quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ORQUÍDEA SELVAGEM


“Sou paciente com os pacientes...”.

Jó*
Técnica de enfermagem da F2, ala feminina particular do Hospital Psiquiátrico Professor Severino  Lopes, em Natal, no Rio Grande do Norte, que considera regular a sua relação com os seus superiores, defende espaços distintos para os doentes mentais e para os dependentes químicos, reivindicando, sobretudo, uma melhor remuneração salarial, em função, inclusive, do carinho e dos cuidados que, incondicionalmente, ela e as suas colegas de trabalho dedicam aos internos.




Recentemente, apesar dos meus inconsistentes melindres, fui visitar uma amiga com sérios problemas de insônia no Hospital Psiquiátrico Professor Severino Lopes (antiga Casa de Saúde de Natal [Rio Grande do Norte]), psiquiatra brasileiro (1929 - 2002), que, no dia 2 de junho de 1956, fundou a instituição que, durante décadas, foi, pejorativamente, por preconceitos, sumariamente discriminado como um hospital de loucos. Daí a razão dos meus melindres – não nego que por ignorância – adentrar naquele que, desde criança, eu já ouvia as coisas mais absurdas que alguém pode ouvir em relação ao tratamento dispensado aos que, de certa forma, estavam em desarmonia com a sua saúde mental.

Uma instituição classificada como filantrópica (?), o hospital tem convênio com o Sistema Único de Saúde - SUS e com alguns planos de saúde – só não digo o nome dos santos para não fazer propaganda –, além de ser igualmente mantida pela Sociedade Professor Heitor Carrilho, psiquiatra brasileiro (1890 - 1954). Enfim! Durante a visita a minha amiga, que anda a passos trôpegos à base de psicotrópicos para solucionar o seu problema (alcançou a proeza de 72 horas sem dormir), de pronto o meu faro jornalístico despertou diante do ambiente que circunda a ala onde ela se encontrava, logo tratando de ignorar os protocolos e buscando informações que poderiam ser úteis para uma crônica.

Assim, segundo informações colhidas em minhas investigações extra-oficiais, fiquei sabendo que o hospital dispõe de 240 leitos, dos quais 160 são contratados pelo SUS. Os demais, por sua vez, à disposição dos planos de saúde conveniados – de novo, não digo os nomes dos santos para não fazer propaganda –, bem como para internações de caráter particular. Quanto as mulheres, já que o gancho deste post foi a visita à amiga insone, existem, no hospital, duas alas femininas, a F1, que fica no segundo andar, com 60 leitos reservados ao SUS, e a F2, no térreo, com apenas 5 quartos, individuais, todos asseados diariamente, com banheiro, guarda-roupa, ar condicionado, frigobar e televisão.

Foi na ala F2, portanto, que a minha amiga ficou – digamos – hospedada (o nome internação é para lá de depressivo) em um dos quartos que, aliás, têm nomes de plantas: flor de lis; bromélia; dália; hortênsia e orquídea, enquanto a sala de entretenimento é chamada de Espaço Violeta ― um ambiente com direito a um jardim, embora sem manutenção, mas que até poderíamos classificar de bucólico, inclusive com alguns bancos para tentativas de diálogos. Na maioria das vezes, nada sãos. Afinal, tradicionalmente, segundo informações fornecidas por uma técnica de enfermagem da referida ala, o hospital acolhe e trata pacientes com algum tipo de distúrbio ou patologias mentais.

São psicopatas, esquizofrênicos, catatônicos, depressivos, dependentes químicos, suicidas, insones e, sobretudo, como se diz, os chamados loucos de atirar pedra, aqueles sem o menor juízo, e por aí vai...

Segundo boletim informativo da instituição, a função do hospital é atender portadores de transtornos mentais (...) “através da internação hospitalar no momento da crise aguda, da prestação de assistência na urgência psiquiátrica e o atendimento na modalidade ambulatorial”, tendo “como prática um modelo de atendimento científico, humanístico e integrador, enfocando o indivíduo como um ser biopsicosocial”, visando, ainda, “o diagnóstico, o tratamento e a recuperação, no sentido de obter a reestruturação psíquica e a reintegração sócio-familiar, referenciando sobre a necessidade da continuidade e adesão aos demais serviços em saúde mental que dão suporte ao tratamento extra-hospitalar”.

