quinta-feira, 12 de setembro de 2013

AINDA DIZEM QUE EU É QUEM SOU A ARTISTA DA FAMÍLIA...

“A vida é mais simples do que a gente pensa. Basta aceitar o impossível, dispensar o indispensável e suportar o intolerável...”.

Kathleen Norris (1880 - 1966)
Novelista norte-americana

Como dizem os goianos, eu pensava que já tinha visto de um tudo nesta vida, embora ache que não entendo de mais nada e estou aprendendo. Ou reaprendendo. Afinal, hoje, por acaso, caindo de pára-quedas, chega uma prima, fazendo visita, e, como se estivesse falando a coisa mais normal do mundo, diz que comprou um caixão... Para ela. E tudo já pago! Ocorre que a minha prima tem apenas 44 anos de idade e é super saudável. Achando pouco o absurdo da informação que me passou, disse, ainda, com uma espontaneidade única, que, tão logo pudesse, começaria a pagar uma prestação peculiar: a da sua própria cremação – tipo se paga um plano de saúde... Eu queria entender! Sim, porque, ao ouvir o tal disparate, fiquei pasma, impactada, mas, fui até humilde em perguntar qual seria, então, o destino do caixão, visto que o mesmo já foi pago e a cremação independe dele – o corpo do pacifista indiano Gandhi (1869 - 1948), por exemplo,  foi posto em uma fogueira, sem caixão, queimado com incensos maravilhosos e perfumados, sendo as suas cinzas, depois, jogadas ao mar. Enfim! Perguntei a minha prima, embora com medo da resposta: — Então, vai vender o caixão, já que ele perdeu a serventia?

Ela, dando gargalhadas, respondeu: — Vou guardá-lo.

Ora! Isso é ser artista...


Nathalie Bernardo da Câmara


Originalmente postado no dia 04 de junho de 2011

ADENDO (12 de setembro de 2013): Esta semana, a minha prima comunicou-me que está providenciando o seu plano de cremação, visto que o crematório do novo cemitério de Natal já foi inaugurado – parece até que já “botaram fogo” em três corpos: o primeiro, pelo que eu entendi, teria sido uma experiência, tipo cobaia, mas os outros dois foram para valer! Daqui a pouco vai ter fila... Enfim! Ela informou, ainda, que os custos nem são tão onerosos assim. Por exemplo, o plano pelo qual ela optou custa R$ 3.600,00 – uma entrada de R$ 360,00 e mais 19 parcelas, iguais e fixas, de R$ 170,00. Não obstante, a minha prima só espera que a sua morte não seja violenta, pois, nesses casos, a Justiça burocratiza o protocolo – até nisso ela pensou... E eu ouvindo as suas intenções e peripécias verbais, alegando que, no que me diz respeito, nem no meu maior pesadelo eu também não me vejo sete palmos abaixo da terra, com aqueles bichinhos comendo o meu corpo. Nunca! Depois de décadas cuidando da minha pele com tanto esmero – uso o mesmo perfume desde a adolescência e hidratantes maravilhosos –, também exijo, decididamente, ser cremada (coisa na qual penso desde criança e ninguém nunca entendeu). Detalhe: com incensos de cedro – não toras. Sim, para queimar devagar. Aí, a minha prima debochou, dizendo, tipo: "Ainda escolhe a fragrância?". Claro! E que as minhas cinzas sejam jogadas nas águas poluídas de Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, Brasil. Desse modo, darei duas grandes contribuições à natureza: ajudarei a despoluir a baía e ainda servirei de alimento aos frutos do mar. Porém, o mais curioso que acho é a naturalidade da minha prima ao falar desse assunto – um tabu, eu admito, para mim. Para ela, contudo, muito prática, uma realidade, inexorável. E que, por isso, deve ser encarada como tal. Ocorre que, para quem, depois da sua morte, não quer dá trabalho a ninguém, um pedido ainda mais inusitado me foi feito: caso ela “vá”, antes de mim, que eu faça um tumulto daqueles – só faltou dizer barraco – para que façam jus ao que, ainda em vida, ela pagou. É, né, está pagando antecipado. E que as suas cinzas sejam levadas até a estrada de Nice a Mônaco – não quer nada! –, já que deseja ficar flanando no Mediterrâneo, na expectativa de que, noutra vida – ela é espírita e, portanto, acredita em reencarnação –, tenha a sorte de nascer na Europa. Não deu outra! Eu disse que, já que ela está investindo tanto na sua morte, que, então, deixe reservado o dinheiro para o passaporte, se for o caso, e o da passagem de quem for ficar encarregado (a) de levar as suas cinzas para o lugar desejado... Pense um papo doido! Sei não, mas, de repente, um testamento até que cairia bem. O fato é que, horas depois, ainda não aguentando o absurdo da conversa – nada convencional, convenhamos –, comentei a respeito com um amigo, que mora lá pelas bandas de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Igualmente muito espirituoso, ele, que é poeta, disse que já escreveu até um epitáfio para si próprio. Eu? Não pude nem duvidar, visto que me enviou o mesmo. Ocorre que, também muito espirituosa, aproveito para transcrevê-lo (reparem no detalhe de como ele começa o poema – “Se eu morrer” [como se isso fosse opcional...]):

