sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

DOR DE OSSO É PIOR DO QUE DOR DE AMOR (A CONTINUAÇÃO) OU A SAGA DE UM PÉ QUEBRADO

 “Cruz nossa de cada dia...”.
                                                                                                                      
Nathalie Bernardo da Câmara
Jornalista, autora desta postagem.

Dedico esta a todos os que, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, participaram de um execrável processo do qual fui protagonista durante 2012 – ano praticamente inutilizado na minha vida. Não obstante, apesar dos pesares, a gente faz o que pode para tentar sobreviver – nem que seja debochar das desgraças.


No segundo semestre de 2012, esperando ser atendida num escritório de um plano de saúde qualquer, a fim de que me fosse autorizada a realização de dado exame, estava a conversar descontraidamente com outra cliente do referido plano de saúde, tipo: o que cada uma tinha e por aí vai (coisa que, comumente, ocorre em consultórios médicos ou nesse tipo de ambiente), quando fui surpreendida por uma funcionária do tal escritório, que, se aproximando, me abordou, dizendo que eu a acompanhasse para que ela pudesse encaminhar os procedimentos necessários para tentar solucionar o problema que me levava lá. De cara, achei estranha aquela solicitude, visto que, normalmente, esse tipo de coisa não costuma acontecer. Pelo contrário! Os clientes de planos de saúde – não importa qual – são, invariavelmente, postos à prova no quesito tolerância, sobretudo quando o assunto são os seus benefícios e direitos, na maioria das vezes, inclusive, justificando a abertura de um sem fim de processos, que, aliás, poderiam ser evitados no nem sempre tão pontual Programa de Orientação e Proteção ao Consumidor (PROCON). E o problema é tão sério que, muitas vezes, o não cumprimento das obrigações das empresas dos planos de saúde para com os seus associados é tamanho – leia-se desrespeito – que, além de atropelar o Código dos Direitos do Consumidor, termina esbarrando em artigos da Constituição Federal. Infelizmente, muitos dos associados ignoram os seus direitos – daí nunca se saber o número exato de ocorrências nesse sentido – e, por isso, as empresas não são responsabilizadas pelos seus abusos e ficam impunes, livres para prosseguirem aplicando a sua política desprovida de ética. Bom! De repente, sem me dar conta, lá estava eu num dos balcões de atendimento do escritório do meu plano de saúde, diante de uma funcionária a me perguntar qual o motivo do meu bom humor. Obviamente que achei a pergunta estranha e disse que não a estava entendendo. Ela explicou que ouvira a minha conversa com a outra cliente e achou graça na maneira como eu havia contado o que tinha me acontecido, justificando a minha presença ali. Continuei sem entender onde estava a graça na minha desgraça, mas, para não desapontá-la, tentei atender o seu pedido, novamente narrando – obviamente que resumindo – o meu drama, voltando outra vez no tempo, ou seja, ao dia 05 de março de 2012, quando tudo teve início. Só que, desta vez, tendo como ponto de partida, claro, a pergunta da mulher, intrigada que ela ficou com algo que nem eu mesma entendia. Afinal, depois de tudo o que passei, a partir daquele fatídico dia, já que a história não foi uma mera ficção, mas um fato real – tendo-me, infelizmente, como protagonista –, certa feita, ainda durante a revoltante experiência ao qual fui submetida durante meses, cheguei a um impasse: ou pulava de um pé de coentro ou ria da situação. Evidentemente, optei pela segunda opção, embora já tenha passado por coisas piores na vida... Enfim! Tudo o que contarei aqui não será que uma reprodução do que contei para ela, embora, agora, obviamente, com uma maior riqueza de detalhes, mesmo porque o espaço que ora disponho é virtual e, portanto, sem limites.
— Então, qual o motivo do seu bom humor? – perguntou-me a funcionária do meu plano de saúde.
— Quebrei um pé... – respondi, da forma, pelo menos aparentemente, mais natural do mundo.
— Como assim, “quebrei um pé”? – ela questionou, intrigada.
— Quebrando, uai! – exclamei, não disfarçando o meu desdém.
— Só isso?
— Não, isso foi só o começo.
— Como assim?
E desatei a falar: logo eu, que adoro uma história...


 “Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente...”.

William Shakespeare (1564 - 1616)
Poeta dramático inglês.


— Primeiro você quebra um pé, de preferência num lugar bem ermo, onde esteja sozinha, sem ninguém para pedir ajuda e, muito menos, sem sinal de celular. Em seguida, descobre que suporta mais dor do que, até então, nem sonhava ser capaz de suportar – isso porque você ainda não sabe que terá de esperar mais de 12 horas para ser socorrida. Tal tempo, contudo, é mais do que suficiente para pensar, se conseguir ter forças para isso, na produção norte-americana que conta o drama vivido pela personagem interpretada pelo ator James Caan no simplesmente fantástico Louca obsessão (Misery), filme que, produzido em 1990 e dirigido por Rob Reiner, foi baseado no livro homônimo, publicado em 1987, do escritor Stephen King. Ou seja, na história, um também escritor sofre um acidente de carro numa rodovia recoberta de neve e, após ser salvo por uma fã (Kathy Bates), passa aqueles que seriam os piores dias da sua vida. Enquanto isso, na vida real, o celular, enfim, dá sinal (sorte a sua que não acabou a bateria) e você, finalmente, consegue falar com alguém: no caso, uma amiga fisioterapeuta, que, onde o vento faz a curva, literalmente falando, desdobrou-se em quatro só para viabilizar uma ambulância, solicitada ao Sistema Único de Saúde (SUS) para lhe socorrer – pense! De repente, quando você acha que já está a salvo, tem a sensação de que está sendo transportada numa carroça em estrada de terra, apesar de estar trafegando numa BR, a 101, recentemente duplicada pelo governo federal. Isso sem falar que, além de cair aos pedaços, era uma ambulância para lá de fétida! – detalhe: durante o trajeto percorrido, você fica sabendo que, pouco antes, o corpo que ocupara a maca onde estava havia sido o de um morto... Ninguém merece! (Não, não estou reclamando – agradeço até hoje –, estou só narrando os fatos). Então... O fato é que, no meio do caminho, como se já não bastasse o sofrimento, que lhe dá a sensação de que o tempo parou, o motorista freia horrores. Quando isso ocorre, já que todo o seu eu dá voltas e mais voltas, de tanta dor, tudo o que você deseja é ser uma pessoa alienada, que daria tudo para sucumbir ali mesmo, entre um freio e outro, sem mais nenhuma expectativa em relação a nada. Afinal, cada vez em que o motorista faz isso, você, que nem de longe é alienada, só sente vontade, por tanto ser chocalhada, de esganar todos os políticos que já passaram pelo atual Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), bem como pelo Ministério da Saúde (MS). É, mesmo nos momentos mais dramáticos da sua vida, por mais que pareça loucura, você ainda vislumbra nem que seja uma faísca de discernimento para saber o que é certo e o que é errado. Enfim! De repente, o motorista da ambulância resolve dá carona a um amigo que perdeu o ônibus; lá pelas tantas, ele freia de novo. Desta vez, para prestar socorro a uma criança – até aí, tudo bem. Ocorre que, num dado momento, que se agrava pelo fato de a ambulância ser minúscula, a infeliz da criança quase vomita no seu pé quebrado... E você ali, imóvel, sem nem mais gemer de dor, porque esta, de tão lancinante, já lhe anestesiou os sentidos, literalmente impossibilitando-lhe de fazer o que quer que seja – o que dirá protestar! Então... Após mais de 100 quilômetros percorrido, você é desovada num dado hospital de uma dita civilização, supostamente Natal, no Rio Grande do Norte. Na sequência, haja espera! Tempo, aliás, que você não consegue mesurar porque, por mais que não seja a sua vontade, voltou a sentir dor e esta é a única coisa em que pensa. E pensa tanto que, por ser sofrimento tão atroz, lhe rasga até o juízo. Perdida, portanto, no tempo, eis que, enfim, você é vislumbrada por sua ortopedista, que, por mera coincidência, está de plantão justo no dia em que você resolve aparecer com o pé quebrado, ou melhor, explodido, como se diz no jargão médico. Só que, detalhe: espere com ardor, o mesmo ardor, inclusive, com o qual você sente a intensa dor, ou, quiçá, espere com a paixão dos idealistas, porque até o seu plano de saúde autorizar a sua entrada no centro cirúrgico você já se redimiu de todos os seus supostos pecados; não poupou dos xingamentos nem mesmo os seus melhores amigos, que, aliás, não têm nada a ver com isso; preferiu ter sido abortada, para não está sofrendo tanto, e só não se converteu, ali mesmo, numa maca qualquer, em pleno corredor de um hospital – da rede privada, diga-se de passagem –, porque é uma ateia renitente e nem mesmo a dor que lhe inflige um osso quebrado é capaz de abalar as suas convicções. Pelo contrário! Elas, as suas convicções, se reafirmam e se tornam ainda mais fortes, inabaláveis. Afinal, se houvesse um ser maior, ele não permitiria que você passasse por tamanha provação. Só que, infelizmente, você passa, embora ignore que a história esteja apenas começando...


 “É a eleição do medicamento e a maneira de usá-lo que caracteriza o verdadeiro médico, o que não está ligado a nenhum sistema...”.

Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755 - 1843)
Médico alemão, fundador da homeopatia.