A maioria dos homens internos, por sua vez, ocupa a maior parte das instalações físicas do hospital, que consiste em quatro pavimentos de quatro andares cada, além do térreo, no cerne das edificações, onde a minha amiga ficou internada. Detalhe: ela foi ao hospital de livre e espontânea vontade, apesar das dificuldades, visto que não dormia há dias e já estava delirando, sem apetite e desânimo, comprometendo o seu discernimento. Sem falar, por exemplo, nos casos onde há intervenção, que não são poucos, realidade para lá de crua e cruel, visto ser uma decisão extremamente autoritária e arbitrária, pois não existe verdade absoluta – as verdades são relativas.

Quanto aos casos de intervenção, nada mais humilhante e indigno para a vítima de tamanho abuso – polêmica regida por pontos de vista distintos. Só que o direito à dignidade humana é básico – garantido pela Constituição Brasileira. E a situação do Hospital Psiquiátrico Professor Severino Lopes não difere das inúmeras realidades dramáticas dos demais hospitais públicos no Brasil, se agravando ainda mais quando pacientes diagnosticados mentalmente doentes ― não importa a natureza dos seus distúrbios ou das suas patologias – necessitam de cuidados especiais, já que a mente (uma incógnita), é o mais surpreendente e misterioso dos nossos cadinhos ditos humanos.

De qualquer modo, é como disse a técnica de enfermagem Nilda*: — Trato todos do melhor modo possível, indistintamente, os orientados (lúcidos) e os desorientados (com danos mentais), já que cada caso é um caso. Porém, ela não se queixa das suas condições de trabalho, embora tenha comentado sobre eventuais surtos de alguns pacientes, logo medicados, sobretudo para manter a sua integridade física e mental. Sobre o tema, Rosilda*, uma das funcionárias do hospital responsável pela limpeza e higienização da ala F2, revelou que, por diversas vezes, foi agredida por pacientes do sexo feminino, ao contrário dos homens, que perturbam menos. Vai entender!

Mesmo assim, Rosilda, que, aliás, reclama por não ter plano de saúde e recebe um salário aquém do merecido, procura conversar com os internos, tentando entender as dificuldades de cada um para, quando necessário, poder ajudar, ressaltando, ainda, que a sua relação com os colegas, embora não com todos, sejam boas. Porém, a reclamação geral das funcionárias como um todo, converge em uníssono: dedicando-se, indistintamente, aos internos do hospital, independentemente do sexo e do caso de cada um, as funcionárias da ala F2 ― foi o que pude apurar ― não têm direito a refeições fornecidas pela instituição. Só a café, muitas vezes, frio e à água. A comida? Levam de casa... É dose!

A não ser quando é o caso de as técnicas de enfermagem dobrarem o plantão, como se diz. Aí, sim, elas têm direito a uma refeição. O mínimo! E ainda dizem que as condições de trabalho são boas... Como, se nem direito à alimentação elas têm? Nesse contexto indecente, a minha amiga, já tratada da insônia, me fez uma observação, chamando a minha atenção para um aspecto nada simpático, ou seja: além de certa forma privilegiada, a ala F2 é circundada por instalações físicas degradadas, necessitando, urgentemente, de reformas e, no mínimo, de humanidade, já que os pacientes dos andares superiores não param de emitir sons guturais não importa a hora. E são temíveis.

Quem os entende? Tanto que, do que testemunhei ao visitar a minha amiga, entendi os motivos de ela, considerada orientada, jargão, como eu já disse, utilizado na psiquiatria para quem não tem nenhum dano mental, quase saiu pirada do hospital. E na lua cheia, então, a histeria, digamos assim, das internas da F1, leva os demais a apelar para fones de ouvidos ou, então, ouvir um som que supere a extravagância dos decibéis que emanam da referida ala. É de lascar! Coitada da minha amiga. Isso sem falar que, por volta das 4h30 da manhã, rola uma romaria que, segundo ela, abala qualquer juízo, sendo, pouco depois, seguida do barulho ensurdecedor das marretas da obra ao lado.