Se eu morrer
Que o resto seja aproveitado
Quanto à alma, de nada sei
Mas, do corpo
O que estiver em bom estado
Ou quase, fica doado
Córneas boas
Sempre lubrificadas pela emoção
De tantas coisas belas
E muitas feias, que viram
Coração que aguentou
Tanto susto e paixão
Aguenta outro tanto
Fígado que fez por merecer
A Ode de Neruda
Rim que parece feito na Suíça
Pulmão
Bem, este serve, pelo menos
Para ilustrar os malefícios do tabagismo
Tudo o mais, dou-o
Para o progresso da Ciência
As vísceras que sobrarem
Deitem-nas à terra
Num pomar ou baldio
E vejam que belos frutos

Mané do Café

8 comentários:

  1. Ahhhhh... claro q o caixão vai ter utilidad!!! Antes da cremação terá q acontecer o velório, pois vou querer q as pessoas queridas passem por lá para me dar um tchau ou um até breve :)
    Vc me fez dar muitas gargalhadas, pois não pensei q um simples comentário/atitude minha fosse gerar o q escreveu acima :) ... a única coisa q temos certa na vida é a nossa partida, e devemos cuidar de td antes para não deixar problema para ninguém resolver. Ainda não estou pagando a cremação pq não tem essa possibilidade, mas vou começar a pagar assim q houver :) ... não quero deixar problema para ninguém resolver ou dinheiro para gastar comigo :)

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  2. Nem vou comentar a respeito... Caso o faça, dá outra postagem. Pense! rs

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  3. A minha prima até q tentou, mas, não conseguiu postar o comentário abaixo no blog e o enviou para o meu privado do Facebook. Desse modo, transcrevo o mesmo, fazendo um favor (rs)...: “Novamente dei muitas gargalhadas e acho td natural, pois é o único destino certo q temos - so espero q demore um pouco mais . Qt ao Testamento ele ja esta prontinho, inclusive o testamento vital - penso em td e os dos ja estão prontos . Qt as passagens tb ja encaminhadas, pois há um seguro de vida q tem esta finalidade... Ora se pensa em td qd um filho vai nascer, mas eu nao tive filho, então tenho q pensar em td da minha partida para nao dar transtorno a ninguém e ser td como eu quero, ja q nao posso escolher o tipo da morte, vou escolhendo o q eu posso. No meu testamento vital tem detalhe q vc so saberá se eu for antes de vc, pois nao posso adiantar de forma publica, ja q é um detalhe q ode causar um incomodo a quem vai cuidar de td, mas sei q quem esta responsável vai tirar de letra e talvez nem ache ruim cumprir a missão...”.

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    1. Ana Paula, prima, quanta viagem – literalmente! Falando sério, nem sei pq dou créditos a essas suas elucubrações funerais. Nem do tema sou simpatizante. Agora, se vc tiver deixado registrado no seu testamento q serei eu a levar as suas cinzas para onde quer q queira – isso se vc “for” antes de mim, confesso q não será muito confortável, mas... Irei satisfazer o seu pedido, mesmo contrariada, pois, afinal, nunca q mais irei conviver com aquela garotinha q, um dia, em casa de vovó Nanoca, atendeu um telefonema, na madrugada da grande festa da padroeira de Natal e, após desligar, disse, caindo num pranto sem fim: — Maroca morreu... (Maroca era o papagaio dela). A nossa tia Lu, já falecida, não se aguentou e caiu na gargalhada, coisa q deixou Ana Paula extremamente contrariada, a ponto de não mais falar com ela por um bom tempo. E haja um tour de force para q as duas voltassem a se entender! Quantas lembranças...

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  4. Nathali, não se preocupe pq vc não está como responsável no meu testamento vital por levar as minhas cinzas... pode ficar tranquila q vc não passará pelo desconforto, bem como não vai ganhar a viagem para a Europa :) Só peço a vc q se houver alguém contra a minha cremação e, vc ainda estiver por aqui, mostre tds os registros q era a minha vontade ser cremada :)

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  5. Ok! Só lhe peço um favor: deixe uma cópia dos registros comigo. Se eu não os tiver, como poderei lutar pelos seus direitos, adquiridos ainda em vida?

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    1. Pense uma prima doida! rs - doida no bom sentido. Se é q há lógica quando se fala de morte. Fico toda arrepiada! Mas, dou corda à ela, para pelo menos tentar entender a loucura humana. Afinal, mesmo eu tendo estudado numa das maiores universidades do mundo, a Sorbonne, chego a conclusão q não sei de nada...

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  6. Eu só queria a viagem... Europa, né? Muda o testamento! Levo as suas cinzas para o Mediterrâneo. Aproveito e vou comer comer azeitona na Grécia,. rs

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