos de feijão, nem galinha, nem dobrões de ouro, nem harpa, nem castelo e nem gigante como consta nas controversas histórias de ‘João e o pé de feijão’, de origens inglesas, ouvidas na infância, mas apenas um simples pé de feijão. Quer dizer, não tão “simples” assim...

Então!

Em abril, o meu sobrinho presenteou-nos com uns quilos de feijão verde, nas vagens, fruto de um belo trabalho seu na chácara do meu pai. Mamãe e uma amiga nossa encarregaram-se da missão que foi a de debulhar as vagens. Um grão, entretanto, voou e caiu numa pequena área de terra do nosso quintal. Passaram-se alguns dias e, logo após umas certas chuvas que andaram caindo em Natal, brotou da terra um pé de feijão. Uns duvidaram, eu não. E o pé de feijão foi crescendo ao lado de um manjericão igualmente nascido de uma semente que voou com o vento do outro lado do quintal, onde, há anos, um canteiro abastece-nos com a planta encantada e para lá de cheirosa. De repente, esse pé de feijão foi “ganhando corpo”: engoliu o manjericão e também foi apossando-se de algumas plantas ornamentais – chegou até o telhado de uma casinha ao lado! Folhas imensas. E dando feijão. Perguntei ao meu sobrinho qual o segredo desse pé, se ele tinha colocado um adubo especial nos grãos que plantava, se os mesmos eram transgênicos ou algo parecido. Ele disse-me que os grãos eram orgânicos, mas se o meu pé avantajou-se – eu o adotei, “batizando-o” de Lumière – deve ter sido porque nasceu sozinho, não junto com outros. Pois. Agora, resta-nos admirá-lo, soberano. Pela manhã, então, é uma graça: as flores branquinhas, pululando por toda parte – depois elas amarelam –, e eu tirando as vagens, já dando refeições! E ideias... Enquanto isso, vamos curtindo a beleza que é a natureza e os seus mistérios.

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Só que o tempo passa e o meu pé de feijão continua a “escandalizar”, insistindo em se imiscuir por entre outros vegetais ao redor (mamãe diz que está acabando com as plantas dela), ganhando ainda mais altura, tipo uma trepadeira, subindo nas paredes, enroscando-se nas grades, decorando janelas, indo além das telhas da casinha dos fundos, brotando a céu aberto, por toda parte. Impressionante! Daqui a pouco, fico a imaginar, ele vai “pular o muro” e parar na casa da vizinha... Enquanto isso, a gente comendo feijão! E até dando de presente, apesar de eu aguardar a visita de um amigo agrônomo para estudar o “fenômeno” – nesse ínterimpenso no meu finado avô materno, o meu querido Neco, como costumava chamá-lo, que, na minha infância, quando os meus pais tinham uma granja, mais parecendo uma fazenda, de tão grande, ele, que era agricultor, encarregava-se dos plantios: macaxeira, batata doce, jerimum, que mamãe adora, vários outros vegetais e... feijão, que ele me ensinou a plantar e a colher. Além disso, vovô também me ensinou a pescar, nos rios e no mar – adoro pescar, até hoje!

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O poeta cubano José Martí (1853 - 1895) acreditava que “toda glória do mundo cabe num grão de milho”. E o que caberia num grão de feijão?

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Outro fato é que venho fotografando todo esse processo (amostra abaixo) – coisa que, particularmente, me fez um bem enorme, pois, só assim, renasceu o meu encanto pela fotografia, arte que domino desde a adolescência, mas que, há alguns anos, por motivos pessoais, passei a ignorar. Desse modo, só posso dizer que o bendito grão que fez brotar o intrépido pé de feijão igualmente resgatou um dom meu da letargia, carregando junto a minha ludicidade. E lembrei-me do estimado escritor português José Saramago (1922 - 2010), que, um dia, chegou a dizer algo mais ou menos assim: Levantar do chão é como brotar da terra, uma espécie de germinação, disseminando...

Lumière, o meu pé de feijão, e o pé de manjericão, quando tudo começou...


Em questão de dias, para a minha tristeza, numa rapidez surpreendente, o pé de feijão "engoliu" o de manjericão...


















A primeira vagem seca do meu pé de feijão, o branco, embora já sejam muitas, pedindo para serem degustadas e, ao mesmo tempo, socializadas, para germinarem.


A primeira "leva" de feijão verde do meu pé...


Outras "levas"...


O meu pé de feijão já produziu mais de dois quilos do grão...


