sexta-feira, 24 de maio de 2013

POVO TEM CÂNCER; BURGUESIA, NEOPLASIA...

“Consolidar o Sistema Único de Saúde (SUS) será (...) prioridade do meu governo. Para isso, vou acompanhar pessoalmente o desenvolvimento desse setor tão essencial para o povo brasileiro. Quero ser a presidenta que consolidou o SUS, tornando-o um dos maiores e melhores sistemas de saúde pública do mundo. O SUS deve ter como meta a solução real do problema que atinge a pessoa que o procura, com uso de todos os instrumentos de diagnóstico e tratamento disponíveis, tornando os medicamentos acessíveis a todos, além de fortalecer as políticas de prevenção e promoção da saúde. Vou usar a força do governo federal para acompanhar a qualidade do serviço prestado e o respeito ao usuário. Vamos estabelecer parcerias com o setor privado na área da saúde, assegurando a reciprocidade quando da utilização dos serviços do SUS. A formação e a presença de profissionais de saúde adequadamente distribuídos em todas as regiões do país será outra meta essencial ao bom funcionamento do sistema...”.

Dilma Rousseff
Trecho do seu discurso de posse na presidência do Brasil – 1º de janeiro de 2011.


Nesta quinta-feira, 23, entrou em vigor a lei nº 12.732, que, sancionada no dia 22 de novembro de 2012 pela presidente Dilma Rousseff, dispõe sobre o tratamento gratuito de pacientes com câncer “no prazo máximo de até 60 (sessenta) dias contados a partir da data do diagnóstico firmado em laudo patológico ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica do caso registrado em prontuário único”, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Anunciada no dia 16 de maio do corrente pelo ministro da Saúde Alexandre Padilha, a notícia bem que poderia servir de alento aos pacientes que, diferentemente dos que possuem recursos próprios para bancar o tratamento (cirurgia, radioterapia, quimioterapia etc) em clínicas e/ou hospitais privados do país e/ou do exterior, não dispõem de meios para arcar com despesas tão altas, dependendo, portanto, do SUS para se submeter aos procedimentos que a doença requer para ser debelada.

Porém, diante do histórico da maioria dos gestores do país e das políticas públicas do Estado, a iniciativa, em um ano que antecede o das eleições presidenciais, torna-se até suspeita, como se quisessem que acreditássemos que, apesar de tardia, a mesma fosse uma real preocupação do governo federal para com a saúde do povo brasileiro, inclusive porque, na prática, é comum a espera pelo tratamento chegar a quatro meses e, em muitos casos, quando isso acontece, o paciente já foi a óbito. Daí ser imperativo o cumprimento rigoroso da lei – caso contrário, será mais uma que não sairá do papel... Isso sem falar no excesso de burocracia – haja redundância! – exigida para que o SUS possa autorizar um tratamento compatível com as necessidades do doente, quando, na verdade, o ideal seria que, tão logo fosse diagnosticada a doença, cuja evolução é imprevisível, os devidos cuidados médicos deveriam ser imediatamente disponibilizados.

O curioso, contudo, é que, enquanto o governo federal previu um derrame dos cofres públicos de mais de R$ 26 bilhões para a Copa de 2014, a ser realizada no Brasil, ele destinou, para que se cumpra a lei nº 12.732/12, apenas o irrisório montante de R$ 500 milhões – haja desproporcionalidade! –, sobretudo considerando que, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), são esperados mais de 500 mil novos casos da doença em 2013. Preocupante? Não: alarmante! Tanto que o INCA já divulgou que o câncer representa a segunda causa de morte no país, cuja população é de mais de 190 milhões de habitantes, perdendo apenas para as doenças cardiovasculares. E a situação torna-se ainda mais grave porque, de acordo com o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), reconhecido como o maior hospital público de oncologia da América Latina, o câncer tornar-se-á a principal causa de morte da população brasileira até 2020.

Em seu pronunciamento, portanto, o ministro Padilha adiantou que diversas medidas que darão apoio à devida aplicação da lei nº 12.732/12 já estão sendo tomadas. Entre elas: a formação, com incentivos financeiros, de “especialistas em oncologia clínica, pediátrica, cirúrgica, entre outras áreas”, a fim de “os hospitais tenham estímulo para abrir novas vagas de residência em áreas prioritárias, como oncologia”, além da criação do Sistema de Informação do Câncer (Siscan), na tentativa de auxiliar estados e municípios a gerir os serviços oncológicos da rede pública – desde o dia 16, encontra-se disponível, gratuitamente, para as Secretarias de Saúde, um software que pretende reunir o histórico do paciente e do seu tratamento, a fim de que seja feito “um acompanhamento em tempo real do que acontece nos serviços de saúde”, disse, explicando que, assim, estará se inaugurando “uma nova etapa no tratamento do câncer no país”.