— Lá pelas tantas, sem a menor noção de nada, a não ser, claro, da sua dor, o seu plano de saúde resolve, benevolentemente, já que ele não tem nada a ver com o fato de você ter quebrado o pé – quebrou porque quis –, autorizar uma intervenção cirúrgica de emergência. Nesse ínterim, apesar de você não conseguir precisar quando, o motorista da ambulância adentra no pronto-socorro e diz que precisa da liberação da maca na qual lhe transportou, já que precisa atender outro chamado de emergência. Dois maqueiros do hospital são, portanto, chamados para, fazendo o melhor de si, passarem você da maca da ambulância para outra, a do pronto-socorro. O problema é que, quando os maqueiros tentam removê-la – a maca da ambulância tem uma altura mínima, tipo cama de japonês, enquanto a do pronto-socorro é bem mais alta –, o seu corpo reage e você grita de dor. A sua irmã, por sua vez, que foi ao seu encontro tão logo soube do ocorrido, nem de longe imaginando a dimensão do seu sofrimento, que deve ser similar a de alguém sendo torturado fisicamente, sugere que, para não escandalizar todo o hospital com os seus gritos, você morda o lençol. Ora, morder lençol! Quando, então, os dois maqueiros não dão conta do serviço, mais alguns são chamados e a remoção é feita. Só que, quando isso acontece, nada de lençol para abafar os gritos do desespero pelo qual você passa. Desse modo, por mais que a sua irmã tenha tentado evitar o escândalo, os seus uivos ecoam por toda parte, intercalados, contudo, por palavrões jamais ditos antes – pelo menos, não em público. Ocorre que, por não ter recebido socorro a tempo – você só fica sabendo disso horas depois e sem nenhum melindre da sua ortopedista, que também é cirurgiã, ao lhe informar sobre o detalhe –, o seu organismo foi acometido por uma infecção e, por isso, num primeiro momento, o seu pé, que, segundo os raios-x, fraturou em dois lugares, só pôde, digamos, ser ajustado quase que no seu devido lugar, submetido a uma assepsia e a umas besteiras mais quaisquer. Resumindo: adepta da homeopatia desde criança, você, que está na iminência dos 44 anos de idade, toma conhecimento – como se fosse algo extremamente normal – que terá de ficar de molho no hospital o tempo que for necessário para que, agressivamente violentado pela alopatia, o seu organismo possa debelar a infecção, permitindo, portanto, ao seu pé, no momento oportuno, ser objeto de uma real cirurgia. Obviamente que você tem de esperar mais não sei quantas horas até o seu plano de saúde autorizar a sua internação. Só que, enquanto espera, a sua indignação vai ao cubo. Afinal, não há nada mais repulsivo para um adepto do revolucionário Hahnemann do que a simples menção do nome alopatia. Antibióticos e congêneres alopatas, então! Pior: administrados na veia... Isso sem falar da revolta que é ter de ficar a mercê de um plano de saúde, que trata você apenas como uma mercadoria, uma moeda de troca qualquer. Aí, assim – mais satisfeita não poderia –, você vê o tempo passar duplamente lento, já que ainda está sob o efeito da anestesia e de fortes dosagens de analgésicos, embora o torpor minimize o ódio, até que, mais uma vez, num gesto altruísta, para lá de nobre, o seu plano de saúde autoriza o que virá a ser alguns dos mais maravilhosos e inesquecíveis dias da sua vida, ou seja, a sua permanência no hospital. O fato é que, como se já não bastasse tanta agonia, você novamente passa a esperar. Desta vez, por um leito...


“Enfermagem é a arte de cuidar incondicionalmente, é cuidar de alguém que você nunca viu na vida, mas, mesmo assim, ajudar e fazer o melhor por ela. Não se pode fazer isso apenas por dinheiro... Isso se faz por e com amor!”.

Angélica Tavares
Enfermeira brasileira.


— Dizem que quem espera sempre alcança... Nem sempre! Porém, no seu caso, tão logo vaga um leito, você é levada de maca para o mesmo – por razões mais do que óbvias, você não pode andar. Ocorre que, para o seu espanto – a história só ganhava ainda mais corpo –, a primeira coisa que você vê, tão logo é instalada no seu esquife, é a sua companheira de apartamento, uma mera desconhecida, ocupando o leito ao lado do seu, acender um cigarro – coisa, aliás, terminantemente proibida pelas normais internas de todo e qualquer hospital, não importa se público ou privado. Imediatamente, você, que é fumante e não "pita" desde a manhã daquele dia e depois de tudo o que passou, resolve, também, ao deitar na cama, acender um, mesmo sabendo que está infringindo uma lei. Sem opção, a sua irmã atende o seu pedido. Afinal, você só queria tentar relaxar e dormir – se é que isso era possível, pois, ao começar a passar o efeito da anestesia, a maldita dor voltaria. Desta vez, agravada pela intervenção cirúrgica, embora esta tenha sido discreta. Porém, não demora muito, adentra no quarto uma tropa de elite, ou seja, a das enfermeiras, munidas de todo um artefato bélico. E, aí, a furadeira nas veias dos seus braços começa: é soro, Tramal, um analgésico que não alivia nada, e sabe-se lá mais o quê. O infeliz do Valium, via oral, também não tem nenhuma serventia, mas, fazer o quê? A sua irmã, por sua vez, aguarda a sua mãe – as duas ficariam um tempo com você até a chegada de uma acompanhante, que passaria a noite com você. Horas depois, contudo, desistindo de dormir – impossível, naquelas condições –, você resolve puxar conversa com a senhora com quem está dividindo o apartamento, que também não consegue pregar o olho, bem como com a sua acompanhante. A madrugada, por sua vez, passa – você nem entende como isso é possível, já que se perdeu entre a vigília e o sono leve, acordando sempre que alguma enfermeira entrava no quarto para saber se você ainda estava viva. Logo cedo, contudo, quando novos burburinhos pululam no corredor, você, finalmente, realiza! Cai a ficha: ou seja, os seus próximos dias – uma quinzena? – serão naquele hospital. E nem adianta querer sair correndo, porque, de fato, você não pode. Literalmente. Caso o faça, é pular da cama e, no mínimo, quebrar o outro pé, coisa – obviamente – que você logo afasta dos seus já tão tortos pensamentos. O que lhe resta, então? Aceitar, resignada, aquela situação? De maneira alguma, visto que, no seu dicionário, o vocábulo resignação nunca existiu – em momento algum da sua vida, a conotação cristã que comumente se deu ao referido vocábulo lhe foi simpática, apesar de as pessoas encherem o seu saco e insistam que é isso mesmo. Ora, dane-se a resignação! Afinal, você nunca foi cristã. Então... Como você irá enfrentar o seu séjour no hospital e os meses subsequentes? Estoicamente? Impossível, mesmo porque, considerando os gritos, ou uivos, os gemidos e as lágrimas que jorrou aos tubos, você já deixou bem claro que nada tem de estoica. Pelo contrário! Não passa de um ser que vive a sua condição humana sem tirar nem pôr, expondo, quando necessário, todas as suas fragilidades, igual o seu pé explodido. O máximo, portanto, no seu entendimento, seria você suportar, e revoltada, a sua nova condição, mesmo que temporária. Enfim! Mal raia o dia, a primeira decisão sábia que você toma é tratar bem os enfermeiros. Afinal, embora nem lembre mais onde ouviu isso – da boca, provavelmente, de um iluminado –, médicos alopatas só servem para dar diagnósticos, já que, na verdade, são os enfermeiros que, de fato, cuidam dos pacientes. E, aí, você se apega a isso, sobretudo porque caberá a eles, ou seja, aos enfermeiros, aplicarem agulhas nas suas veias – coisa que, aliás, você se arrepia de pavor só de pensar. Enfim! Você sabe que deve tratar bem os enfermeiros, nem que seja por uma questão de sobrevivência – tanto é verdade que a sua ortopedista só “dá as caras” dois dias depois da primeira das três intervenções cirúrgicas que essa história ainda iria lhe render...


 “A deficiência é parte da condição humana. Quase todo mundo, em algum momento da vida, terá, temporária ou permanentemente, uma ou mais deficiências...”.

Margaret Chan
Médica chinesa, atual diretora-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS).