Ninguém merece! Outra vez, em mais uma visita, presenciei, meramente por acaso, uma senhora de uns sessenta e poucos anos de idade deitada em um dos bancos do jardim mal cuidado – vale insistir nesse detalhe – abraçada com um urso de pelúcia, contemplando o céu – quiçá em busca de uma estrela guia. Detalhe: ela mora na instituição há mais de vinte anos, visto não suportar a solidão da sua casa... Sei não, mas acho que é praticamente impossível contemplar o azul do céu ― muito menos estrelas guias ―, quando, ao seu redor, o caos, uma paisagem degradante, precariamente mantida pelo SUS, carecendo, imediatamente, de reformas estruturais, entre outras.

Isso sem falar que, segundo Joaninha*, internada por depressão e impulsos suicidas, chegou a nos contar que, de vez em quando, durante os dois meses em que foi hóspede da F2, internas da F1 jogavam, aqui e acolá, peças de roupas do segundo andar, onde elas ficam alojadas, no jardim da ala abaixo. Segundo Joaninha, eram tantos os arremessos que ela – imagino que gracejando – chegou até a pensar em abrir um brechó. Vê se pode o disparate! Duplo: o das roupas dispensadas a esmo e a possibilidade de um brechó em pleno hospital. Sinceramente, diante de tais situações e de outras mais, o cineasta italiano Fellini (1920 - 1993) não passou de aprendiz do surrealismo.

Outra entrevistada, contudo, Neusa*, internada por depressão, já tendo tido, inclusive, tempos atrás, uma overdose por ingerir uma alta dose de um psicotrópico poderoso e, mais recentemente, tentado cortar os pulsos com uma faca – detalhe: a faca, no caso, era cega... –, disse que, apesar do bom acolhimento que recebe das enfermeiras, não gostava de estar internada, que preferia a sua casa. Para ela, os psiquiatras deveriam ser mais assíduos e considerar o que os pacientes sentem e dizem. Sentindo-se presa, refém de um sistema de saúde caótico, revelou que as grades do hospital lembram as de um presídio e que, por isso, já pensou, por diversas vezes, fugir da instituição.

No caso de Gilda*, interna por neurite, que, traduzindo para o coloquial, se trata de esgotamento nervoso, a situação é inversa. Ou seja, apesar de querer voltar para casa, nunca pensou em fugir, pois se sentiu bem recebida no hospital e muito bem tratada pelas enfermeiras, se relacionando muito bem, ainda, com as demais pacientes. A enfermeira-chefe das alas F1 e F2, Vanessa, alega que o hospital não é um cárcere, uma prisão, mas que as pacientes têm de se conscientizar de que estão sob tratamento, acrescentando que as internas que, eventualmente, tencionam fugir dessa realidade necessitam de cuidados mais personalizados. Para o seu próprio bem.

Falando em bem, o hospital em questão dispõe de uma equipe interdisciplinar (psiquiatria, neuropsiquiatria, psicologia, psicoterapia, clínica médica, enfermagem, nutrição, assistência social, farmácia, terapia ocupacional, pedagogia, educação física, pedagogia, música, yoga e cinoterapia – terapia assistida com cães), integralmente atendendo os mais variados pacientes, independentemente da natureza dos seus males, propiciando, portanto, diversificadas atividades classificadas como sócio-educativas, além de proporcionar, na área da pedagogia, ensino fundamental para os portadores de transtornos mentais, bem como para funcionários, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação.

Além disso, o setor de lazer e qualidade de vida, criado em 2008, consiste em campanhas, palestras, atividades recreativas e sócio-culturais, utilizando, segundo boletim da instituição, “práticas que visam melhorar a qualidade de vida do usuário, trabalhar a necessidade do equilíbrio ambiental de forma sustentável e sua consciência cidadã”, buscando a recuperação da sua auto-estima e participação social. São atividades realizadas “por profissionais que visam a parceria e ações voluntárias, em projetos que possam representar mais qualidade de vida aos portadores de transtornos mentais e a existência de uma sociedade sem preconceitos”. E são atividades profícuas.