E a previsão do governo é a de que todos os registros de novos casos da doença no Brasil deverão ser feitos pelo Siscan, a ser implantado pelos estados e municípios até o final deste ano – isto é, se não quiserem que os repasses federais para atendimento oncológico sejam suspensos. No mais, uma comissão de monitoramento e avaliação, de caráter permanente, será criada para acompanhar o processo de implantação do Siscan e a execução de planos regionais de oncologia, bem como realizando visitas regulares a hospitais que atendem via SUS para avaliar as suas condições de funcionamento e a capacidade de ofertar atendimento oncológico com agilidade – oferta essa que inclui a instalação de 80 novos serviços de radioterapia em todo o país e a ampliação de outros centros já existentes, enquanto as unidades de saúde que já ofertam esses serviços serão estimuladas a adotar um terceiro turno (o noturno) de funcionamento.

Isso porque o atendimento costuma ser diurno – 93 serviços já demonstraram interesse em abraçar essa ideia –, embora outra opção considerada pelo governo seja a de contratar hospitais da rede privada para a prestação de diversos serviços ao SUS. À oportunidade, o ministro Padilha, para quem “o tratamento do câncer no país tem sido uma força importante para a humanização no atendimento e na reorganização do SUS”, aproveitou para informar que pessoas jurídicas e físicas poderão ter deduções fiscais se investirem em ações de prevenção e combate ao câncer e de reabilitação de pessoas com deficiência, com os doadores abatendo até 1% do Imposto de Renda devido, enquanto entidades sem fins lucrativos, caso queiram, serão apoiadas com recursos captados por meio dos Programas Nacionais de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon) e o do Programa de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (Pronas/PCD).

Enfim! Segundo o portal da Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer, fundada em 1949 por um grupo de profissionais da área de saúde e reconhecida pelo Ministério da Saúde como um centro de alta complexidade em oncologia, sendo, no caso, o único existente no estado do Rio Grande do Norte, a patologia em questão, “também chamada de neoplasia, é um conjunto de mais de 100 doenças que se caracterizam pelo crescimento desordenado” de determinadas células – células essas, inclusive, que “se dividem muito rapidamente, invadindo tecidos e órgãos e formando tumores que podem se espalhar (metástases) para outras regiões do corpo”. E as explicações prosseguem: “O câncer tem causas variadas, podendo surgir de fatores externos, como o ambiente em que a pessoa vive ou hábitos e costumes presentes em nosso dia a dia; ou também por fatores internos, que, na maioria das vezes, estão geneticamente predeterminados”.

Para o jornalista Tito Montenegro:
— Na milenar batalha entre o câncer e a espécie humana, continuamos levando a pior...


Na opinião do jornalista, o câncer não seria “uma doença”, mas “um fenômeno”, desencadeado, invariavelmente, por um leque de inúmeras causas. Daí ser “ingênuo acreditar que um dia encontraremos uma cura para ele”. O fato é que, para a Organização Mundial da Saúde (OMS), que, aliás, estima o diagnóstico anual de cerca de 12 milhões de casos de câncer em todo o mundo, sendo que, a cada ano, a doença causa mais de sete a oito milhões de óbitos, “pelo menos um terço de todos os casos de câncer pode ser evitado”. E que a estratégia mais eficiente adotada em longo prazo pela entidade se resume a prevenção, diagnóstico precoce e acesso aos tratamentos. No Brasil, a fim de que vários aspectos obscuros da lei nº 12.732/12 sejam esclarecidos, várias audiências públicas já estão sendo promovidas pelo Ministério Público Federal em diversos estados. Abaixo, portanto, links que, de repente, podem ser de interesse do leitor:

Instituto Nacional do Câncer (INCA) -

Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer -

Fundação FioCruz -

Revista Super Interessante, CâncerA Humanidade contra-ataca, novembro de 2004 - 


O que se perdeu, perdido está... 

“De que adianta ser lagarta de cerca / se pedaços caem na estrada e, com eles, vida se esvai? / Quisera continuássemos a viver em cada pedaço que cai...”.