O resultado das minhas práticas lúdicas: peixe frito no óleo de soja - transgênico, para "esculhambar" tudo - e no azeite de dendê, que me valeu uma queimadura no corpo, pois, ao colocar a posta na frigideira, estava sem blusa, por causa do maledetto calor, e tudo respingou. Só doeu na hora, mas tudo vale a pena se for para uma bela foto. Então, o arroz... Refoguei alho e pimentas de cheiro coloridas no azeite de oliva e depois o arroz. Em seguida, coloquei bastante açafrão e uma pitada de sal. Por fim, o feijão, do meu pé, decorado com cebolinha e coentro picados. Seria redundante dizer que foi uma refeição daquelas, acompanhada de um suco de mangaba.

E voilà!

adendo: 







02/08/2019... 

O meu pé de feijão garantindo um jantar nordestino. Quer dizer, quase, porque faltou o queijo de coalho e a manteiga do Sertão na macaxeira, já que o colesterol disse "não". E com direito a suco de caju.


Nathalie Bernardo da Câmara

segunda-feira, 29 de abril de 2019

CIVILIZAÇÃO X BARBÁRIE

“Marielle era importante, sim, e incomodava muito, a ponto de ter sido assassinada”
– Marcus Ravelli (Quinho), jornalista, ilustrador, chargista e caricaturista brasileiro, autor da arte acima 


em Paris, flor no asfalto
no Brasil, despetalada de assalto


Enquanto Marielle Franco vai virar nome de um jardim suspenso num espaço público da capital francesa, simples assim, uma homenagem à socióloga, política, feminista e ativista dos direitos humanos brasileira nos tradicionais tapetes de serragem da cidade mineira de Ouro Preto foi covardemente pisoteada por agentes da Guarda Civil Municipal na madrugada do domingo de páscoa (21/04), logo após a criação da arte, numa das ruas de paralelepípedos da cidade. O gesto de selvageria, entretanto, repudiado por moradores e turistas, tão somente refletiu a mentalidade obtusa, preconceituosa e violenta daqueles que, barbaramente, a tiros, executaram a vereadora fluminense Marielle Franco, 38, e o seu motorista, Anderson Gomes, 39, no Rio de Janeiro, em 14 de março de 2018 – à época, um tapete de serragem, o primeiro, criado em memória da parlamentar recém-falecida, também foi destruído em Ouro Preto.