— Bom! Na primeira manhã, ainda, acordando no hospital, com o peso que lhe confere o gesso do seu pé direito quebrado – ereto feito uma estaca, diga-se de passagem, tipo as usadas para empalar os ditos hereges durante a Inquisição medieval, que, aliás, de santa não tinha nada –, bem como a ressaca que lhe acomete as mais de 36 horas sofrendo feito uma desalmada, outra realidade passa a lhe preocupar: a sua alimentação. Afinal, quem lhe conhece sabe que você é uma exímia cozinheira e para lá de exigente com aquilo que ingere. Tanto que nem comida de restaurante você aprecia – a não ser, claro, que seja a de restaurantes franceses... Enfim! Como tentar, então, administrar um fato que quem já passou por isso a primeira coisa que diz é que comida de hospital é repugnante? Calma, você diz para si mesma, muita calma. Desse modo, o primeiro dia será – digamos – apenas uma experiência. Uma avaliação inicial do cardápio, o do café da manhã, o do almoço e o do jantar, bem como o dos lanches servidos entre uma e outra refeição. Depois disso, somente depois disso, você pode tirar as suas próprias conclusões. Porém, já no segundo dia – não era sem tempo –, você recebe a visita de uma nutricionista, entrevistando-a sobre o cardápio das refeições: o que você achava a respeito; se algum item precisava melhorar; se havia algo em especial que você gostava; essas coisas. Prudentemente, você procura agir igual já estava agindo com os enfermeiros – a maioria mulher (só tinha um homem), já que o perfil desses profissionais é majoritariamente feminino –, ou seja, com delicadeza. E isso, claro, no caso da nutricionista, se você não quiser passar fome... Um complemento alimentar, contudo, é-lhe enviado de casa, diariamente: um achocolatado líquido, que você adora e que só não diz o nome para não fazer propaganda – nem preciso dizer que, ao final de todo esse processo, coisa de sete meses, incluindo a convalescença em casa, engordei cerca de dez quilos, além de, desde então, nem suportar sequer sentir o cheiro de goiaba: um trauma explicável, pois, durante todas as suas refeições, sejam as principais ou secundárias (os lanches), o único suco que lhe é servido, e que você toma, sem dá um pio, é o do fruto citado, ou seja: goiaba  raramente, rola um suco de maracujá, que, por ser puro veneno, pior do que cicuta, você nem toca! Isso sem falar que, enquanto não tem condições físicas para fazer uso de uma cadeira com rodinhas para tomar banho e realizar certas necessidades fisiológicas, só resta a você recorrer – detalhe: deitada na cama – a um troço chamado de aparador (coisa mais degradante não poderia haver). E o nome deve ser esse porque supostamente apara o desconforto do constrangimento de dá vazão as tais necessidades fisiológicas sem a menor das privacidades. Pior! Com a ajuda de terceiros. E aí, caro leitor, os xingamentos recomeçam. Todos! Ocorre que, lá pelas tantas, no auge do seu descontentamento e profundamente irritada, você apela, externando, entretanto, certo bom humor:
— Valei-me, madre Blandina!
— Quem é essa? – pergunta en passant uma enfermeira, alheia ao objeto do seu apelo.
E você conta que, certo dia, no trânsito de Brasília, estacionou diante de um semáforo e que, na frente do seu carro, vislumbrou um adesivo colado no para-choque de uma Kombi que fazia referência à religiosa, cujo nome, aliás, nunca tinha ouvido. Surpresa, já que, apesar de nada católica, alguns santos até que lhes eram familiares, vez por outra, quando algo lhe intrigava, clamava pela madre, tipo um bordão, mas sem deboche, apesar de não saber nem de quem se tratava. Porém, curiosa, não demorou a pesquisar na internet e descobriu que a jovem senhora havia sido uma religiosa belga, ajudando a fundar, em meados do séc. XX, uma rede privada de ensino no Brasil. Perspicaz, já tendo percebido que, embora não indiferente aos perrengues, você não pedia o bom humor, a enfermeira balançou a cabeça e, por pouco não dando uma gargalhada, disse:
— Pelo visto, já vi que você é incorrigível!
Felizmente, para sua sorte, o período em que passa por esse vexame, com exceção da menos inofensiva das suas necessidades fisiológicas diárias, que é a urina, tudo o mais a sua mente trata de bloquear e, consequentemente, por dias, o seu organismo se retrai: intestino, útero, já que, no caso, você é uma mulher e deveria estar naqueles dias... Enfim! Tão logo as enfermeiras saem do apartamento, a senhora fumante logo acende um cigarro e você também, não demorando muito para a enfermeira-chefe chamar a atenção de ambas, que pedem desculpas e prometem que aquilo não voltaria acontecer. Não obstante, tentando adaptar-se a nova realidade – apocalítica, diga-se de passagem –, mesmo que temporária, o seu juízo só não dá um nó ainda maior porque, pela graça da tecnologia moderna, levam para você, no hospital, pela manhã, o seu notebook e, claro, o seu modem, para que, apesar dos pesares, você possa se conectar com a internet. Sei não, mas, depois dessa traumática experiência, acho que, no caso do Brasil, onde existe santo para tudo e para todos, também deveriam criar um para a internet. E posso até sugerir um, ou melhor, uma, que seria Nossa Senhora dos Navegantes...


Foto: Divulgação

“É diante do mar que o riso e a lágrima assumem uma importância absoluta...”.

José Saramago (1922 - 2010)
Escritor português.


— Falando, portanto, em navegação, que, por sua vez, lhe remete não apenas a internet, mas, principalmente, ao mar, você lembra que uma das primeiras coisas que chamou a sua atenção numa das paredes do apartamento foi um cartaz, apesar das suas cores desbotadas – sabe-se lá quem o colocou o lá, provavelmente algum desesperado, ansiando por liberdade –, com uma imagem do arquipélago de Fernando de Noronha, um dos lugares, aliás, mais belos que você já conheceu em toda a sua vida. Tanto que, durante a sua infeliz permanência no apartamento do hospital, a imagem que mais detém por mais tempo o seu olhar e acalenta a sua solidão interior, sobretudo nos momentos de dor, quando você se imagina uma fragata, o pássaro, sobrevoando, livre, leve e solta, as praias do arquipélago, nadando ou simplesmente contemplando as suas águas, invariavelmente exibindo um verde-esmeralda peculiar, é o tal cartaz, no qual o Morro do Pico – no detalhe da fotografia acima – reina imponente, tendo, ao fundo, o Dois Irmãos, formação rochosa que os ilhéus batizaram de Fafá de Belém, uma alusão à cantora brasileira, que, você ouviu dizer, teria, certa feita, numa visita ao arquipélago, menosprezado os seus habitantes. Então... Com o privilégio de ter duas acompanhantes, uma de dia e outra a noite, os dias foram passando. E não tão solitários assim. Enfim! O fato é que, ainda na noite do segundo dia, a sua companheira de apartamento disse que receberia alta na manhã seguinte e, compulsiva, muito mais do que você, acende um cigarro. Seguindo o exemplo dos mais velhos, você aproveita para também acender um. Para o espanto de ambas, ninguém aparece para reclamar. Não obstante, na manhã do dia seguinte, na iminência da sua partida, a tal senhora insiste no vício maldito e resolve novamente fumar.  Solidária, além de ser uma despedida, você faz o mesmo, ainda sem noção, obviamente, do real perigo que as duas corriam. Resultado: a enfermeira-chefe do setor, que trabalha durante o dia – à noite, você percebe, parece que não há fiscalização para esse tipo de infração –, adentra feito uma bala no apartamento, chamando a atenção das incautas, dizendo que entende perfeitamente a situação de ambas, sobretudo a minha, por não estar podendo andar, mas que é estritamente proibido fumar no hospital, ainda mais no apartamento, fazendo questão de mostrar um recipiente de oxigênio numa das paredes, entre os leitos, e que, caso haja um vazamento, todos, devido os cigarros acesos, explodiriam em frações de segundos. Diante, portanto, da reprimenda, consciente de que fez algo errado, você, igual criança pequena, não sabe onde colocar a cabeça, desejando ter nascido um avestruz, e pede desculpas, prometendo que não voltará a cometer tal infração, ainda mais porque, se houvesse mesmo uma explosão, você seria a primeira a voar pelos ares... Ocorre que, naquele dia, você recebe a visita da sua ortopedista, bem como a boa notícia de que sairia do apartamento para, numa dada sala, no térreo, trocar o gesso. E que iria de cadeira de rodas, sendo conduzida por um maqueiro, com quem você já trata de fazer amizade, esbanjando simpatia, sob os olhares atentos da sua acompanhante diurna. Não dá outra! Feita a troca das botas, tão logo o maqueiro faz menção de reconduzi-la aos seus aposentos, você agradece e diz que a sua acompanhante o fará, pois, antes, gostaria de ir ao banheiro, já que o do térreo é bem maior do que o do apartamento e que, com ela, a jovem que lhe acompanha, se sentiria mais à vontade – verdade seja dita, já que você não faltou com a sua palavra. Porém, com a deixa, você aproveita para, após sair do banheiro – mero pretexto –, descolar um café e fumar um cigarro, ou melhor, dois –, que havia levado no bolso, na entrada do hospital, mas não sem antes, para disfarçar, dá uma voltinha inocente nas suas dependências. Em seguida, contudo, você volta para o apartamento, já que a sua longa ausência não poderia ser descoberta. Afinal, por ter contraído uma infecção, bem como pelas normas do degredo, você não poderia, em hipótese alguma, ter contato com o exterior – como se você fosse seguir normas, embora haja lencinho úmido perfumado para tentar amenizar o cheiro dos cigarros... Pense! Ocorre que, inúmeras vezes – é público e notório –, é exatamente dentro de hospitais que muitos pacientes contraem toda sorte de infecção. Enfim! À noite, a qual, aliás, passa sozinha no apartamento, além, claro, da sua acompanhante noturna, pois o leito ao lado do seu permanece vago, você faz um pedido domiciliar para lá de inusitado... 


 “A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais...”.

Clarice Lispector (1920 - 1977)
Escritora brasileira nascida na Ucrânia.