Nathalie


A história que ora pretendo contar não é senão a de um caso de desrespeito do Estado brasileiro para com os seus cidadãos – desrespeito esse, aliás, que, além de acintoso, foi e continua sendo, já que situações similares permanecem ocorrendo a 3x4, extremamente desumano, colocando em xeque, no quesito saúde, a exemplo de inúmeros outros episódios, as políticas públicas do Estado brasileiro, bem como colocando em risco a vida de muitos dos que vivem neste país ou que, pelo menos, tentam sobreviver, dependendo, invariavelmente, dos serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que, infelizmente, apesar dos gestores dizerem que não, anda constantemente ameaçado pelo fantasma da privatização. Enfim! A referida história, ou melhor, o fato a seguir desenrolou-se em Natal, no Rio Grande do Norte, mas, de repente, poderia ter acontecido em qualquer lugar do Brasil. Ou do mundo...


O Fato:

“Uma dor sem tamanho...”.

Título da reportagem especificamente sobre o caso, publicada no jornal Diário de Natal, já extinto, no dia 7 de agosto de 2010 – uma das fontes desta postagem.


Fins de 2009, uma mulher de apenas 42 anos de idade foi diagnosticada com câncer nos rins. No dia 3 de março de 2010, a oncologista Karla Emereciano, da Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer, onde a paciente estava internada para tratamento, receitou, para a quimioterapia, quatro caixas de Sutent 50mg (malato de sunitinibe), medicamento fabricado e embalado por uma multinacional italiana, sendo que, à época, cada caixa, com 28 cápsulas, custava mais de R$ 20 mil. Diante, contudo, da impossibilidade financeira de adquiri-las, a família da paciente entrou com uma ação junto à Defensoria Pública da União, a fim de garantir a sua aquisição. No dia 8 de abril, o juiz federal substituto Vinicius Costa Vidor, da 5ª Vara de Natal, decidiu que, em caráter de urgência, a paciente recebesse o referido medicamento da União, que, por sua vez, recorreu da decisão – recurso esse que, no dia 27 de abril, foi negado pelo juiz federal Ivan Lira de Carvalho. No dia 7 de maio, entretanto, visto que, até então, a remessa do medicamento ainda não havia sido efetuada, a União foi multada em R$ 2 mil por cada dia de descumprimento da decisão judicial. Infelizmente, no dia 18 de maio – há exatos três anos –, já com o quadro evoluído – deu metástase na coluna –, a paciente não conseguiu mais resistir e faleceu... No dia 2 de junho, portanto, o seu óbito foi informado à Defensoria Pública da União através de uma certidão – não havia mais, obviamente, necessidade do tratamento. Curiosamente, pouco mais de dois meses depois, cinco caixas do medicamento – não quatro –, foram entregues na casa da mãe da mulher vitimada mortalmente pela doença que lhe acometeu – doença essa, inclusive, tratada com descaso pelos poderes públicos, que não foram pontuais; os direitos da doente, por sua vez, no caso, ignorados. Ocorre que, não demorou muito, ao tomar conhecimento da morte da paciente que havia requerido o medicamento, a União, descabidamente, pediu a devolução do mesmo – coisa, evidentemente, fora de questão, considerando que, após uma consulta jurídica, a família doou as caixas do medicamento tardiamente recebidas à Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer, ficando a história, como se costuma dizer, por isso mesmo. Em tempo: se, apesar do seu uso, o medicamento não debelasse a doença, que, pelo menos, pudesse ter minorado as dores e o sofrimento provocados por seus efeitos devastadores no organismo da paciente. Infelizmente, nesse caso, nem como um lenitivo na sua fase terminal o medicamento teve serventia – o que dirá curá-la!

Obs.: Em 2010, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o Brasil registrou 179 mil mortes em decorrência da doença. O câncer de brônquios e de pulmão foi o tipo que mais matou (21.779), seguido do câncer de estômago (13.402), de próstata (12.778), de mama (12.853) e de cólon (8.385).


Bola fora...

“O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”.

Mário Quintana (1906 - 1994)
Poeta brasileiro.