Nos dias atuais, a cena de um segundo tapete em homenagem à vereadora sendo pisoteado, inicialmente por um policial, depois surgindo mais dois, foi fotografada e filmada pelos presentes, que também registraram a reação condoída de um morador de Ouro Preto diante da agressão, o turismólogo Rafael Gonçalves Mendes, 37, que, ao tentar impedir a destruição do tapete, se fez ouvir, dizendo que ninguém ia chutar nada, que a comunhão e a liberdade deveriam ser respeitadas, ameaçando ligar para um padre conhecido seu e pedir providências contra tamanha violência. Entrevistado por uma revista brasileira, após a polêmica estabelecida, Mendes disse: — Não queria enfrentar a Guarda, minha intenção era evitar a truculência. A própria igreja católica, em sua campanha da fraternidade, convoca os cristãos a participarem mais da política. Não sei por que gera tanto problema citar o nome da Marielle. Não se trata só da Marielle, é sobre violência.
(Nem é preciso dizer que as imagens da agressão capturadas pelos presentes, nas quais o rosto de Marielle feito de serragem é desfeito e é possível ouvir protestos, tipo “liberdade de expressão” e “Marielle Vive”, viralizaram nas redes socias da internet, a ponto de o assunto entrar na lista dos trending topics do Twitter).
Saindo em defesa dos agentes agressores, o Comando da Guarda Civil Municipal publicou uma mensagem em sua conta do Instagram, alegando que “desenhos de cunho político, entre outros”, sem relação com os “tapetes devocionais”, eram proibidos, disparando, em certo trecho, que “a liberdade de expressão não é absoluta, ainda mais quando outros direitos estão sendo afetados”. Em meio à polêmica, mas sem opinião formada sobre o fato, explicando que depois emitiria uma nota oficial a respeito, a prefeitura de Ouro Preto informou que “houve uma recomendação da Arquidioceses de Mariana para que moradores e turistas fizessem apenas tapetes com conteúdo devocional e religioso relacionado à semana santa e as suas celebrações”, conforme áudio divulgado em rádios locais pelo cônego Luiz Carlos César Ferreira Carneiro, também informando que panfletos foram distribuídos à população local, bem como aos turistas, pedindo que a recomendação da Igreja fosse respeitada, a fim de que desenhos não fossem desfeitos – argumentações que, por si só, não se sustentam.
Primeiro porque uma recomendação nada mais é do que uma recomendação, não uma ordem – o que dirá uma lei!
Segundo porque a comemoração da semana santa não é uma prerrogativa apenas da igreja Católica enquanto instituição, mas dos católicos como um todo. E considerando que a fé, primeira das três virtudes teologais, é de foro íntimo, cada fiel profere a sua de acordo com a compreensão que tem de verdade. Sem falar que não são apenas católicos, crianças também, que participam da tradicional confecção dos tapetes de serragem de Ouro Preto, criados e exibidos sobre os paralelepípedos das ruas da cidade, por onde passa a procissão do santíssimo sacramento no domingo de páscoa.
Terceiro porque, apesar de organizado pela Paróquia do Pilar, a montagem dos tapetes devocionais é realizada em espaços públicos e conta com o apoio e a participação, em âmbito municipal, do Estado brasileiro, que, por sua vez, é laico, o que garante, portanto, o direito das pessoas de homenagearem o seu objeto de devoção, pertença ele ou não ao universo cristão (se abrirmos um dicionário, veremos que vários são os significados do vocábulo ‘devoção’) – entendimento de muitos no que concerne à criação dos tapetes e que, de há muito, participam da tradição na madrugada do domingo. Isto é: os tapetes tanto podem homenagear um ícone religioso ou ser uma mensagem de evangelização, como também fazer alusões às tragédias do Rio Doce e Brumadinho, além de um leque de possibilidades de desenhos, como, por exemplo, o de pombas brancas, simbolizando ora a paz, ora o Divino Espírito Santo; riscados de flores, de figuras geométricas; imagem de uma caveira ou, até mesmo, de um dinossauro – as duas últimas ilustrações igualmente destruídas: a da caveira, inspirada num afresco da igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, neste ano de 2019, e a do singelo dinossauro em evento anterior.
Curiosamente, na edição dos tapetes de serragem de 2017, pelo menos três artes de cunho político, “modalidade” supostamente interditada pelas “Tábuas da Lei” do Comando da Guarda Civil Municipal de Ouro Preto foram criadas, exibidas e não destruídas: um declarado “Fora Temer”, seguido de outro tapete com o símbolo do anarquismo, além de um afetuoso “Volta Querida”, numa explícita referência à presidenta Dilma Rousseff, deposta injustamente um ano antes, alvo de um impeachment que, desde o início do seu processo, se revelou um golpe de Estado contra o povo brasileiro. Desse modo, por que cargas d’água os tapetes em homenagem a Marielle Franco, criados em 2018 e em 2019, foram massacrados por botas policialescas que, se seguissem à risca a “lógica” do Comando da Guarda Civil, teriam, de igual modo, destruído, ano retrasado, os três tapetes de cunho político mencionados acima?
Afinal, que “lógica” mirabolante e incoerente é essa e que mal faz uma sadia manifestação cultural, ainda mais numa cidade tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1980? Sem falar que, em seu perfil no Facebook, o comandante da Guarda Civil Municipal de Ouro Preto, de nome Jonathan Marotta, publicou uma postagem com fotos da agressão ao tapete em homenagem a Marielle e a seguinte frase: “Guardas municipais 2X0 Esquerda”. Sobre tal episódio, a assessoria da Prefeitura diz que “foi uma atitude isolada e individual do servidor e que a Administração Pública não tem acesso sobre os posicionamentos pessoais dos seus funcionários”.
Não à toa, o Partido Socialismo e Liberdade (Psol), agremiação partidária à qual a vereadora Marielle Franco pertencia quando do seu assassinato, entrou com uma representação no Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos e Apoio Comunitário doMinistério Público de Minas Gerais (MPMG), a fim de que sejam investigadas ações da Guarda Civil Municipal de Ouro Preto contra as agressões aos tapetes em homenagem a Marielle, consideradas um atentado à liberdade de expressão, direito garantido constitucionalmente – trecho da representação: “Ainda que a liberdade de se expressar não seja um direito absoluto, não pode se confundir com o discurso de ódio, o incentivo à violência e a reprodução de preconceitos sociais, raciais, étnicos e de gênero. Afirmar que o rosto da ex-vereadora afetava outros direitos é uma justificativa vazia para justificar os atos de tolhimento à uma manifestação popular legítima e democrática”. Para o Psol: “A ordem e a execução da destruição do tapete, além da configuração de abuso de poder, expressam uma clara afronta aos princípios sensíveis da Constituição Federal” e que, por isso, “é possível, no caso tratado em tela, ajuizamento de Ação de Improbidade Administrativa perante o Comando da Guarda Civil, visto que o exercício da função pública foi realizado de forma totalmente arbitrária, violando, assim, os princípios da legalidade e moralidade”.
Impactante, o fato repercutiu, mas, uma semana depois de acontecido, ainda se espera a prometida nota oficial da prefeitura de Ouro Preto. Enquanto isso, ainda ecoando nas ruas da cidade, o bordão “Marielle Vive”...