— Na manhã do quarto dia, portanto, já sem a senhora fumante no apartamento e sem nenhum aviso prévio de que logo mais outra paciente seria instalada no leito ao lado, o pedido que fez na noite anterior é entregue em suas mãos, ou seja, um vaporizador francês, achando que, assim, sem maiores perigos, você pode fazer com ele uma experiência. Afinal, já podendo ir tomar banho no chuveiro, obviamente que com a ajuda de uma cadeira de rodinhas, o que você faz? Tranca-se no banheiro, passando mais tempo do que o necessário, e, de posse do vaporizador francês e de uma caneca de café, acende furtivamente um cigarro, sabendo que, em momento algum, perceberiam a sua traquinagem. Isso sem falar que, pelo menos aparentemente, você estava distante do recipiente de oxigênio e que, com certeza, nunca que ele iria explodir. Plano perfeito! De volta, então, ao seu leito, já banhada, com direito a cabelo lavado, e perfumada em demasia da sua colônia habitual, deita com expressão de anjo e fica assistindo televisão, desconhecendo que, por ter abusado do vaporizador francês, o forte aroma da fragrância saiu do banheiro, atravessou o corredor e, traiçoeiramente, lhe denunciando, alcançou o setor da enfermeira-chefe, que, por sua vez, não demora muito, entra no quarto para lhe cobrar satisfação, desconfiando dos seus subterfúgios. Ora, não sabendo mentir, você termina admitindo o que fez, mas novamente se desculpa com ela e a chama para uma conversa. O fato é que, normalmente, você fuma, em média, uma carteira de cigarros por dia. Sabe que faz mal? Sabe, mas, nem por isso, admite que ninguém a julgue, pois nem você que é você, a maior prejudicada, faz isso. Naquela situação, então, por mera circunstância, você se vê privada de algo que está acostumada a fazer e que, de há muito, faz parte da sua rotina, do seu cotidiano. Desse modo, ambas, você e a enfermeira-chefe, teriam, portanto, de chegar a um consenso. E chegam: sair do quarto numa cadeira de rodas às 5h30, quando, supostamente, há pouco movimento no hospital, e, no frio ameno da madrugada, fumar, tranquilamente, um café na entrada do hospital, onde os enfermos desembarcam, bem como outro cigarro e um café a noite, lá por volta das 22h. Afinal, com exceção de você, todos do seu andar circulam livremente, exercitando o seu corpo e ativando a sua circulação. Além disso, uma sólida argumentação contava a seu favor, ou seja, se os presos que são os presos têm direito à uma hora de banho de sol por dia, você também deveria ter certos direitos. No caso, meia hora de passeio pela manhã e meia hora à noite – detalhe: nem sol você pegaria, já que ficaria sob o parapeito da entrada do hospital, ou seja, na sombra, beneficiando-se apenas com a claridade, que, inclusive, nem desse tipo de luz você é chegada. De qualquer modo, era suplício demais ficar plantada sabe-se lá quanto tempo naquele leito, criando raízes, igual uma samambaia, cujo um dos caules quebrou-se, sem fazer fotossíntese. Não obstante, iria, ainda, corroborar a sua solicitação a instalação, pouco depois, no leito ao lado, da sua nova companheira de apartamento, que, aliás, por seu estado de saúde, nem que quisesse poderia sentir cheiro de fumaça de cigarro – o que dirá dar sequer um trago –, bem como, vez por outra, ela eventualmente faria uso do recipiente de oxigênio prontificado entre os dois leitos. Então... Sem contra-argumentos, não restou à enfermeira-chefe autorizar os seus passeios, um matinal e outro noturno, de cadeira de rodas, claro, os quais, inclusive, para todos os efeitos, eram apenas para que, saindo alguns momentos do apartamento, você arejasse um pouco a cabeça, enquanto, apreensiva, aguardava a data em que, debelada a infecção, que lhe faz ser bombardeada por antibióticos e outras sutilezas da medicina alopata durante dias, você retornaria ao centro cirúrgico, mas precisamente no dia 11 de março – a sua entrada no hospital deu-se no dia 06 –, para, de fato, se submeter à intervenção propriamente dita no seu pé quebrado – obviamente que você se recusa saber quais os procedimentos que a sua ortopedista adotará; as novas incisões que ela fará no seu pé e quais os apetrechos que irá retirar da sua caixa de ferramentas para inserir no seu organismo. Porém, antes disso, um tour pelos corredores do centro cirúrgico, cercados de azulejos gélidos por toda parte, até a entrada, de fato, na sala onde, mais uma vez, você será posta à prova e, de repente, após algumas picadas de agulhas – não há mais onde furar! –, o apagão da sua consciência provocado pela anestesia... 




“(...) Um sedativo é sempre o ombro amigo (...)”.

Verso da composição Amor e luz, de autoria de W. Luz e N. Farias, vencedora do Festival Nacional sobre Profissionais da Vida, promovido pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), e eleita a canção símbolo da enfermagem brasileira (resolução nº 265/2001).


— Horas depois, retornando à vida já na cama do apartamento, um novo torpor envolve você, ainda sob o efeito da anestesia que, graças à enfermeira-chefe, de vez em quando entrando no quarto e, delicadamente, apertando ligeiramente os dedos do seu pé direito, o quebrado e há pouco submetido a uma cirurgia, para sentir a sua sensibilidade ao toque, você é informada de que lhe foi aplicada uma raquidiana. Daí o cuidado excessivo da profissional em testar os seus reflexos e lhe pedir que fique numa determinada posição na cama. Obviamente que chocada com a informação, você pergunta se não era um direito seu ter sido consultada para autorizar ou não a anestesia raquidiana, já que, segundo é do seu conhecimento, a mesma pode causar sequelas irreversíveis. Sim, era um direito seu, só que não o respeitaram – posteriormente, você fica sabendo que, caso fosse consultada, provavelmente não teria autorizado a raquidiana, mas a anestesia geral, evidentemente sentindo-se indignada com a violação explícita dos seus direitos de paciente. De qualquer modo, naquela situação de vulnerabilidade, você se limita a dizer que foi desrespeitada e solta um palavrão daqueles! A enfermeira-chefe, por sua vez, sempre tão solidária com você e sem tirar a sua razão, naturalmente se contém, provavelmente em nome da ética, e diz que, como o fato não pode ser revertido, resta-lhe seguir as suas orientações, a fim de que, as seguindo, comportadamente, não ocorra nenhuma surpresa desagradável, tipo uma paralisia, decorrente da raquidiana – quem inventou essa maldita? –, da cintura para baixo, pelo resto da vida. O fato é que a anestesia raquidiana é tão agressiva ao organismo humano que, após a sua aplicação, tão logo você retorna ao quarto, a constipação de dias teve um fim, bem como o ciclo menstrual dá as caras, além de você tomar ciência, e sem direito a protestos, já que a intervenção fez-se necessária, de que, segundo o laudo de um dos vários raios-x que fez, a ortopedista havia alojado no interior do seu pé quebrado uma “placa e parafusos cirúrgicos para fixação de fratura na fíbula distal” e um “parafuso metálico de fixação na região do maléolo tibial”... Pense que coisa interessante! Ocorre que, quando o efeito da anestesia passa, não há dosagens de Tramal que alivie a dor inenarrável que você passa a sentir, o que lhe leva a pedir morfina. Das enfermeiras, contudo, em uníssono, você ouve um enfático “não” ao seu pedido, que, inclusive, para elas, era descabido. E que você tem, querendo ou não, de aceitar o Tramal. Ciente, portanto, de que não alcançaria o seu intento, você se aproveita da situação e, apelando para o seu bom-humor, tenta provocá-las, dizendo que, na verdade, já tinha ouvido dizer que a morfina dava um barato legal e que o seu pedido não era que um pretexto para, contrariando os seus princípios, experimentar uma das mais violentas e agressivas drogas já inventada pela indústria farmacêutica. Resultado: das enfermeiras, visto que elas acham graça nos seus disparates, você só tira risos. Só que, naquela noite e na seguinte, nada de dormir, visto que a dor era tamanha que lhe tirava o sono, passando horas a fio a papear com quem estivesse no apartamento, já que tudo o que você queria era deixar de sofrer. E aí, mais uma vez, você recorre à enfermeira-chefe, de quem – não poderia ser diferente – virou fã, pois lhe faz todos os gostos – dentro do possível, claro –, e pede que, nem que seja em surdina, ela lhe forneça uns comprimidos extras de Valium – o Tramal é nulo –, visto que, se a dor está sempre presente, dormir é um escape para não senti-la. O problema é que, como disse antes, é praticamente impossível dormir num hospital e nem o sonífero faz efeito. Isso sem falar do esforço sobre-humano que você faz para tentar se abstrair do burburinho humano decorrente das visitas a sua companheira de quarto. A comida do hospital, por sua vez, já descendo atravessada; as raízes da samambaia voltando a crescer e a se esparramar no seu leito, bem como o olhar tentando apaziguar a sua impaciência consumindo noite e dia o cartaz com a imagem do arquipélago de Fernando de Noronha, já que o tédio toma conta de você, que, aliás, só se salva porque escreve feito uma desesperada para o seu blog e, na TV, assiste as séries policiais que tanto gosta, inclusive, certo dia, por ironia do destino, ao filme Louca obsessão (Misery), mencionado no início desta narrativa, de Rob Reiner, baseado no livro homônimo do escritor Stephen King, no qual pensou quando, na praia, ao quebrar o pé, ficou à espera de socorro... Que situação! De qualquer modo, tão logo você se sente menos afetada pelos traumas provocados pela cirurgia, um agrado da enfermeira-chefe: ela volta a autorizar os seus passeios matinais e noturnos, o que, de alguma maneira, alivia toda aquela opressão. Os dias, portanto, vão passando, as dores seguindo o exemplo... Certa feita, entretanto, nas suas andanças noturnas pelas dependências do hospital, que passa a chamar não mais de degredo, mas de o SPA São José – nome da rua onde fica o empreendimento privado –, você conhece o gato Back, à época, com uns oito meses de idade, nascido nas redondezas e morador local, por quem, inclusive, logo demonstra simpatia, já que adora os felinos. Ocorre que, por uma questão de proteção, você sequer tem autorização formal para sair do hospital. Afinal, não podia contrair nenhum tipo de bactéria – o que dirá brincar com um gato! As enfermeiras ficam doidas, pois você conta de Back e elas não entendem a sua ludicidade com o felino. Então... Certa manhã, no dia 17 de março, após onze dias de internação, como a sua recuperação é rápida, embora não tão inocente nem misericordiosa assim, você recebe alta, antes, aliás, do previsto, mas, vale salientar, alta do hospital, não do processo em si. De qualquer modo, você só pensa em ir para casa, apesar de ignorar que outro drama estava prestes a ter início – drama esse, aliás, que duraria mais de três meses...


 “A grande meia-verdade: liberdade...”.

William Blake (1757 - 1827)
Poeta e pintor britânico.