Consistem, então, entre as atividades recreativas e sócio-culturais estão eventos realizados em datas comemorativas no calendário nacional; valorização dos dias dos aniversariantes internos; passeios semanais em ônibus da instituição, doados pela Receita Federal; passeios externos; terapia do canto e forró – terapia quinzenal; cultos religiosos; sessões de cinema; a execução do projeto Livremente, que visa estimular a auto-estima dos usuários; palestras e campanhas educativas, cujos temas, entre outros, são prevenção da saúde e preservação ambiental, desenvolvimento de campanhas sociais e educativas, buscando melhorar a qualidade de vida e a harmonia com o meio ambiente.

Outra curiosidade, entretanto, é a promoção, anualmente, da Semana Interna de Prevenção a Acidentes de trabalho - SIPAT, promovida que é pela Comissão Interna de Prevenção a Acidentes - CIPA do hospital, que aproveita a oportunidade para verificar o estado de saúde dos seus funcionários. Um dos quais, o psiquiatra Francisco das Chagas Rodrigues, diz, por sua vez, que “o hospital é uma instituição importante para conter os pacientes em crises comportamentais que ameaçam a sua vida ou a de terceiros”. E acrescenta: “Ele [o hospital], tem o cuidado de tratar os pacientes no menor espaço de tempo possível e devolvê-los à sociedade com melhor adaptação à vida cotidiana”.






Eita! Parece até que o paciente é uma coisa, um objeto pedido emprestado e, depois de usado e abusado, devolvido ao dono ou à dona... – rimos juntos, no bom sentido, da declaração acima mencionada, mas apenas da forma inusitada pela qual foi dita.

Por fim, a psicóloga Sandra Uchoa, que alimenta um carinho extremado pelos seus pacientes e é de uma sensibilidade particular para com eles, diz que parece existir um contraditório que se justifica no que o Dr. Rodrigues falou sobre o objetivo da internação. “Quando se escuta falar em insanidade mental existe uma frase que muitos repetem, e nós dá uma compreensão subjetiva sobre esse fenômeno: ‘existe uma linha muito tênue entre a sanidade e a insanidade mental’...”. “Quando escuto isso penso que todos nós seres humanos, podemos manifestar comportamentos desadaptativos do tipo insanos e isso justifica o fato de tratar a todos os pacientes com igualdade, respeito, valorização, pois não se trata de seres inferiores ou de me colocar do lado de cá do jaleco e os internos do lado da insanidade. Todos estamos e não somos insanos ou sãos. Esse pra mim é um princípio fundamental na lida em psicologia, e especificamente, aqui no HPPSL [Hospital Psiquiátrico Severino Lopes]. Acredito no substrato biológico dos transtornos mentais ( necessidade de medicações ), mas acredito que cada um tem vida própria e não pode estar fadado a desgraça por um diagnóstico de transtorno mental. Entretanto, o que irá diferir os sujeitos é o modo como ele vive a sua vida e esse modo, depende diretamente de como ele significa os eventos da vida, ou melhor, o evento em si não é o problema e sim como ele significa esse evento. Auxiliar o paciente na mudança de crenças e significados, facilitando o comportamento flexível e adaptativo e o surgimento de sentimentos de esperança diante da vida é o nosso propósito”.




A busca da luz de uma rebelde...

 
“Estou cada vez menos doutora, cada vez mais Nise...”.

Nise da Silveira (1906 - 1999)
Psiquiatra brasileira


Felizmente, apesar de ainda haverem casos de internação por intervenção de terceiros no Hospital Psiquiátrico Severino Lopes, é inevitável registrar a conquista de um avanço: a abolição, paulatina, da camisa de força e do famigerado eletrochoque. Sorte a dos internos! E não podemos negar, por exemplo, a grande contribuição, nesse sentido, e em todo o Brasil, da psiquiatra brasileira junguiana Nise da Silveira – uma pioneira na recusa desse tipo de tratamento, o qual, negativamente, criticava –, discípula do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875 - 1961), fundador da psicologia analítica. Uma guerreira da luz, como a classificou a psicoterapeuta brasileira Teresa Vignoli.