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Jardin Marielle Franco

 Arte digital do projeto do Jardim Marielle Franco, em Paris

Segundo reportagem de Patricia Moribe/RFI (17/04), a comissão de denominação de ruas da prefeitura de Paris anunciou, em 16 de abril, o local escolhido para uma homenagem à vereadora brasileira Marielle Franco: um novo espaço verde junto à Gare de l’Est, uma das principais estações de trem de Paris – a decisão, entretanto, ainda precisa ser ratificada pelo conselho do 10° distrito, bairro onde fica a futura praça, no dia 28 de maio, e depois pelo Conselho de Paris, que vota no dia 11 de junho.
O primeiro passo para ter um logradouro parisiense em homenagem à vereadora (PSOL-RJ), diz a reportagem, foi dado em fevereiro do corrente através de carta aberta do Coletivo Rede Europeia pela Democracia no Brasil (RED-Br) à prefeita Anne Hidalgo, do Partido Socialista (PS), que adotou a petição e, no começo de abril, comemorou a aprovação da homenagem pelo conselho de Paris, que reúne os vereadores da cidade.
De acordo, ainda, com a reportagem, “o espaço vai ser implantado no terraço de um hotel em construção ao longo da via férrea”, cujas obras devem terminar no final de julho. “O jardim vai ficar no nível da rua, que se eleva paralelamente aos trilhos. A inauguração do Jardim Marielle Franco deve acontecer no segundo semestre, provavelmente em outubro”, informou a historiadora Juliette Dumont, do RED-Br, que, em comunicado, mostrou satisfação pela escolha: “É um local amplo, arborizado, com vista espetacular dos telhados de Paris, em um bairro muito animado e ainda popular. Achamos que a memória de Marielle vai poder crescer ‘como uma flor no asfalto’, segundo expressão que ela dizia com frequência antes de morrer”.

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Era uma vez a história de uma placa...

 Placa em homenagem à vereadora Marielle Franco no centro da cidade que foi destruída
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

14 de março de 2018. Ao sair de um evento no qual era palestrante, a vereadora Marielle Franco e o seu motorista, Anderson Gomes, foram sumariamente executados a tiros no bairro do Estácio, Região Central do Rio de Janeiro – em reposta ao duplo homicídio, protestos eclodiram, no Brasil e no estrangeiro. Porém, uma homenagem póstuma que, aparentemente, se pretendia individual, conquistou uma visibilidade impressionante: atendendo a um inusitado e singelo pedido de uma amiga, o dono de uma gráfica em Benfica, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, confeccionou o que seria uma placa de rua, apenas uma, com o nome de Marielle Franco, a fim de ser levada para mais um ato em memória da política e do motorista, previsto para acontecer no centro da cidade, em 20/03/2018.
Iniciando-se na Candelária, o ato culminou na Cinelândia com uma cerimônia ecumênica, e, na Avenida Rio Branco, sobre a placa que identifica a Praça Floriano, endereço da Câmara Municipal, onde a vereadora cumpria o seu primeiro mandato, foi colocada a placa encomendada ao gráfico e reproduzida acima, mudando, informal e simbolicamente, o nome do logradouro para Rua Marielle Franco. Lá, a homenagem permaneceu até que, em setembro, pouco antes das eleições, como se não tivessem mais o que fazer, o candidato a deputado estadual Rodrigo Amorim e o candidato a deputado federal Daniel Silveira, ambos do PSL-RJ, registraram em vídeo o momento em que retiraram a placa/homenagem com ares de quem empreende algum grande feito.
Nas postagens do vídeo em suas redes sociais da internet, Silveira alegou que o assassinato da vereadora não justificava a homenagem, que, desmerecidamente, ele classificou de “vandalismo”. Dias depois, num palanque político na cidade de Petrópolis, os dois candidatos são flagrados por diversas câmeras quebrando a referida placa e exibindo-a quebrada na companhia do também então candidato, mas a governador do Rio de Janeiro pelo PSC, o advogado e ex-juiz federal Wilson Witzel, que, sorrindo a contento, fazia as honras do “palco” para os dois exibicionistas  – cena que foi igualmente divulgada na internet, assim como outro vídeo, gravado por Amorim e Silveira, comentando que, com o seu gesto, eles apenas “restauraram” um patrimônio público “depredado”. No final da gravação, os dois debochadamente bradam: “Marechal Floriano, presente!”, alusão desrespeitosa e provocativa à frase “Marielle, presente!”, entoada seguidas vezes em manifestações após a morte da vereadora.