“Pernas para que te quero!” – você pensa, ao sair do hospital. Só que, ledo engano. Afinal, mal chega naquele que, diante das circunstâncias, nem em sonho seria o que se poderia chamar de Lar doce lar, considerando o martírio que viria pela frente, o seu presente de aniversário – antecipado – já está a sua espera, que é uma cadeira de rodas... É aí, então, que, durante o período da sua convalescença, que, em consequência das adversidades, vai se mostrar mais longo do que o previsto, você constata um fato, ou seja, a sociedade não foi estruturada para cadeirantes, mesmo os temporários, mas, exclusivamente, para andantes. E, de fato, você afirma isso com conhecimento de causa, sobretudo porque as portas, por exemplo, no caso, as das residências, são estreitas. Ocorre que, como você está terminantemente proibida pela ortopedista de ousar colocar o pé no chão durante os mais de três meses vindouros, o jeito é passar de qualquer jeito pelas portas na cadeira de rodas. E haja resistência, a sua e a das portas! Tanto que a do banheiro quase foi destroçada pela cadeira de rodas. E para tomar banho, então, é uma dificuldade! – todo um ritual. Tanto que, certo dia, sendo o piso de mármore, você quase finda por cair, escorregando na espuma do shampoo, e, acidentalmente, por pouco não quebra o box de vidro – aí é que o estrago ia ser grande, sobretudo em você, já comprometida. De qualquer modo, no início, tudo é novidade. Em alguns momentos – digamos –, você até chega a se divertir, apesar da situação ser para lá de estressante. Só que o melhor, mesmo, é você nem precisar de um curso de autoescola para aprender a conduzir a cadeira de rodas, a qual, aliás, recebe o nome de Crô – misto de mordomo e governanta, personagem divertidíssima interpretada pelo ator brasileiro Marcelo Serrado numa novela que, à época, passava numa dada emissora de televisão, uma das poucas coisas, aliás, que ainda lhe faz rir diante de uma situação que você repudia veementemente. Porém, como toda novidade um dia cansa, a sua, que é a condição temporária de cadeirante, se transforma num encosto. Agora, o pior mesmo, é ser obrigada a depender dos outros – coisa que você abomina. Para isso, presenteiam-lhe, também, com um sininho de prata – batizei de Sino do lamento –, devendo badalá-lo nas vezes em que precisa de algo. Enquanto isso, o tempo passando... As portas deteriorando-se; os espaços não adaptáveis – você que tem de se adaptar aos espaços –, e, mesmo sendo impossível, você só pensa em chutar o balde ou o pau da barraca e sair correndo; o tédio lhe consumindo, visto que o tempo não parou apenas para Cazuza (1958 - 1900) – alusão a uma composição do cantor brasileiro –, e, para não enlouquecer, você assiste a todos os filmes e séries policiais que adora, bem como continua, compulsivamente, a escrever para o seu blog – nunca a sua produção havia sido tão profícua. Pudera! Não lhe resta outra opção para dissipar a intolerância que lhe devasta, já que você recusa toda àquela indigesta condição – logo você, sempre tão livre, tal qual um passarinho... E se recusa, inclusive, a sair de casa – a exceção é uma visita à ortopedista uma vez por semana, no hospital, a fim de que ela avalie a evolução da sua recuperação e a sua bota de gesso seja trocada (no dia 03 de abril, ela tira os pontos, passando você a visitar a ortopedista apenas de 15 em 15 dias) –, optando por se instalar, durante o dia, num amplo espaço de casa, defronte a um jardim, de onde você pelo menos pode contemplar o céu – o mínimo, considerando que não pode voar, aumentando, ainda, consideravelmente, como diria Balzac (1799 - 1850), escritor francês, a sua ração diária de café. Não obstante, no dia do seu aniversário, um convite, irrecusável, pois o mesmo é feito por sua mãe: você sair de casa para arriscar um momento de descontração – como se fosse possível descontrair-se plantada numa cadeira de rodas. Isso sem falar que não são somente as residências que não são feitas para cadeirantes, mas demais espaços, públicos ou privados, embora muitos já se preocupem com um grave problema, que é o da acessibilidade. De antemão, contudo, a sua mãe pesquisou e descobriu um simpático café que oferece a tão decantada acessibilidade aos cadeirantes, o que lhe faz se sentir mais à vontade, apesar de casos como esse serem raros. Só que, de caso em caso, a mentalidade vai mudando, evoluindo... 




“Acessibilidade... noção enganosa... um desses termos comuns que todo mundo utiliza até se confrontar com o problema de defini-la e medi-la...”.

Peter Gould (1932 - 2000)
Geógrafo norte-americano.


— A saída de casa, portanto, você considera deveras agradável, pois lhe faz sair da monotonia na qual, há semanas, se encontrava. O tempo, por sua vez, ia se arrastando, diferentemente de você, que rodava, plantada que estava numa cadeira de rodas, que, como já foi mencionado, havia sido o seu presente de aniversário. E antecipado! Pas de problème, como diria o francês. Afinal, problema era a mesma ser a sua única alternativa de deslocamento. De qualquer modo, você tinha, ainda, embora limitadas, outras formas de se posicionar diante do fato inconteste de não ousar sequer por o pé no chão, que era sentar numa cadeira dita normal – isso para tomar banho – ou ficar na cama, embora também existisse a possibilidade, por exemplo, de se estirar numa larga e confortável rede, fosse para ler um livro, para escrever no notebook ou, até mesmo, assistir televisão. Desse modo, como é possível vislumbrar, a fase cadeirante na sua vida teria sido o sonho de consumo de um ermitão. Só que não é assim que caminha a maioria da humanidade. Daí você nem fazer questão de pôr o pé fora de casa, mesmo porque o pé, mesmo, literalmente e nem tão cedo, você poderia colocar no chão. Só se fosse para andar com as mãos, fazendo malabarismo... Enfim! O tempo passando e você enlouquecendo na internet, que era a sua maior distração – para não dizer escape, embora você ainda nem tivesse descoberto o Facebook – isso só aconteceria, e meramente por acaso, na última semana de setembro (até então, quando falava da referida rede social, você só a criticava, ou melhor, criticava os internautas que não sabem fazer bom uso da ferramenta – críticas essas que também contemplava os usuários do Twitter, o qual, aliás, até hoje, lhe causa certa desconfiança). O seu blog, por sua vez, mais parecendo uma fornalha, sempre na ativa, já que as suas postagens eram frenéticas – compreensível, já que, se você era terminantemente proibida de andar mundo afora, podia, pelo menos, navegar nas suas malhas. Você não, os seus neurônios. Nesse ínterim, contudo – o leitor será privado de muitos dos detalhes dessa traumática experiência –, você, já sem gesso, apenas com curativos nas incisões, felizmente cicatrizadas, passa a fazer fisioterapia diariamente. Ocorre que, como opta por um horário noturno, já que o seu sono, que de há muito havia deixado de ser regular, mesmo antes do “acidente doméstico” que teve – palavras da amiga fisioterapeuta que lhe socorreu quando o episódio aconteceu e lhe conseguiu uma ambulância do bendito SUS, embora tão ignorado pelas políticas públicas do país –, ainda estava indisciplinado, você passaria a ter alguns aborrecimentos. Afinal, apesar do horário, que lhe era conveniente, visto que não tinha hora certa para dormir nem, muito menos, para acordar – devido o incômodo provocado pela dor, às 18h você sabia que, com certeza, estaria alerta, diariamente cumprindo com pontualidade inglesa as sessões de fisioterapia, apesar de igualmente alerta ao trânsito nas ruas – coisa que lhe estressa mais do que os desmandos de certos políticos e do que as desigualdades sociais. E ainda mais nos horários de rush, porque a maioria dos motoristas – não é de hoje – se comporta como verdadeiros kamikazes – fenômeno que não é um privilégio apenas de Natal –, sobretudo se se leva em conta que um veículo automotivo, dependendo do condutor e da situação, pode se transformar numa perigosa arma – vestido para matar. De casa para a fisioterapia, portanto, e vice-versa, o estresse, de segunda à sexta-feira, lhe consome sem dó nem piedade. Imagina, então, o seu drama, que, há semanas, de certa forma enclausurada por força maior, ter de encarar o burburinho de um trânsito para lá de esquizofrênico! Mas, você vai que vai, até que, numa das suas visitas de rotina à ortopedista, é intimada a interromper a fisioterapia para comparecer ao hospital no dia 08 de maio, a fim de se submeter a uma nova intervenção cirúrgica, cujo objetivo era o de retirar apenas um dos parafusos inseridos no seu pé quebrado – as demais tranqueiras ficariam dentro do seu organismo ad aeternum. Enfim! O fato é que você só foi comunicada da data, pois, desde que recebeu alta do hospital, já sabia que o agradável momento, melhor dizendo, inadiável e desencorajador rendez-vous, haveria de chegar...


“Do sofrimento emergem as almas mais fortes. As personagens mais impressionantes estão coalhadas de cicatrizes...”.

Kahil Gibran (1883 - 1931)
Escritor libanês.


