quarta-feira, 28 de agosto de 2013

UM CAFÉ COM LÍDIA...


Outro dia, um amigo me pediu um texto. Hesitei, pois iria revolver as minhas lembranças. Hesitei tanto que terminei aceitando, como terapia. Afinal, se tal período histórico na sua vida foi tão bom para você, qual o motivo de fugir dele? Então... Tinha eu 18 anos de idade: filiei-me ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o famoso Partidão – papai quase enfartou! Mamãe segurou as pontas. Só que, diga-se de passagem, ninguém nunca pregou a luta armada (pense um povo pacífico!). E o medo da barata, Ana Paula Cadengue? Naquela época, final da década de oitenta – como o tempo passa rápido –, muita gente ainda estava assustada com o coice que recebeu da ditadura militar (1964 - 1985). E nunca me esqueci de que, estudante de jornalismo, tinha de contornar um carro da polícia – quanta antipatia! –, plantado no Setor V, da UFRN, onde funcionava o curso, para, educadamente – só tinha gente inofensiva –, tomar um café em dona Maria, que levava a vida ali, em pleno corredor. No vai-e-vem, conheci pessoas com ideias iguais as minhas... E a minha paixão foi tão séria que, de livre e espontânea vontade, pedi, quase implorando, para me filiar. Queria fazer parte daquele grupo seleto.

Um jovem, por quem eu era encantada, Paulo Rocha, encarregou-se da minha ficha. Começou, então, a minha redenção. Na sede do partido, o Instituto Luiz Maranhão, que ficava ao lado da antiga Matriz, as minhas tardes eram só de paz e amor. E haja café! Do grupo seleto, outro mais ainda dentro dele: o das mulheres. O carro-chefe? Juraneide, já falecida, morta brutalmente por um acidente vascular cerebral, aos 33 anos de idade – hoje, tenho 45 e ainda me sinto tão jovem. A vida foi ingrata, ao levá-la de nós – dela mesma... Depois, vinha Lídia, Fátima Arruda, Ivonete, Zarife, Gliciane... Lídia morava na sede do partido, nos fundos, e trabalhava de noite, no Diário de Natal. Era paginadora. Página vai, página vem, eram longas as nossas tardes, tomando café – a ração diária de Balzac (1595 - 1654). Vez por outra, chegava Pretextato – olhem o nome! –, um portuário, que também já morreu, pedindo um exemplar da Voz da Unidade, o órgão oficial do partido. E o meu queridíssimo Vulpiano Cavalcanti, médico – uma lenda (sobreviveu a Getúlio Vargas e aos militares, mas, não sobreviveu a uma queda). Este texto vai virar um epitáfio... Maldade, Roberto Monte, me pedir isso (risos) – pense um exercício lúdico!

Então... Não preciso dizer sobre o que conversávamos na cozinha de Lídia. O fato é que ela era apaixonante. Juraneide, louca por ela – quem não era! Certo dia, contudo, Lídia adoece. Virou um martírio para todos nós. Não saíamos do hospital do câncer, que se tornou um anexo do partido – pena que ninguém tinha recursos para bancar um Sírio-libanês. Foi, talvez, uma das fases mais traumáticas da minha jovem vida. No hospital, todo santo dia, eu via aquelas pessoas deteriorando-se. O cheiro da morte pairava por toda parte. Ninguém podia fazer nada: envelheci muito rápido. O termo era inexorável. O tempo... Quis fazer uma reportagem a respeito. Levei gravador e tudo, mas, frágil, que sempre fui, nas emoções, embora, de uns tempos para cá, menos, tive a capacidade de deixá-lo cair no chão, quebrando-o. Queria registrar aqueles momentos, mas, não tive forças o suficiente. Na hora, Juraneide estava comigo – íamos entrando num carro, saindo do hospital. E ela, muito prática, enquanto a minha poesia me arrebentava por dentro, disse: — Apanhe e leve! Já não serve mais, né, Nathalie?

Como se fosse problema, hesitei em realizar o simples gesto, que me comia por dentro. Só que, ora com olho nas meninas do partido, tipo pedindo arrego, ora num esgoto que passava abaixo da calçada, preocupada em salvar o gravador, eu o realizei e fomos embora. Ocorre que, não demora muito, a camarada Lídia morre, segurando as nossas mãos. Numa espécie de capela, que tinha lá, vi o seu corpo envolto num lençol branco – sonho até hoje com isso, pois a imagem foi muito forte: a nossa querida negra purificada por um alvo lençol... Quanta ironia, a da vida, que não sabe o que é amor! 

Queria falar mais, mas, parece que rola uma espécie de bloqueio psicológico  afinal, eu era tão feliz e, de repente...

Nathalie Bernardo da Câmara

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