“Durante esses anos que passei afastada, entrou em voga na psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usavam. Aquele miserável daquele português, Egas Muniz [Moniz (1874 – 1955)], que ganhou o Prêmio Nobel [de fisiologia e medicina, em 1949], tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então me disse: — A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque.

Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele, então, mandou levar aquele paciente para a enfermaria e pediu que trouxessem outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: — Aperte o botão.
E eu disse: — Não aperto.
Aí começou a rebelde”.

Depoimento de Nise da Silveira


Segundo Vignoli, autora da matéria intitulada Nise da Silveira, uma homenagem a uma guerreira da luz, reproduzida neste blog no dia 1º de agosto de 2011, Nise debutou na psiquiatria no hoje Hospital Pinel em 1933. Em 1944, “no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro”, Nise se recusou “a usar os métodos usuais da psiquiatria clássica, como eletrochoques, choque de insulina e utilização indiscriminada de medicação (que deixava, e deixa até hoje os pacientes num estado terrível de torpor - a chamada impregnação), foi deslocada para um setor considerado "pouco nobre" do Centro Psiquiátrico, o lugar onde não havia médicos e que era cuidado por serventes”Ainda segundo a psicoterapeuta, os serventes, que faziam serviços de limpeza, eram, simplesmente, os próprios pacientes. Nise? A terapeuta ocupacional. Assim, “nesse lugar ‘abandonado’ pela direção do hospital, Nise começou sua grande revolução”, fundando, em 1946, a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR). Não obstante, percebendo e agudamente sentindo “o quanto o ambiente hospitalar conspirava contra o que ele deveria promover: a cura”, ela fundou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente, no engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Em 1956, criou, junto a Casa das Palmeiras [atualmente, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro].

Na Casa das Palmeiras, dava suporte a pacientes egressos do hospital, os acolhendo o mais humanamente possível, os tratando com dignidade e despertando as suas potencialidades artísticas adormecidas, revelando verdadeiros talentos, que passaram a ser reconhecidos pelo mundo afora. Em 1987, baseado no livro Imagens do Inconsciente, publicado por Nise da Silveira em 1981, o cineasta brasileiro Leon Hirszman (1937 - 1987) lançou um documentário homônimo de 209 minutos, que, dividido em três partes conectadas entre si, Em Busca do espaço cotidiano, No reino das mães e A Barca do sol, foi analisado pelo escritor e historiador brasileiro Luiz Vadico.

Segundo Vadico, em seu artigo intitulado O Fundo preto, Imagens do inconsciente, o filme, “chamou a atenção no Brasil para a questão da exclusão social dos esquizofrênicos e para as suas formas de tratamento”. (...) “Um documentário lento e muitas vezes percebido como cansativo, chato, mas interessante”, obedecendo “a uma estrutura toda própria”. Eu, particularmente, tive a oportunidade e o privilégio de assisti-lo em um cinema na histórica cidade de Olinda, patrimônio cultural da humanidade, em Pernambuco. Então... Como diria a lúcida e visionária Nise da Silveira, uma mulher magistralmente a frente do seu tempo: — Não me atrevo a definir a loucura...


* Todos os nomes citados com asteriscos são ficcionais, tendo em vista a preservação da identidade dos entrevistados.


Observação: Em 1999, estava eu em um avião, de Brasília para o Rio de Janeiro, para pesquisar sobre a vida e a obra da escritora feminista brasileira Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810 – 1885), minha biografada, quando me chega um jornal de bordo, anunciando: MORRE NISE DA SILVEIRA. Tão revoltada com a informação, quase quebrei a janela da aeronave e pulei nas nuvens, a esmo. Afinal, perdíamos não somente a revolucionária psiquiatra comunista, mas, também, a humanista maravilhosa que foi Nise, junto com os seus gatos – os adoro . Uma depressão só! Maldita notícia... Desembarquei na dita Cidade Maravilhosa mais triste do que o mais arteiro dos gatos. Eu chegando ao Rio de Janeiro e enterrando, sem querer – quem queria? –, a encantadora e mística – Ah! As mandalas... – Nise da Silveira.


Nathalie Bernardo da Câmara





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