— Tanto haveria de chegar que, sem contestações, embora contrariada, você, numa disciplina nunca dantes vista, comparece ao hospital no dia e na hora marcados pela ortopedista, que, para tentar, talvez, lhe tranquilizar, diz que a cirurgia seria uma das mais simples. Ora, você, que já não é chegada a agulhas, sabe que, por mais simples que seja o procedimento, toda e qualquer intervenção cirúrgica, independentemente da sua natureza, sempre é de riscos. E aquela, diga-se de passagem, já era a terceira... Contrariada, contudo, você, de pronto, esbraveja, dizendo que nem por decreto permitiria ser novamente exposta a uma anestesia raquidiana. Desse modo, com as suas garantias resguardadas, você concorda com a cirurgia para a retirada de um dos parafusos inseridos no seu pé. Afinal, o dito parafuso não poderia ficar dentro do seu organismo – que assim, então, o fosse –, embora você nem se dê ao trabalho de se inteirar das causas de tal exclusão. Que assim, então, o fosse. De retorno, portanto, as dependências do centro cirúrgico – ambiente gélido e, de certa forma, mórbido, você, pela terceira vez, sente-se protagonizando um filme baseado no livro Coma (1977), de autoria do médico e escritor norte-americano Robin Cook, lido ainda na sua adolescência, cuja trama, que se desenrola dentro de um hospital, é uma das mais sombrias. Enfim! Quando finalmente lhe despejam numa sala qualquer, onde já se encontram alguns alienígenas vestidos de azul, a certeza de que não poderia mais evitar o inevitável. E, mais uma vez, um encontro com a famigerada senhora das agulhas, a anestesista, que, por já saber do seu temor por aqueles instrumentos de alta periculosidade, tenta lhe descontrair, embora, por seus comentários, que você classifica de infelizes, apesar de não ter sido essa a intenção, só lhe deixa ainda mais em pânico. E, aí, eis que, de repente, a ortopedista adentra na sala. Envolta, contudo, naquele torpor, que, por seus medos, nem dá barato, você só a vislumbra em névoas – névoas essas nas quais, tempos depois, você desperta já sem certo parafuso, motivo da intervenção cirúrgica. Ocorre que, afetuosa de natureza, você reivindica, sem nem mesmo se dar conta do seu gesto, o direito de guardá-lo como souvenir. Afinal, aquele objeto estranho havia ficado semanas dentro do seu pé quebrado e, portanto, a você ele pertencia – prova disso foi que, pelo fato de o parafuso ter sido mal lavado, você percebe que havia ficado uma gota de sangue na sua cabeça, o qual, se analisado, revelaria, obviamente, o seu DNA. E tanto o parafuso lhe pertencia que, ao recebê-lo num invólucro plástico, você o batiza, passando a chamá-lo de Bentinho, inconscientemente transferindo para ele a repulsa que sente por certo alemão que se aboletou nas entranhas de Roma – analogia, aliás, para lá de pertinente. Então... Minutos depois de tomar posse do seu bibelô – mais um legado de todo aquele processo –, você é conduzida a uma sala reservada à transição de torpor ao estado grogue para, em seguida, ser liberada e ir para casa. Não obstante, desta vez, diferentemente das cirurgias anteriores, não haveria analgésicos para, tão logo o efeito da anestesia passasse por completo, você tentar debelar as dores provocadas pelo procedimento cirúrgico – a ortopedista não lhe prescreve um sequer! Desse modo, quando isso acontece, ou seja, quando, já em casa, desanuvia-se o efeito da anestesia, a sua noite entra para a coleção, pois é mais uma que passa em branco, impossibilitada que fica de dormir por causa da dor. E haja você gemer, por vezes gritando feito uma desesperada, prometendo a si mesma que, durante o dia, na ânsia de lhe pedir alguns analgésicos, iria procurar a sua ortopedista. Curiosamente, você não a encontra em lugar algum, nem mesmo no celular, e, sem alternativa, liga para o seu neurologista, pedindo que ele lhe prescreva um remédio que a faça dormir, na vã ilusão de que, apagada, não sentiria aquela dor lancinante. Infelizmente, o tal remédio prescrito pelo especialista possui inúmeros efeitos colaterais indesejados. Então... Sensível a esse tipo de medicamento, o seu organismo ressente-se, embora não no primeiro dia, mas, nos subsequentes, já que, por não surtir efeito algum, você decide aumentar a dosagem recomendada pelo neurologista sem sequer consultá-lo. E é aí que você se estrepa! Afinal, passa a sentir alguns dos malditos efeitos colaterais previstos na bula: delírios, alucinações e congêneres, com exceção, felizmente, de parada cardíaca e coma, igualmente previstos no manual de instrução – pense, então, o quão o medicamento é inofensivo! Desse modo, ciente, de que a droga é deveras agressiva ao seu organismo – a de qualquer um, provavelmente, não a recomendando a ninguém fazer uso da mesma –, você liga para o neurologista e, numa atitude que pode ser considerada de estoica, diz que prefere sentir dor a continuar tomando-a, ressaltando que, nesse ínterim, embora você desconheça o motivo, a sua ortopedista não sendo localizada, como se tivesse evaporado... Enfim! Quando chega o dia da visita regular a ortopedista, a primeira coisa que você faz é relatar o ocorrido: inútil, visto que as dores já tinham se dissipado e, naquele momento, pouco importavam os seus queixumes. Isso sem falar que, à ocasião, você seria orientada para retornar à fisioterapia – coisa que, ainda não era do seu conhecimento, iria lhe consumir cada fiapo de paciência...


 “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe...”.

Oscar Wilde (1854 - 1900)
Escritor irlandês.


 — Engana-se quem pensa que a fisioterapia é um alento para quem da especialidade médica precisa. É um verdadeiro horror! E nada de carinhas sorridentes maquiando um tratamento que, na verdade, leva é à exaustão! E não apenas porque, na clínica que frequenta os cinco dias úteis da semana, você tem de dividir um espaço sabe-se lá com mais quantas pessoas e todas, evidentemente, com problemas os mais diversos – não dá nem para ser simpática, visto que a sua única vontade é a de nem fazer fisioterapia. Pior: sempre que chega a clínica, você só quer sair de lá correndo – coisa que, por motivos óbvios, não é recomendável. Isso sem falar que, durante ainda um bom tempo, você deverá ficar dependendo da cadeira de rodas para se locomover. Falando nisso... Certo dia, portanto, tão logo acorda, você sente que, se não sair de casa para respirar ar puro – a manhã prestes a raiar –, vai enlouquecer de tédio. Desse modo, pede a sua acompanhante que a leve para uma volta no parque ao lado. Ocorre que, até chegar ao parque, o trajeto não é um dos mais indicados para cadeirantes, já que as calçadas são quase todas desniveladas. O que dirá dos paralelepípedos das ruas! De qualquer forma, a sua vontade de sair de casa é tão grande que você releva os obstáculos, tira-os de letra e, numa determinação impressionante, satisfaz o seu intento. Para sua surpresa, contudo, no caminho de volta, você vive uma situação no mínimo inusitada. Ou seja, ao passar por uma calçada em reforma, eis que, de repente, a cadeira de rodas atola... Sim, igual um jumento quando empaca. Pense! O dramático, entretanto, não é nem o atolamento da cadeira de rodas e a sua acompanhante não poder desatolá-la sozinha, mas você ter de se levantar e, pulando apenas com o pé esquerdo, visto que ainda não podia colocar o direito no chão, ajudar a sua acompanhante a empurrá-la... Que situação! Tanto que, por pouco, você não tomba e quebra também o outro pé, correndo o risco, ainda, de comprometer seriamente o já quebrado em fase de recuperação. Então... De volta para casa, exausta, por causa dos esforços feitos – quando nem poderia –, você aprende a lição e jura – obviamente que não de pé juntos – que nunca mais deixará passar por sua cabeça a ideia absurda de sair flanando pelas ruas de cadeira de rodas. E ainda mais de madrugada. Enfim! O tempo continua a passar e você naquela agonia que parece não ter fim. Afinal, a sua única distração era digitar postagens para o seu blog, navegar na internet, realizando pesquisas a perder de vista, assistir a filmes e séries televisivas e, devido à ansiedade imputada por sua limitação física, comer bastante – com exceção, claro, de crustáceos e carne de porco, que você adora –, mas, sobretudo, doces, e os mais variados – afinal, de algum modo, você precisa produzir endorfina. Ocorre que, de sorvete em sorvete, chocolate em chocolate, em barra ou líquido, você só vai ganhando peso, o que é compreensível. Não obstante, a sua capacidade de perder peso é proporcional a sua tendência a ganhá-lo. Daí você não se preocupar com esse mero detalhe, visto que o seu organismo funciona nos moldes da política da Faixa de Gaza, ou seja, vive em conflito: ora engorda, ora emagrece, ora engorda, ora emagrece... Um dia, contudo – isso depois de mais de três meses na condição de cadeirante e já tendo passado por três intervenções cirúrgicas, com os pontos da última já tendo sido tirados –, eis que, finalmente, certo dia, numa das suas visitas quinzenais a sua ortopedista, você ouve, com uma indiferença que, desde a primeira das intervenções, já se tornou um dos seus predicados, que deve passar para outra etapa do seu processo de recuperação, coisa, diga-se de passagem, que você já tinha ouvido do seu fisioterapeuta e que, por considerar a sugestão prematura, por pouco não a mandou para aquele lugar...


 “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...”.

Caetano Veloso
Compositor e cantor brasileiro.


— “Grande coisa!”, você pensa, com a sua expressão corporal manifestando explícito desdém quando a ortopedista lhe passa a informação, apesar de ser inútil tentar se insurgir contra fatos! Desse modo, sentada na sua cadeira de rodas como manda o figurino, você logo é intimada a se levantar, pôr os dois pés no chão e andar – coisa que, diga-se de passagem, você já tinha até se esquecido como era. Ocorre que, apesar de tentar, uma, duas, três ou mais vezes, você não consegue. E, aí, o que é que você ouve da ortopedista? “Isso é dor psicológica...”. Ora! Você pode não ter atravessado os sete mares – apenas o Oceano Atlântico –, mas, nem por isso, é incapaz de distinguir uma dor real de uma psicológica. Porém, de nada adianta dizer isso, pois a ortopedista insiste em negar que, nas vezes em que é lhe pedido que ensaie alguns passos, a dor que você sente é real. Isso a deixa, então, extremamente aborrecida, já que, apesar de admitir a possibilidade de existirem casos em que a dor é psicológica, o mesmo não está acontecendo com você, que não está fantasiando nada, apenas constatando um fato – fato esse que, por sua vez, é contestado por sua ortopedista, que, não se fazendo de rogada, diz que você tem porque tem de andar, visto que, segundo ela, havia chegada a hora de deixar a cadeira de rodas – como se você estivesse gostando daquela situação e tivesse se acomodado à mesma. Não obstante, nem de longe querendo um conflito com a ortopedista, você desiste do embate e deixa o seu consultório, embora, intimamente, já tivesse decidido procurar um especialista em pé – decisão essa, inclusive, que, no momento, você não compartilha, mantendo-a em segredo. Tanto que, ao voltar para casa, você telefona a uma clínica particular e marca uma consulta com dado especialista, de quem – é compreensível – pretende ouvir uma segunda opinião. Aí, não demora muito, chega o momento da tal consulta, que, aliás, lhe é satisfatória, pois o referido especialista concorda plenamente que cada caso é um caso e que, no que lhe diz respeito, a dor que sente é deveras real. Qual a solução, então, para que você possa deixar a cadeira de rodas e tentar andar sem dor? Usar, no pé quebrado, juntamente com o auxílio de um par de muletas, uma espécie de bota, chamada de Robofoot, que, tão logo a calça, para o seu conforto e alívio, não sente dor alguma, nenhum inconveniente. Isso sem falar da sugestão de, diariamente, andar cerca de meia hora fazendo uso da bota e das muletas, que você passa a chamar de Tico e Teco. Afinal, a cada um o seu cajado. Então... Nos dois primeiros dias, portanto, você vai com a sua acompanhante caminhar logo cedo no parque logo ao lado. Só que, com as suas limitações, você leva, até chegar ao parque, cerca de 30 minutos; andando nas suas dependências mais uns 15 e, para retornar, outros 30. Ou seja, você anda mais tempo do que o recomendado e, no terceiro dia, nem consegue sair da cama de tanta dor. Num dos dois primeiros dias, contudo, de volta para casa, um desconhecido, idoso, atravessa a rua e, sem que você menos espere, lhe aborda, fazendo-a parar por alguns instantes:
— A senhora é freira? – pergunta ele, apesar da hesitação, provavelmente porque o seu cabelo, longo, estava preso, tipo um coque.
— Felizmente, não. – você responde, logo pensando que ele era uma espécie de Testemunha de Jeová.
— A senhora é católica?
— Felizmente, não.
— A senhora é evangélica?
— Felizmente, não.
— Bem, é que... – o homem tenta se justificar. – Há anos eu distribuo uma medalhinha de Maria...
— Senhor, eu sinto muito. – atalha você logo que o vê estendendo-lhe uma réplica do seu objeto de devoção. – Só que, por orientação médica, eu tenho de caminhar diariamente durante certo tempo, sem interrupções. Daí não poder sequer ficar parada aqui, conversando com o senhor. Queira me desculpar, mas preciso ir... 
E você vai, deixando o estranho lá, parado, com as tais medalhinhas na mão, provavelmente sem entender o verdadeiro motivo da sua recusa de uma suposta ajuda espiritual para o seu visível problema. Ora, era só o que lhe faltava na altura do campeonato! Ou seja, portar, 24 horas, uma medalhinha de Maria... Logo você que, além de ateia, ousou desafiar a ortopedista, dizendo que a sua dor não era psicológica. E tanto não era que não teve problema algum para andar quando colocou a bota – informação essa, inclusive, que você só reportaria a ela tempos depois. Enquanto isso, malgrado a sua vontade, você vai prosseguindo com a fisioterapia...


