domingo, 30 de setembro de 2012

A HERANÇA DE UM SOBRENOME INVENTADO*

“Hoje em dia, os nomes já não possuem significado. O que importa são os números: o número da conta, da identidade, do passaporte. São eles que contam...”.

José Saramago (1922 - 2010)
Escritor português


Nascido no final do séc. XIV, em Portugal, apesar de não se saber, ao certo, as origens dos seus ancestrais, João Gonçalves Zarco era comandante de caravelas. De herança judaica, mas convertido ao cristianismo, Zarco, cujo nome é de origem árabe e significa quem tem olhos azul-claros, foi o responsável por duas importantes possessões portuguesas. Em 1418, por acaso ou intencionalidade, descobriu, oficialmente, juntamente com Tristão Vaz Teixeira, a Ilha de Porto Santo e, em 1419, com Bartolomeu Perestrelo, a Ilha da Madeira. Como recompensa, Zarco recebeu do Infante dom Henrique a missão de colonizar a Ilha da Madeira e, em função de existir uma câmara de lobos marinhos na ilha (gruta, no português do Brasil), mudou o seu sobrenome para Câmara de Lobos. Tal mudança, entretanto, só foi reconhecida no dia 4 de julho de 1460, em decreto assinado e publicado por dom Afonso V, que ordenou João Gonçalves, mesmo tardiamente, pois ele morreu em 1421, cavaleiro fidalgo da realeza portuguesa, com direito a um brasão e a divisa: Pela fé, pelo príncipe, pela pátria. Casado com Constança Rodrigues de Sá, João Gonçalves da Câmara de Lobos deu início, então, a uma estirpe, a uma História, com os seus descendentes perpetuando o sobrenome Câmara, mas abolindo o complemento, ou seja, de Lobos. Em 1492, um neto de João Gonçalves, o também navegador Salvador Fernandes Zarco, mais conhecido como Cristóvão Colombo, descobre a América. Sim, Cristóvão Colombo, que nasceu no Alentejo, em Portugal, não em Gênova, na Itália, como reza a versão dita oficial da História. Ao longo do tempo, portanto, além dos títulos de nobreza: barões, condes, marqueses, viscondes e senhores de morgados, os Câmaras têm se destacado na advocacia, na arquitetura, na engenharia, na medicina e no jornalismo. O pioneirismo, portanto, somado ao dinamismo e à inovação, tornou-se uma característica dos nascidos com o sobrenome Câmara – sobrenome esse inventado para satisfazer os caprichos de um navegador português...

*Encontrei essas anotações em meio ao material de uma antiga pesquisa. Guardei-as por um tempo. Afinal, não é muito confortável descobrir que se é uma fraude (rs).

Nathalie Bernardo da Câmara

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