O tempo passa tal qual a Terra gira, dando voltas e mais voltas, e, invariavelmente, nem nos damos conta disso; tipo os amigos, que, igualmente rodopiando em nossas vidas, ora estão perto, ora longe, geograficamente ou não, independentemente da natureza das opções de cada um, podendo, contudo, devido a nossa condição humana, sem que menos esperemos, partirem, em definitivo, numa viagem sem retorno – muitas vezes, até, sem aviso prévio. Só que, mesmo tendo consciência de que a nossa existência é finita, não há, convenhamos, como aceitar certas separações irreversíveis. Infelizmente, apesar de não ser mais nenhuma adolescente, embora, aos 45 anos de idade, me considerar uma pessoa jovem, sobretudo por ser um espírito livre, já tenho contabilizado diversas perdas significativas na minha vida, sentidas, inclusive, pelo meu tão sensível coração ao longo da minha existência – perdas essas, aliás, cuja maioria, para o meu desalento, precoces: acidentes, doenças (motivo que, vez por outra, se faz necessário atualizar a agenda de contatos, efetuando as baixas)... Isso, obviamente, quando se toma conhecimento das mesmas.

Ocorre que, aqui e acolá, penso em alguns amigos que não vejo há anos e que, de repente, até que poderia ser interessante encontrá-los, reencontrá-los – quiçá, procurando-os, por exemplo, numa dada rede social que, de uns meses para cá, passei a frequentar, a fim, no caso, de retomar contatos, já que, apesar dos aspectos negativos desse tipo de ferramenta da internet, um troço legal que ela disponibiliza é a possibilidade de resgatar pessoas queridas que, de há muito, por motivos os mais diversos, você sequer tem notícias – o que dirá saber por onde elas andam! Isso, claro, ou seja, buscá-las na internet, se for o caso de elas terem aderido ao frisson virtual – e olhe lá! Tanto que eu mesma sou um exemplo disso, visto que, embora cadastrada na tal rede social desde 2009, apenas no final de 2012 cedi, de fato, aos seus inúmeros apelos. Então... Outro dia, lembrei-me de certa amiga, com a qual, diga-se de passagem, compartilhei uma das fases mais agradáveis e saudáveis da minha vida, que foi o início da nossa adolescência, mas que, por desenlaces naturais à história de cada um, findamos por tomar rumos distintos. Desse modo, pensei em adicioná-la...

À época, portanto, quando nos conhecemos, em Natal, estudávamos num colégio de padres italianos – pense a situação! Não demorou muito, ficamos amigas: cursávamos a 6ª série ginasial (hoje, ensino fundamental) – éramos da mesma turma e tínhamos, praticamente, a mesma idade –, frequentando, ainda, a escolinha de basquete do colégio, da qual, inclusive, também faziam parte as nossas respectivas irmãs – tipo a mesma faixa etária. Desse modo, além das aulas que assistíamos juntas; das que perdíamos, nas vezes em que as gazeávamos; das idas à capela, que em nada nos atraia; dos recreios festivos e dos treinos divertidos, alimentamos, a minha amiga e eu, um convívio que ultrapassou os altos muros, embora não intransponíveis, dos salesianos. Porém, o tempo passou e, certo dia – as nossas irmãs também –, passamos a fazer parte da primeira equipe feminina (infanto-juvenil?) de basquete do colégio. Dedicadas que éramos nos treinos e ágeis nas quadras, fomos selecionadas como titulares da equipe – ela, canhota, ala esquerda; eu, destra, ala direita. De certa forma, nas quadras, nos achávamos. De jogada em jogada, nos tornamos uma bela dupla.

O curioso é que, invariavelmente, os passes da minha amiga – para mim – sempre nos garantiam bastantes pontos nos placares, já que – detalhe – apesar de considerada “baixinha” para uma jogadora de basquete, o meu desempenho nas quadras tornou-me uma das cestinhas do time – que paradoxo! E participávamos não somente dos jogos internos do colégio, mas, também, de torneios outros, inclusive fora do Rio Grande do Norte, sempre conquistando medalhas – guardo-as até hoje. Tanto que, agora, ao me lembrar dessa fase, apenas confirmo que a mesma foi realmente muito importante nas nossas vidas, já que não éramos ligadas apenas pelos hábeis passes que dávamos com uma bola de basquete, mas, também, fora das quadras – de preferência, longe do umbral claustrofóbico do colégio mantido pela tal instituição religiosa. Então... Quando já havia pensado em localizar a minha amiga na rede social que frequento e adicioná-la, eis que, numa tarde chuvosa de abril, reencontro a sua irmã, que logo fui cumprimentando e, sorrindo, visivelmente animada, já pensando que, após anos de desencontros, poderíamos, finalmente, nos reencontrar, quis saber:
— E Jeanne, por onde anda? – a irmã da minha amiga olhou-me desconfiada, intrigada com a minha pergunta.
— Você não soube? – ela retrucou, percebendo que, de fato, eu ignorava o que quer que fosse.
— Não, o que houve? – nem de longe eu desconfiava do ocorrido.
— Jeanne morreu... – ela respondeu, com aparente naturalidade, mas, talvez, também porque estava de certa forma surpresa, já que a notícia, deveras triste, era-me, até então, realmente alheia.
— Como é que é?! – verbalizei, meio que de bobeira, sequer processando na mente a informação.
— Em maio, agora, vai fazer três anos...