“Cada um sabe de si...”.

Extrato de um provérbio popular.


— Nos próximos dias, contudo, pela milésima vez, um inconveniente iria tirar-lhe o sono, fazendo você sentir outro tipo de dor: a de uma tendinite nos antebraços. Afinal, cada dor é uma dor, com motivações específicas, definidas. Daí cada dor ter personalidade própria. Então... Por ter passado mais de três meses de molho numa cadeira de rodas, executando movimentos que, até então, não lhe eram habituais, somado ao fato de um dos efeitos colaterais do medicamento prescrito anteriormente por seu neurologista afetar a parte muscular e esquelética do seu organismo, além, mas, em menor grau, do uso compulsivo do computador, além do habitual, que já é em demasia, você ganha uma tendinite nos dois antebraços – bônus pior não poderia haver... De qualquer modo, com aquelas novas e insuportáveis dores, você marca uma hora com a sua ortopedista, querendo, no mínimo, entender o motivo daquilo. Ela, então, lhe recomenda uma série de sessões de fisioterapia para o recém-adquirido problema – leiga no assunto, você nem questiona tal recomendação e, quando vai à clínica de fisioterapia, ironiza ao dizer que passou a frequentar um salão de beleza, fazendo pé e mão... Porém, o que mais lhe irrita em relação à novidade são as pessoas questionarem o seu próprio diagnóstico no que diz respeito ao seu novo problema – um saco isso, ou seja, a mania de as pessoas, na vã ilusão de que entendem de tudo, se meterem na vida de outrem, no caso, a sua (ainda mais no estado em que você se encontra, de certa forma ainda dependendo de terceiros), dizendo que a tendinite não tinha nada a ver com a cadeira de rodas nem, muito menos com o medicamento prescrito pelo neurologista, mas apenas que ela era fruto exclusivamente de uma Lesão por Esforço Repetitivo - LER, provocada, por sua vez, pelo excesso de digitação e que, portanto, você tem de parar de digitar freneticamente, como vem fazendo há meses. E a vontade de mandar todo mundo à m? Sim! E que, ao invés de se intrometerem na sua vida, que cada um cuide de si mesmo. Afinal, você conhece o seu organismo melhor do que ninguém e sabe que, apesar de há anos ter LER e que a mesma vez por outra lhe acarreta certos desagravos – todos, inclusive, até então suportáveis –, a lesão, que é causada por seus repetidos movimentos de digitação, apenas tinha sido um dos fatores – e nem tão preponderante assim – que contribuiu para o surgimento da tendinite. Só que as pessoas insistem que você está equivocada, que elas é que têm razão. Ora, você, que não admite lhe questionarem, já que não costuma se meter na vida de ninguém, pois, por princípio, respeita a individualidade do outro, só vai, cada vez mais, aumentado a sua irritação contra esse tipo de ingerência. O fato é que, nas malditas sessões de fisioterapia, agora não somente para reabilitar o pé quebrado, mas, também, para tentar tratar a tendinite, você, de repente, que já não anda de bota, com a ajuda de muletas, embora de vez em quando andando apenas com uma, sente como se estivesse numa academia ginástica, já que o fisioterapeuta termina por priorizar a última, em detrimento do principal motivo que a levou a fazer fisioterapia, ou seja, a reabilitação do seu pé quebrado, cujos cuidados aos poucos vão sendo deixados em segundo plano pelo fisioterapeuta. Só que, apesar de leiga no assunto, mas tem bom senso, além de, na adolescência ter sido atleta, praticado anos de basquete, tênis e natação, você percebe que algo está errado. Afinal, as dores provocadas pela tendinite só aumentam e, certo dia, num dos ditos exercícios para supostamente curá-la, um, em específico, que deveria fortalecer os músculos dos seus braços, por pouco não compromete o pé que havia sido quebrado – isso sem falar de outras duas vezes que, em momentos distintos do tratamento para o pé, o fisioterapeuta, por vacilos, por sorte sua não a deixou cair... Enfim! Cansada daquele ambiente, no qual, diga-se de passagem, havia dias onde cerca de dez pessoas eram atendidas por um único profissional, você procura a ortopedista, narra os episódios, diz que os considera graves, que não quer retornar para a tal clínica e pede que ela indique outra. Resumindo: você muda de clínica, consequentemente, de fisioterapeuta...


“A homeopatia é o mais simples, o mais doce e o mais humanitário dos sistemas que a medicina encontrou para cuidar dos nossos males...”.

Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810 - 1885)
Educadora, escritora e feminista brasileira.


— A nova clínica, portanto, que você procura para dar continuidade ao seu tratamento de fisioterapia, inicialmente, para o pé quebrado – o da tendinite seria posteriormente –, é tudo de bom! E se arrepende de não tê-la contatado desde o início, já que a mesma era uma das que estava na sua lista meses antes de começar todo o processo fisioterapêutico, mas que, à época, você nem chegou a ligar a fim de buscar informações a respeito. Então... Para começo de conversa, o tratamento –  durante semanas – é personalizado, algo que, claro, humaniza a relação do profissional com o paciente. Tanto que, em apenas poucos dias, os resultados positivos já são sentidos. O tempo, por sua vez, continua a passar e, certo dia, ouve, com alento, a fisioterapeuta dizer que está lhe dando alta. Das sessões de fisioterapia para o pé quebrado, devendo você retornar a ortopedista para que ela faça uma avaliação – coisa que faz imediatamente. Na sala de espera do consultório, entretanto, ao sentar ao lado de um rapaz, puxa conversa e, de repente, ele conta que teve o mesmo problema que você. Porém, em resposta a uma pergunta sua, o jovem diz que nada fez durante o tempo em que passou imobilizado, ou seja, não lia, não escrevia, não assistia TV, não ligava celular, nada... E você, surpresa, diante da apatia do rapaz, exclama:
— Criatura, você não é normal!
Indiferente a sua observação, ele dá de ombros e você se levanta, já que a atendente havia acabado de chamar o seu nome. Minutos depois, portanto, no consultório da ortopedista, a avaliação. E você mais uma vez ouvindo o nome “alta”. Desta vez, contudo, a sua carta de alforria. Infelizmente, apesar do pé direito já livre das torturas, você ainda teria de tratar da tendinite nos antebraços. Não obstante, prudente, a fisioterapeuta sugere uma consulta a uma reumatologista de renome na cidade, a fim de que o diagnóstico, dado as suas dores nos antebraços por uma amiga formada em educação física pouco depois que você começou a senti-las, seja ou não confirmado. Desse modo, após a consulta e exames vários, analisados pela reumatologista, o diagnóstico é confirmado e, além das inúmeras sessões de fisioterapia que ela lhe prescreve, você se vê obrigada a retornar à alopatia, tomando um anti-inflamatório – o que, mais uma vez, lhe deixa, obviamente, extremamente contrariada, visto que, depois da quantidade de drogas alopatas que, ao longo de todo o processo, você já havia tomado, nem passava por sua cabeça a ideia de voltar a ser agredida por esse sistema da medicina tão agressivo, sobretudo porque você já havia pedido a uma farmacêutica homeopata, sua amiga, que lhe preparasse alguns medicamentos homeopáticos e fitoterápicos para reparar os desgastes sofridos por seu organismo depois de toda a overdose alopata ao longo de meses, bem como para lhe dar imunidade para eventuais adversidades. Só que, infelizmente, você se vê obrigada, sim, a retornar à alopatia. Dos seus xingamentos, portanto, por ser aconselhada a não substituir o anti-inflamatório alopata, exemplo, por óleo de Copaíba, anti-inflamatório fitoterápico, não são poupados nem os santos da Bahia – todos. O que dirá, ainda, demais religiões e os seus objetos de devoção! Dando início, portanto, ao tratamento da tendinite, inicialmente dez sessões, e, embora relute, você termina por tomar o remédio. Porém, lá pelas tantas, quando leva outra guia de mais dez sessões à fisioterapeuta, já prescritas pela reumatologista com antecedência, o seu plano de saúde, acessado pela internet na própria clínica, informa que não poderá autorizá-la. Sem nada entender, já que tal informação não tem cabimento, você é orientada pela fisioterapeuta a ir num dos escritórios do seu plano de saúde, a fim de desfazer o mal entendido e poder continuar com as suas sessões. É aí, então, que, à oportunidade, rola o papo em questão, ou seja, a história que oro conto...