 “Da camisa preta de Amorim (o rapaz de barba com as duas fatias de placa nas mãos, que viria a ser o deputado estadual mais votado no Rio de Janeiro) sai um rosto de Bolsonaro, como se este deixasse de ser oculto após o rasgo na placa. O braço erguido de Witzel, punho fechado, lembra o gesto dos Panteras Negras, que protestavam contra o racismo nos Estados Unidos. Uma apropriação involuntária e certamente indébita. Quando a foto se tornou pública, Witzel culpou seus colegas de palanque pelo ato” – Luiz Fernando Vianna, jornalista (Época, 12/03/2019).
Foto: Reprodução.

Como se não bastasse a sequência de bestialidades e à galope, os dois incautos candidatos foram eleitos nas urnas, assim como a toga desbotada do “locutor”, que, à ocasião, com a sua atitude, não fez que endossar o gesto dos agressores, causando revolta, igual causou indignação a eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil. Só que, enquanto o trio e “Mickey Mouse” seguiam em frente – a imagem de Bolsonaro na camisa preta de Amorim, por causa de adesivos colados no tecido, mais parece o ratinho animado criado por Walt Disney (1901 - 1966) –, reproduções da placa/homenagem a Marielle Franco também seguiam, virando um símbolo de luta e resistência, ganhando as ruas, à vontade e para qualquer satélite que quisesse registrar...

Das praças às ruas

 Distribuição de placas em ato na Cinelândia, em 14/10/2018
Crédito: Reprodução/Fabio Motta/AE

       Estarrecida com a imagem da placa quebrada, a equipe do site de humor Sensacionalista decidiu agir para reconstruir a homenagem à vereadora assassinada: “O que foi quebrado não foi uma placa, foi a Marielle, mais uma vez. A imagem de uma mulher, negra, que se recusou a cumprir o destino de servir o cafezinho. Que mal Marielle fez para merecer esse ódio?”, questionou o jornalista Nelito Fernandes, sócio do site. À época, segundo o jornalista, o site decidiu organizar uma campanha para fazer novas placas. E organizou. Em 04/10/2018, através da ferramenta Catarse, foi lançada uma campanha de financiamento coletivo e virtual com o objetivo de arrecadar R$ 2.000 para a confecção de cem placas de ruas, reproduzindo a inicial, mas, para não ser acusada de “incitar o vandalismo”, com tamanho diferente do padrão de identificação das ruas do Rio de Janeiro. Não demorou, em apenas 24 minutos de lançada, a campanha conseguiu arrecadar o valor previsto e, no meio da tarde, quase R$ 30.000. Resultado: ao invés das cem placas pretendidas, os organizadores da campanha reproduziram mais de mil, distribuídas no ato ‘Mil placas para Marielle’, realizado na Ceilândia no dia 14 de outubro, quando o duplo assassinato completou sete meses. Um sucesso, a campanha expandiu-se, gerando placas e mais placas...


Para a professora Ynaê Lopes, do CPDOC da Fundação Getulio Vargas, ações como a da multiplicação das placas “comprovam que há uma mobilização social forte e um exercício pleno de cidadania de muitos brasileiros ao fazer com que a execução de Marielle não seja esquecida”. Além disso, representam um desejo “de mostrar que as bandeiras defendidas por Marielle continuam fortes, ganhando cada vez mais notoriedade” e que o simbolismo de ações como essa demonstra “a possibilidade dos cidadãos se reunirem e exigirem pacífica e democraticamente que suas demandas sejam atendidas pelo poder público”. Para Lopes, “infelizmente foi necessário que uma mulher negra, de origem pobre, LGBT e defensora dos direitos humanos fosse executada para que as pautas por ela defendida ganhassem mais notoriedade” – trechos extraídos de uma entrevista publicada pela Época, em 14/03/2019.


