sábado, 13 de abril de 2013

SOU DO TEMPO DE CARTA

“A carta é telefonema antiquado, do tempo em que as pessoas sabiam escrever e ler...”.

Eno Teodoro Wanke (1929 - 2001)
Poeta e engenheiro brasileiro.


Numa época em que a linguagem das novas tecnologias, nos seus mais diversos formatos, remonta, ou melhor, equipara-se, majoritariamente, à do telegrama – de há muito, diga-se de passagem, caído no ostracismo –, com a informação, no caso, divulgada de maneira sintetizada, com frases curtas e objetivas nas redes sociais, caracterizada, ainda, por sua instantaneidade, bem como por, na maioria das vezes, lembrar as pré-históricas inscrições rupestres, de tão superficial e artificial que é, torna-se até compreensível que muitos andem a defender a revisão de certos conceitos, sobretudo os que dizem respeito à comunicação.

Então... Se, por um lado, a internet derruba fronteiras, aproximando os seus usuários nas malhas insondáveis de um mundo virtual, por outro distancia esses mesmos usuários de um convívio real, que, num tempo nem tão remoto assim, humanizava as relações interpessoais – hoje, quiçá, à beira de um colapso, aos poucos se transformando em algo obsoleto. Afinal, o que se tem visto são os internautas dedicando-se compulsivamente as tais redes sociais em detrimento do bom senso – comportamento, aliás, preocupante, pois afeta e compromete a identidade cultural não somente de um indivíduo, isoladamente, mas de um povo, inserindo todos numa imensa aldeia global – conceito de há muito preconizado por Marshall McLuhan (1911 - 1980), filósofo e educador canadense.

Isso sem falar na desenfreada inserção no mercado de novas tecnologias, que, disponibilizadas a 3x4, acelera, igualmente, a adesão cada vez mais crescente de consumidores os mais diversos, que, a cada instante que se passa, se diluem nas entranhas do tempo, vertiginosamente, alheios ao sentido da sua própria existência, não mais, inclusive, atentos aos seus bens mais genuínos, as coisas mais simples do dia a dia, perdendo antigas referências. Daí, então, que, outro dia, num repente de nostalgia, me dei conta de que, de certa forma, em muitos aspectos, posso, no quesito comunicação, me considerar arcaica.

Vejamos: apesar, digamos, de fazer uso de e-mails e de outras ferramentas correlatas, sou, ainda, do tempo de carta, diário, bilhete, errata; sou do tempo de livro. De quando, por exemplo, os volumes de uma obra eram chamados de tomos e compostos em linotipo; sou do tempo de taquigrafia. De escrever a mão, de papel carbono e máquina de datilografia; sou do tempo de copy desk, diagramação e jornal impresso; sou do tempo de vinil. De radiola de ficha, rádio de pilha, tv preto-e-branco e fita-cassete; sou do tempo de lambe-lambe, slide e negativos. Sou do tempo de super-8, de película de 35 mm; sou do tempo de bip, telefone fixo e orelhão – de ficha e de cartão; sou do tempo de circo, quando os palhaços pululavam no picadeiro, não nas urnas.

De igual modo, sou do tempo de matinê, quando se chupava roletes de cana espetados em palitos de coqueiro nas antigas salas de cinema – paulatinamente prostituídas para a difusão de certa fé religiosa; sou do tempo do tilintar de um triângulo a chamar o freguês para comer cavaco-chinês; sou do tempo de sineta, de badalo de sino, de apito de trem, de assovio; sou do tempo do clamar e aclamar das palmas, do tempo em que a palavra dada era lei, não se questionava. Enfim! Sou do tempo de rabiscar recado – tipo esse. Afinal, sou do tempo de saudade, de colher uma flor, tecer poemas e declamar versos de amor...

NBC

Um comentário:

  1. Mandou bem. Sou do tempo e continuo sendo do tempo dos quem leem mesmo que o texto tenha mais que dez linhas.

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