sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ERA UMA VEZ UM BARCO...

Não gostaria de ser eu a contar essa história, mas...

Quando éramos crianças, Tereza e eu – o nosso irmão ainda era pequeno, sob os cuidados da nossa mãe –, desfrutávamos, sozinhas, do mar de Baía Formosa, litoral Sul do Rio Grande do Norte, fronteira com a Paraíba. Mamãe era amiga de Vera – as duas trabalharam juntas, na EDUCAÇÃO. 

Não demorou muito, papai, advogado, elaborou o Plano Orgânico do município e, com o dinheiro que recebeu pelo trabalho, comprou um terreno, do lado de Vera. Com uma casa edificada, tomei posse: fui ao IBAMA e comprei por 1 cruzeiro, acho, uma muda pau-brasil e plantei na entrada da casa – está lá, até hoje. E batizei: Cazuza. À época, me perguntaram o motivo de tal nome – nem me dei ao trabalho de responder.

Então... Custa-me tanto escrever isso, agora, que serei breve: Vera sempre gostou muito de mim. Certa feita, me chamou num canto e disse: Tenho um presente para você...
Na maior das inocências, fui, igual criança pequena, que era e ainda o sou, atrás do meu presente. Era um barco, que ela fez em minha homenagem. E com o meu nome. Suposto, pois, estava escrito assim: NATALY.

Olhei de um lado, de outro, naquela baía maravilhosa que a natureza nos concedeu e, humildemente, perguntei: ― Quem é essa?
E ela: ― Você, o mar, para você...
Eu era uma criança e na minha cabeça nada genial, só disse isso: ― Essa não sou eu. Primeiro porque o meu nome – a minha mãe tinha me ensinado – escreve-se com 'TH'. E 'IE', no final.
Qual a resposta de Vera, para essa criança atrevida?
― Quer o barco ou não?
Nunca aceitei o barco.
Já adulta, tivemos as nossas perrengas – maldição de prefeitura de interior. Eu brigava com ela, ela comigo. Pois ela apoiava fulano e eu ninguém. E se brigou com mamãe, brigou comigo. Detalhe: não tenho a complacência da minha mãe; sou terrível.
Por isso que, quando soube, hoje pela manhã, que Vera não tinha resistido a mais uma hemodiálise – ela era diabética –, jurei que ainda comprarei e navegarei em todos os seus barcos.
Vamos navegar, Vera, vamos navegar.
Eu, você, Fernando Pessoa, Saramago... Quem mais?


Nathalie.

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