segunda-feira, 1 de julho de 2019

ERA UMA VEZ UM PÉ DE FEIJÃO...


Foto e edição de imagem: NBC

“Sabe aquele pote de feijão que você achou que era sorvete? O amor é mais ou menos isso”
Soulstripper, banda de rock de Piracicaba (SP), considerada irreverente e divertida pelos fãs.


Nem vaca, nem um punhado de supostos grãos mágicos de feijão, nem galinha, nem dobrões de ouro, nem harpa, nem castelo e nem gigante como consta nas controversas histórias de ‘João e o pé de feijão’, de origens inglesas, ouvidas na infância, mas apenas um simples pé de feijão. Quer dizer, não tão “simples” assim...

Então... Em abril, o meu sobrinho presenteou-nos com uns quilos de feijão verde, nas vagens, fruto de um belo trabalho seu na chácara do meu pai. Mamãe e uma amiga nossa encarregaram-se da missão que foi a de debulhar as vagens. Um grão, entretanto, voou e caiu numa pequena área de terra do nosso quintal. Passaram-se alguns dias e, logo após umas certas chuvas que andaram caindo em Natal, brotou da terra um pé de feijão. Uns duvidaram, eu não. E o pé de feijão foi crescendo ao lado de um manjericão igualmente nascido de uma semente que voou com o vento do outro lado do quintal, onde, há anos, um canteiro abastece-nos com a planta encantada e para lá de cheirosa. De repente, esse pé de feijão foi “ganhando corpo”: engoliu o manjericão e também foi apossando-se de algumas plantas ornamentais – chegou até o telhado de uma casinha ao lado! Folhas imensas. E dando feijão. Perguntei ao meu sobrinho qual o segredo desse pé, se ele tinha colocado um adubo especial nos grãos que plantava, se os mesmos eram transgênicos ou algo parecido. Ele disse-me que os grãos eram orgânicos, mas se o meu pé avantajou-se – eu o adotei, “batizando-o” de Lumière – deve ter sido porque nasceu sozinho, não junto com outros. Pois. Agora, resta-nos admirá-lo, soberano. Pela manhã, então, é uma graça: as flores branquinhas, pululando por toda parte – depois elas amarelam –, e eu tirando as vagens, já dando refeições! E ideias... Enquanto isso, vamos curtindo a beleza que é a natureza e os seus mistérios.

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Só que o tempo passa e o meu pé de feijão continua a “escandalizar”, insistindo em se imiscuir por entre outros vegetais ao redor (mamãe diz que está acabando com as plantas dela), ganhando ainda mais altura, tipo uma trepadeira, subindo nas paredes, enroscando-se nas grades, decorando janelas, indo além das telhas da casinha dos fundos, brotando a céu aberto, por toda parte. Impressionante! Daqui a pouco, fico a imaginar, ele vai “pular o muro” e parar na casa da vizinha... Enquanto isso, a gente comendo feijão! E até dando de presente, apesar de eu aguardar a visita de um amigo agrônomo para estudar o “fenômeno” – nesse ínterimpenso no meu finado avô materno, o meu querido Neco, como costumava chamá-lo, que, na minha infância, quando os meus pais tinham uma granja, mais parecendo uma fazenda, de tão grande, ele, que era agricultor, encarregava-se dos plantios: macaxeira, batata doce, jerimum, que mamãe adora, vários outros vegetais e... feijão, que ele me ensinou a plantar e a colher. Além disso, vovô também me ensinou a pescar, nos rios e no mar – adoro pescar, até hoje!

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O poeta cubano José Martí (1853 - 1895) acreditava que “toda glória do mundo cabe num grão de milho”. E o que caberia num grão de feijão?

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Outro fato é que venho fotografando todo esse processo (amostra abaixo) – coisa que, particularmente, me fez um bem enorme, pois, só assim, renasceu o meu encanto pela fotografia, arte que domino desde a adolescência, mas que, há alguns anos, por motivos pessoais, passei a ignorar. Desse modo, só posso dizer que o bendito grão que fez brotar o intrépido pé de feijão igualmente resgatou um dom meu da letargia, carregando junto a minha ludicidade. E lembrei-me do estimado escritor português José Saramago (1922 - 2010), que, um dia, chegou a dizer algo mais ou menos assim: Levantar do chão é como brotar da terra, uma espécie de germinação, disseminando...

Lumière, o meu pé de feijão, e o pé de manjericão, quando tudo começou...


Em questão de dias, para a minha tristeza, numa rapidez surpreendente, o pé de feijão "engoliu" o de manjericão...


















A primeira vagem seca do meu pé de feijão, o branco, embora já sejam muitas, pedindo para serem degustadas e, ao mesmo tempo, socializadas, para germinarem.


A primeira "leva" de feijão verde do meu pé...


Outras "levas"...


O meu pé de feijão já produziu mais de dois quilos do grão...


O resultado das minhas práticas lúdicas: peixe frito no óleo de soja - transgênico, para "esculhambar" tudo - e no azeite de dendê, que me valeu uma queimadura no corpo, pois, ao colocar a posta na frigideira, estava sem blusa, por causa do maledetto calor, e tudo respingou. Só doeu na hora, mas tudo vale a pena se for para uma bela foto. Então, o arroz... Refoguei alho e pimentas de cheiro coloridas no azeite de oliva e depois o arroz. Em seguida, coloquei bastante açafrão e uma pitada de sal. Por fim, o feijão, do meu pé, decorado com cebolinha e coentro picados. Seria redundante dizer que foi uma refeição daquelas, acompanhada de um suco de mangaba.

E voilà!

adendo: 







02/08/2019... 

O meu pé de feijão garantindo um jantar nordestino. Quer dizer, quase, porque faltou o queijo de coalho e a manteiga do Sertão na macaxeira, já que o colesterol disse "não". E com direito a suco de caju.


Nathalie Bernardo da Câmara