Ao assumir o governo do Rio de Janeiro, Wilson Witzel foi o primeiro que tentou desvencilhar-se do episódio ocorrido num palanque de Petrópolis, quando Silveira e Amorim quebraram a placa de rua Marielle Franco. Pedindo desculpas pelo fato, o atual governador recebeu a família da vereadora. Amorim, por sua vez, guardou com ele a placa quebrada e emoldurou um fragmento em seu gabinete, declarando ao jornal O Globo, arrogante e insensivelmente, que o gesto representava a “volta da ordem ao Rio de Janeiro”. Outros deputados também colocaram placas de Marielle em seus gabinetes, mas rendendo uma homenagem à vereadora assassinada, igualmente reverenciada não apenas nas placas, em atos, tributos, protestos, grafites, entres outros, como, por exemplo, pela Estação Primeira de Mangueira, campeã do Carnaval carioca de 2019, recebendo merecido destaque no samba-enredo, História pra ninar gente grande, que recontou a história do Brasil através da resistência negra e indígena.
Curiosamente, dois dias antes de completar um ano da execução da vereadora Marielle Franco e a do seu motorista, Anderson Gomes, o caso voltou a estampar as manchetes com as prisões de um PM-reformado e de um ex-PM como suspeitos do crime, respondendo à pergunta feita por quase doze meses mundo afora, ou seja: “Quem matou Marielle Franco?”. Segundo afirmou a força-tarefa que levou à Operação Lume, responsável pela investigação das duas mortes, o motorista do carro que perseguiu o da vereadora foi o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, 46, e o atirador o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, 48 – apesar das prisões, a condução do caso foi questionada e a Polícia Federal abriu um inquérito para apurar as ações da Polícia Civil, com o governador anunciando uma troca de delegado para dar continuidade às investigações dos assassinatos.
Um ano após o duplo homicídio, o Coletivo Chama (link abaixo), uma agência e rede de apoio a movimentos e causas sociais, lançou o portal Rua Marielle Franco (link abaixo), disponibilizando para download gratuito a placa que se tornou um dos símbolos da sociedade civil em manter viva a memória da vereadora e as bandeiras pelas quais ela lutava, e que, desde a campanha virtual do site Sensacionalista, já teve mais de 18 mil cópias distribuídas no Brasil e no exterior, esperando-se que esse número só tenda a crescer, mesmo porque o povo brasileiro e o mundo ainda precisam saber a resposta para outra pergunta, que seria: “Quem mandou matar Marielle Franco?”

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Quem foi Marielle Franco?



“Mulher, negra, mãe e cria da Maré”,
assim se apresentava a defensora dos direitos humanos, socióloga, mestra em administração pública e vereadora Marielle Franco, que lutava por direitos iguais e pela paz.

 

 

Biografia, linha do tempo e muito mais sobre Marielle Franco

 

Download gratuito para obter a placa Rua Marielle Franco (baixar a arte para imprimir numa gráfica perto de você)

 

Agência e rede de apoio a movimentos e causas sociais

 


Outros sites relacionados:

Jornais e revistas

O Tempo (25/04/2019) – Psol pede que MPMG investigue censura a tapetes de Marielle em Ouro Preto – Link: https://www.otempo.com.br/pol%C3%ADtica/psol-pede-que-mpmg-investigue-censura-a-tapetes-de-marielle-em-ouro-preto-1.2173064

O Globo (23/04/2019) – Comandante da Guarda de Ouro Preto comemora destruição de tapete de Marielle – Link: https://oglobo.globo.com/rio/comandante-da-guarda-de-ouro-preto-comemora-destruicao-de-tapete-de-marielle-23616800

Correio Braziliense (22/04/2019) – Guarda municipal de Ouro Preto destrói tapete de serragem em homenagem a Marielle – Link: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/04/22/interna-brasil,750796/guarda-municipal-de-ouro-preto-destroi-tapete-em-homenagem-marielle.shtml

G1 (22/04/2019) – ‘Frustrante’, diz moradora que também teve tapete de serragem destruído em Ouro Preto – Link: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/04/22/frustante-diz-moradora-que-tambem-teve-tapete-de-serragem-destruido-em-ouro-preto.ghtml

Revista Fórum (21/04/2019) – Guarda Civil de Ouro Preto destrói homenagem a Marielle e dispara: “Liberdade de expressão não é absoluta” – Link: https://www.revistaforum.com.br/guarda-civil-de-ouro-preto-destroi-homenagem-a-marielle-e-dispara-liberdade-de-expressao-nao-e-absoluta/