                                                                                 1983                                            2009

Jeanne Maria Rodrigues Bertoldo
(Natal-RN, 09/05/1967 - id. 18/05/2010)


Custei a acreditar, mas, não demorou muito, inteirei-me do que ocorrera a minha amiga, ou seja: aos 42 anos de idade, um câncer desenvolveu-se nos seus rins – fato que, para o seu desespero, logo adquiriu os contornos de uma metástase, que, em poucos meses (seis, segundo a sua irmã), a devastou, ceifando-a, implacavelmente, sem dó nem piedade desta existência – fato ao qual fiz referência nesta postagem. Isso sem falar do absurdo do episódio que a envolveu, podendo, no seu caso – o que dirá no de muitos outros! –, classificar a postura da União não somente de leviana, mas, sobretudo, de omissa. Diante, portanto, do contexto, só vejo motivos para que a família da minha amiga já tivesse movido uma ação penal contra a União – coisa que, por foro íntimo, não foi feita até hoje. Então... Intrigada, a irmã da minha amiga disse que pensava que eu sabia da irreparável perda, visto que, à época, a minha irmã tinha ficado a par de tudo. O fato é que, na hora, ao receber a informação, não demonstrei nenhuma emoção – os olhos nem marejaram... Não obstante, após nos despedirmos e fiquei sozinha, afastei-me meio que tonta, por pouco não esquecendo onde havia estacionado o carro.

De repente, contudo, um misto de revolta e indignação tomou conta de mim. E por dois motivos:

1. Depois de tanto tempo sem saber do paradeiro da minha amiga, que sempre, tipo eu, gostava de se perder por esse mundo afora, quando pensei que, porventura, poderia quiçá encontrá-la, botar os papos em dia e matar a saudade – quanta ironia! –, fiquei sabendo que, literalmente, nunca mais iria revê-la;

2. Sem maiores explicações de quem quer que fosse, a referida notícia havia-me sido omitida por quase longos três anos – isso me virou a cabeça.

Sei não, mas, a meu ver – não importa o motivo –, ninguém tem o direito de, a partir do seu próprio julgamento, algo, aliás, extremamente subjetivo, sonegar certas informações, controlando-as, sobretudo quando as mesmas são de interesse de outrem. De fato, quando, no final de 2009, a minha amiga adoeceu gravemente, eu estava em Brasília, mas, não tardou, em fevereiro de 2010, pouco antes do carnaval, decidi, por questões pessoais, vir a Natal, para onde ela havia retornado, visto que, morando alhures, decidiu tratar-se aqui. Reconheço, ainda, que, naquele período, a minha vida andava mais amarga do que café sem açúcar – eu emaranhada numa série de questões aparentemente sem solução, embora, nem de longe, os meus problemas fossem considerados empecilhos para que não me notificassem do estado de saúde da minha amiga, do drama que, à época, ela protagonizava, na iminência, inclusive, de agonizar... Enfim! Independentemente do contexto que fosse, poderíamos, após anos de separação, dados, apenas, por contingências da vida, pelo menos nos reencontrar, nada me impedindo, por exemplo, de lhe fazer companhia nos seus últimos momentos.

Afinal, eu dispunha de tempo para isso –, distraí-la e, até mesmo, recitar poemas, inclusive os meus, que, aliás, ela já conhecia e gostava desde a época do colégio... Falando nisso, há pouco me veio à mente que, quando estudávamos juntas, muitos mantinham uma espécie de diário, no qual os amigos escreviam algumas palavras carinhosas e, muitas vezes, colocavam uma fotografia de lembrança. Desse modo, visto que, mesmo com pouca idade, eu já era familiarizada com palavras e poemas, também quis ter um. E tive. Tanto que, no dia em que soube que a minha amiga havia morrido, fui atrás do meu, encontrando-o, de cara remarcando a data na qual, nas minhas anotações iniciais, tipo preâmbulo, eu o iniciei, ou seja, 13 de abril de 1983, dia no qual completei 15 anos de idade. Qual não foi, portanto, a minha emoção quando, trinta anos depois, deparei-me com mensagens – singelas, embora sinceras – de alguns dos vários amigos da época? Diante, contudo, das circunstâncias, ao folhear o tal diário, sensibilizei-me, em especial, com a mensagem que, mais precisamente no dia 1º de maio do mesmo ano, Jeanne me dedicou, além de um beijo e uma assinatura, uma foto sua...