 “O melhor plano de saúde é viver...”.

Parte de um slogan de uma campanha publicitária de um dado plano de saúde (não digo o nome para não fazer propaganda).


— Ocorre que, depois de contar a referida história, a atendente do escritório do seu plano de saúde faz algumas consultas no computador e alguns telefonemas, mas, pouco depois, visivelmente constrangida e, consequentemente, hesitante, já que ficou a par da sua epopeia, ou pior, das suas auguras, diz que o seu credenciamento havia sido cancelado. Ora, não lhe faltava mais nada! Não obstante, sem nada entender, até passa na sua cabeça descarregar a sua incompreensão e fúria na atendente, mas, como ela havia sido atenciosa, você desiste e, se esforçando para ser gentil, pergunta qual, então, o procedimento a seguir para tentar resolver o seu problema, apesar de certo momento achar que isso aconteceu porque, “inutilizada”, passou meses e meses a custa do seu plano de saúde. Segundo, portanto, a atendente, consta no seu cadastro, registrado no computador, que a orientação é a de que deve ligar para um dado número de telefone, que ela anota num pedaço de papel e lhe entrega, a fim de você se inteirar sobre o que realmente ocorre. E é o que você faz tão logo retorna para casa. O fato é que, resumindo: as informações que você recebe ao telefone são conflitantes, a ponto, aliás, de nem mesmo a sua interlocutora saber do que se trata. Suspeitando, contudo, de uma ou mais irregularidades cometidas por seu plano de saúde, você entra em contato com o órgão estadual que mantém o contrato entre os seus funcionários e o dado plano de saúde e narra o episódio. Que eles, então, no caso, tomem as devidas providências, a fim de que o quiproquó seja solucionado. Dias depois, portanto, tudo é esclarecido, ou seja, por seis meses, devido problemas ocorridos no sistema de informática do seu plano de saúde, a empresa não emitiu as faturas dos seus credenciados. Daí que, durante o reparo no tal do sistema, a fim de que as faturas fossem liberadas e tudo voltasse ao normal, muita gente, inclusive você, foi prejudicada, ficando, nesse ínterim – uma semana transcorre –, sem fisioterapia... Desse modo, você, que até se sentiu renascendo para a vida quando da alta dada pela ortopedista – alta essa referente à reabilitação do seu pé direito quebrado –, já nem vontade tem mais para retornar à fisioterapeuta e retomar o tratamento para se curar da tendinite depois de desfeita a confusão provocada pelos desmandos do seu plano de saúde. Na verdade, você deseja mais é que o tempo encarregue-se de curá-la a seu bel prazer, se tiver de ser, pois está de saco cheio! Tanto que, apesar da guia anteriormente não autorizada passar a ser reconhecida, você só retorna à fisioterapia por algumas sessões. Depois, resolve chutar o balde! – ou o pau da barraca, metaforicamente falando, claro. Sim, já que, afinal, decidiu que não pisaria mais na clínica. E, de fato, desde então, você nunca mais lá pisou! O fato é que, já estando em outubro, há sete meses num calvário aparentemente sem fim, saturação, para você, se tornaria uma redundância. Isso sem falar que, segundo a sua ortopedista, a maioria das pessoas que fratura algum tipo de osso leva cerca de um ano para se restabelecer por completo, sobretudo considerando que cada caso é um caso e que tudo também depende do tipo de osso fraturado e da gravidade da fratura – haja relatividade! Tanto que, desde outubro passado – já é janeiro de 2013 –, vez por outra você ainda se ressente do que resultou das suas traquinagens, que foi quebrar o pé e, por conseguinte, passar meses e meses se sentindo o mais inútil dos seres humanos, pior do que, por exemplo, um inválido de nascença...


 Uma das pérolas do artista e ilustrador norte-americano David Levine (1926 - 2009), considerado, inclusive, o maior caricaturista da segunda metade do séc. XX, sendo muitos dos seus cartuns tidos como “devastadores”. O escolhido para ilustrar esta postagem foi feito quando Lyndon Johnson (1908 - 1973), após assumir a presidência dos Estados Unidos depois da morte de John Kennedy (1917 - 1963), apareceu na imprensa mostrando a cicatriz decorrente da cirurgia de vesícula biliar que havia feito. Implacável, David Levine colocou o mapa do Vietnã, que sucumbia a uma guerra insana, no local dos pontos cirúrgicos, revelando qual a verdadeira cicatriz do então presidente norte-americano, cujo mandato durou de 1963 a 1969.

“Cicatrizes nos lembram, afinal,/que o tempo, apesar de passado,/foi muito real”.

Tania Carneiro Leão
Artista plástica brasileira que, em 2007, após quebrar um pé, passou a sua convalescença numa cadeira de rodas criando haicais, que, segundo ela, lhe surtiu um excelente efeito terapêutico, além de resultar no livro Poemas de pé quebrado e brinquedos improcedentes, lançado no final de 2011.


— Sorte a minha que não tenho queloides – em três tempos, as cicatrizes, decorrentes das três cirurgias, vão desaparecer... Enfim! Sei ter parecido exagero da minha parte o que disse, mas, não posso negar que, ao longo desse período, me senti completamente impotente, embora, para tentar compensar as sensações de desânimo, a mente, do alto do seu pedestal, recusou-se, terminantemente, a sucumbir ao embotamento das emoções. Em março de 2013, portanto, mais precisamente no dia 05, fará um ano da fratura do meu pé direito. Desse modo, espero estar 100% recuperada. Afinal, semanas atrás, ao levantar da cama pela manhã, uma dor descomunal acometeu-me ao pisar o pé direito no chão. Tanto que precisei recorrer à bota de nome Robofoot para poder andar dentro de casa sem sentir dor. Curiosamente, dias depois, também ao levantar da cama, por pouco não levei um tombo, já que, sem motivo aparente, me faltou força no pé quebrado. Isso sem falar que, aqui e acolá, uma indesejada dor decide aparecer. E sem aviso prévio! Pior: sem hora para partir. Sim, a senhora dor, mote desta postagem, que não é senão a continuidade de outra, intitulada Dor de osso é pior do que dor de amor, publicada no dia 1º de setembro de 2011 e que, desde então, por mais incrível que possa parecer, tem sido a mais lida do meu blog desde a sua criação, em janeiro de 2009 (http://abagagemdonavegante.blogspot.com/2011/09/dor-de-osso-e-pior-do-que-dor-de-amor.html). Bom! Certa feita, uma sábia mulher disse: “O que cura é a alegria, o que cura é o afeto...”. O nome da dona de tão iluminadas palavras? Nise da Silveira (1906 - 1999), psiquiatra brasileira, discípula do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875 - 1961), fundador da psicologia analítica. Lembro-me, também, de uma passagem da entrevista que fiz com a escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, que, aliás, foi publicada no extinto jornal Pasquim 21, quando dos 80 anos de idade da dama da nossa literatura, em abril de 2003. Ou seja, ao final da referida entrevista, comentei com Lygia que “o amor e a arte possuem verdadeiros poderes de cura”, ao que ela complementou: “Um completa o outro. ‘No fim, tudo passa’, diz um certo Fernando Pessoa, sem esquecer de destacar a arte, o amor”. Ah! Outro dia, uma amiga também quebrou o pé e emprestei Tico e Teco para ela, ou seja, o meu par de muletas. Desse modo, além de manifestar a minha solidariedade, aproveitei a ocasião para praticar certo desprendimento. Então... A fim de concluir esta nada sucinta postagem, gostaria de dizer que não somente a alegria, o afeto, o amor e a arte detêm poderes terapêuticos capazes de curar as nossas mazelas, independentemente da sua natureza, mas, também, no caso específico de um pé quebrado, ou seja, o meu, o que igualmente contou para a minha recuperação, apesar de toda a revolta que senti durante processo de cura tão longo e das adversidades inerentes ao mesmo, chama-se disciplina. E nesse aspecto, caro (a) leitor (a), eu acredito que a minha conduta foi exemplar.
— Como foi isso? – perguntaria João Grilo, intrigado, uma das personagens do livro Auto da Compadecida (1955), criada pelo polêmico dramaturgo e escritor brasileiro Ariano Suassuna, lá das bandas de João Pessoa, na Paraíba.
— Não sei, só sei que foi assim... – responderia o arteiro Chicó, companheiro de travessuras de João Grilo.
Enfim! Como já bem o disse a escritora norte-americana Harriet Rubin: “Não há maior poder do que a liberdade de cair fora...”.



Tentar, pelo menos, tentar! Afinal, era uma vez um passarinho que queria voar... E como, certa feita, já o disse no twitter a antropóloga brasileira Rita Amaral (1958 - 2011), uma amiga muito querida, com quem, inclusive, cheguei a trocar muitas ideias sobre festas populares – tema de sua predileção –, acometida mortalmente por rara doença, conhecida, aliás, como ossos de cristal – na sequência, abordarei a respeito neste blog –, ou seja: — Não me siga: nem eu sei aonde vou...

NBC

5 comentários:

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    1. Uma coisa, Mané (Café com Letras), após tanto sofrimento, ser uma pessoa capaz de lembrar todos os detalhes do suplício – tão real (acho q estou dentro das estatísticas daqueles que são normais)... Felizmente.!

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  2. Menina, me perdoe, mas até chorei (diversas vezes!) de tanto rir da sua tragi-comédia. Me desculpe, mas eu agradeço ao universo por te ter feito quebrar o pe para q vc pudesse ter uma história tão hilária, com tamanha maestria! Não sei ao certo o q fez antes ou depois, mas me arrisco em dizer que, ao invés de um ano nulo, vc recebeu o presente da vida de poder narrar sua saga e entreter o mundo com sua genialidade! KKK! Parabéns para vc, para Madre blandina, e ao seu anjo da guarda q cuidou tão bem do seu bom humor!!!!

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