RFI (17/04/2019) – Marielle Franco vai virar nome de Jardim em Paris – Link: http://br.rfi.fr/franca/20190417-marielle-franco-vai-virar-nome-de-jardim-em-paris

Carta Capital (12/04/2019) – Assassinos de Marielle Franco planejaram o crime durante três meses – Link: https://www.cartacapital.com.br/politica/pms-sao-presos-suspeitos-da-morte-de-marielle-franco/

BBC (12/04/2019) – Caso Marielle Franco: quem são os dois presos e o que falta saber sobre os assassinatos – Link: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47539123

O Globo (31/03/2019) – Identidade de militante que teve a ideia da placa Marielle Franco permanece em segredo – Link: https://oglobo.globo.com/rio/identidade-de-militante-que-teve-ideia-da-placa-marielle-franco-permanece-em-segredo-23563473


Época (14-15/03/2019) – Um ano após assassinato de Marielle, placas se tornam símbolo em protestos – Link: https://epoca.globo.com/um-ano-apos-assassinato-de-marielle-placas-se-tornam-simbolo-em-protestos-23523249

G1 (12/04/2019) – Caso Marielle e Anderson: PM reformado e ex-PM são presos suspeitos do crime – Link: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/03/12/policia-prende-suspeitos-pelos-assassinatos-da-vereadora-marielle-franco-e-anderson-gomes.ghtml


Época (12/03/2019) – Análise: a morte e as mortes de Marielle – Link: https://epoca.globo.com/analise-morte-as-mortes-de-marielle-23516773

EL PAÍS – Caso Marielle Franco – Link: https://brasil.elpais.com/tag/caso_marielle_franco

Agência Brasil (04/10/2018) – Após ataques, campanha por placas de Marielle já arrecada R$ 28 mil – Link: http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/apos-ataques-campanha-por-placas-de-marielle-ja-arrecada-r-28-mil


Brasil 247 (16/04/2017) – Ouro Preto: procissão tem “Fora Temer” e “Volta Querida” nos tapetes – Link: https://www.brasil247.com/pt/247/minas247/290622/Ouro-Preto-prociss%C3%A3o-tem-%E2%80%9CFora-Temer%E2%80%9D-e-%E2%80%9CVolta-Querida%E2%80%9D-nos-tapetes.htm

quinta-feira, 18 de abril de 2019

HOJE EM DIA, NEM OS BEATLES SERIAM RESPEITADOS NUMA FAIXA DE PEDESTRES

Composição da imagem de Amarildo Lima (dezembro de 2014), artista sui generis.

No dia 08 de agosto de 1969, o fotógrafo escocês Iain Macmillan (1938 - 2006), amigo de Yoko Ono e John Lennon (1940 - 1980) teve dez minutos para registrar os Beatles atravessando a Rua Abbey Road, St. John’s Wood, em Londres: o artista fez seis fotografias, sendo escolhida para a capa do disco Abbey Road a postada acima – em 2010, a famosa imagem tornou-se patrimônio britânico.


Alguém atrás de um volante de carro que atravessa o semáforo no amarelo já é um desatinado – o que dirá de quem passa no vermelho! No mínimo, um sem noção, um kamikase. Daí, um conselho: sendo ou não pedestre, apegue-se aos seus sentidos, já que, afinal, segundo reza um dito popular, seguro morreu de velho e estamos por nós mesmos... Para não termos “surpresas”, devemos, sim, esperar alguns segundos para atravessar uma via. Tipo hoje, quando, num canteiro bem no cruzamento de duas avenidas de Natal (RN), a Nascimento de Castro e a Prudente de Morais, ambas bastante concorridas por automotores, presenciei uma cena que, não é de hoje, anda a repetir-se: com o semáforo mesmo fechado, no vermelho, uma dada criatura, vindo da Nascimento – inclusive com o carro repleto de crianças –, não contou conversa e acelerou ainda mais, por pouco não causando um acidente daqueles, já que a hora da vez era para quem trafegava pela Prudente de Morais. No canteiro onde eu estava, coisa que nem gosto, pois não me sinto segura – vai que um desnaturado perde o controle e plante-se no dito cujo –, quieta estava, quieta fiquei. Em termos, pois, mesmo que em vão, ainda consegui xingar quem “desconduzia” o veículo, inclusive com os vidros todos fechados – se brincar, ainda rolava um som ambiente –, comprometendo a audição até de um tuberculoso, que dizem, ouvem melhor do qualquer um dito normal. Então, quando a criatura ensandecida passou, pude, finalmente, atravessar a via. Um absurdo, isso, mas, o que fazer, se a mais importante das educações é adquirida ainda no berço? Lembrei-me, então, de uma campanha cujo “espírito” é a busca da paz no trânsito e que, todos os anos, costumo divulgar. Sim, o movimento ‘Maio Amarelo’, que, desde o início de abril, vem, por e-mail, enviando-me a prévia do material publicitário da tal campanha, promovida pelo Observatório Nacional de Segurança Viária, para o ano de 2019.