Hesitante, contudo, ela disse, no tal diário, que, apesar de não ser dada a escrever, queria que eu soubesse que gostava muito de mim, bem como de ser a minha “guia na natação” – a minha miopia foi diagnosticada quando eu tinha por volta dos seis anos de idade. De qualquer modo, o fato é que sempre gostei de experimentar coisas novas, como, por exemplo, no caso dos esportes, ginástica olímpica; basquete; tênis; natação... Ocorre que, como eu não podia pular na piscina de óculos – caso o fizesse, pois não conseguia enxergar direito, ainda mais à noite, era capaz de cruzar todas as raias na vertical –, Jeanne costumava me acompanhar nas aulas, não hesitando em cair na água comigo, conduzindo-me nas braçadas. Pense a camaradagem! Tanto que, ao final da sua mensagem, escrita no meu diário, ela manifestou o desejo de, se possível, manter a nossa amizade para o resto da vida, reafirmando que sempre ia me querer por perto... Infelizmente, não foi bem isso o que aconteceu, já que o tempo, implacável, passa, como se sabe, inexoravelmente. E, dependendo dos rumos que a vida de cada um vai tomando, se torna até compreensível certos distanciamentos.

No nosso caso, por exemplo, após a fase do Salesiano, do basquete e congêneres – Jeanne formou-se em educação física e eu em jornalismo –, passamos a nos encontrar esporadicamente, com os nossos passos e passes tateando novos mapas, geografias diversas, cada uma nas suas próprias aventuras, descobertas, experiências e vivências. Certa vez, contudo, num dos carnavais da vida – não me recordo o ano –, estávamos seguindo um bloco tradicional numa das ruas de Natal e, casualmente, nos esbarramos. Foi aquele abraço! Depois disso, só tínhamos notícias uma da outra en passant, fosse por telefone ou através de terceiros. Enfim! Sem ressentimentos daqueles que, apesar de equivocados, se acharam no direito de, ao longo de quase três anos, me sonegarem a notícia da viagem sem volta da minha amiga, aproveito o ensejo para citar uma frase – quiçá um verso – do escritor português José Saramago (1922 - 2010), tentando, talvez, justificar como ando a me sentir depois que soube que a minha amiga caiu no frevo, provavelmente indo atrás de um bloco de carnaval qualquer, já que ela adorava Recife, cidade que, certa vez, ainda pequena, chegou a morar:
— É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido...

A verdade é que, de uns tempos para cá, nem sobre as páginas de um livro eu choro mais. Disco rígido, então? Nem pensar! E isso apenas porque, ao longo do tempo, já devo ter exaurido a minha cota de lágrimas nesta incrivelmente agridoce vida. Daí, Jeanne, que, apesar de tudo, apesar do pesar que, ora, eu sinto e do meu sentimento de impotência por não poder reverter os fatos, gostaria que soubesse que não apreciei o seu último lance: logo você, sempre com um sorriso nos lábios, tais quais nas fotos reproduzidas – não me recrimine essa licença poética –, tão fraternal, alegre, expansiva... De qualquer modo, saiba também que, em 2011 – nem me pergunte como! –, quebrei o meu pé direito, só podendo, portanto, desde então, por ordens da minha hoje ortopedista, visto que ela também estudou conosco, apenas fazer natação. Nada de tênis – o que dirá basquete! E olha que, antes disso, até pensei em procurar Lourdinha – a nossa ex-técnica –, a fim de me informar onde é que eu poderia nem que fosse bater uma bola, minimizando, quem sabe, os efeitos do meu sedentarismo. Infelizmente, não foi só você quem perdeu o rebote. De certo modo, eu também perdi.

Bom! Despeço-me, aqui, dos meus devaneios, registrando, contudo, a minha humilde homenagem e sentida saudade... Afinal, "nada entendo de teorema: o meu solo é poema, verso livremente tecido em busca de um sentido". E como diria outro verso de minha autoria:
— A única certeza que me atemoriza é a da morte: as demais são curtos-circuitos existenciais...

Nathalie Bernardo da Câmara

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