Pois, tomando nota: no dia 24/04, a campanha nacional por um trânsito mais seguro, cujo tema do ano é ‘No trânsito, o sentido é a vida’, será lançada em Vitória (ES) – à ocasião, peças publicitárias (áudio e vídeo) serão disponibilizadas ao público em geral. 
E é isso!

Nathalie Bernardo da Câmara



quinta-feira, 7 de março de 2019

ERA UMA VEZ BRASIL... OU O BRASIL PASSANDO NA AVENIDA, NA PASSARELA DO SAMBA





Acordei hoje pensando numa questão matemática – acho que é matemática, mesmo porque não sou muito boa na matéria, com contas, mas, que o seja: como pode Lula e Dilma terem sido eleitos e reeleitos com mais de 50% dos votos do eleitorado brasileiro e, recentemente, o celerado de plantão também? Sim, sabemos que só prenderam Lula para que ele não fosse novamente eleito e a suposta facada dada por opositores a certo candidato à presidência do Brasil fez as pessoas ficarem com peninha de um tolo que faz apologia à tortura  suposta facada porque é até leviano alguém se auto-infligir para capitalizar pena e votos. Então... Os votos a mais que o neonazista recebeu, independente de uma facada – mal dada, aliás – seriam oriundos, então, dos votos brancos e nulos que Lula e Dilma tiveram ou parte dos seus eleitores, com pena do infeliz que não vale nem uma pitomba, também migraram os seus votos por, digamos, solidariedade? É para pensar. Inclusive noutra coisa que muito me preocupa. Esse cafajeste já estava doente – câncer no pulmão, será? – e a facada foi só um artifício para “sensibilizar” o eleitorado, criar empatia. Só que o Brasil já viu essa história – parece um déjà vu. Logo após a queda da ditadura militar no país (1964 - 1985), Tancredo foi eleito e, por causa de uma crise de diverticulite, que não mata ninguém, foi assassinado no hospital e o vice assumiu. Quem era o vice? Sarney, o coronel do Maranhão. Depois de anos, “inventam” supostas fraudes cometidas por Dilma e o vice assume. Quem era o vice? Temer, burguês de carteirinha que NUNCA quis o bem-estar da população brasileira, apenas a sua sofrência, como se diz no Nordeste, fazendo uma ponte, não para o futuro, mas direto para a Idade Média. Um retrocesso sem limites, aparentemente inacreditável, mas possível. Tanto foi possível que prenderam Lula e colocaram a besta fera para se candidatar – por onde andava e anda o Tribunal de Haia, que julga crimes contra a humanidade? Sim, porque o celerado de plantão faz apologia à tortura e, se pudesse, exterminava mulheres, negros, índios, gays, pobres e qualquer outra coisa que ele rejeita – a maioria da população do Brasil –, indiferente ao respeito que se deve ter as desigualdades sociais, aos oprimidos, às raças como um todo, como se ele fosse “ariano”, igual outro psicopata, Hitler, que varreu desse mundo mais de seis milhões de judeus apenas por diversão, e a diversidade de gêneros. Então... Quem é o vice do surtado? Um militar. O general Mourão. O que me leva a concluir que – não me surpreenderá se isso acontecer – os seus supostos aliados eliminem a marionete e o vice assuma, fazendo o Brasil reviver anos de terror. É, parece que tudo foi bem calculado. E por gente ainda mais doentia do que o bobo da corte – leia-se elemento decorativo –, sobretudo a dos EUA, cuja política externa é um horror. Então... Fico a pensar, ainda mais depois de certo meliante ignorar o que significa golden shower, coisa que se tornou viral na internet após ele postar no tweet certo vídeo que ele entendeu ser transgressor. Transgressor do quê? Quem transgride alguma coisa aqui é ele, que, aliás, nem se toca que não passa de uma marionete a serviço do capital. Tudo muito bizarro, mas a Mangueira, em seu apoético desfile no sambódromo do Rio de Janeiro, deu o troco, restando-me perguntar: o que será de nós? #LulaLivre


Nathalie Bernardo da Câmara