quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O MULTIFACETADO MANÉ DO CAFÉ*

 Mané do Café by Robin Maury (café com nanquim).


Por
Nathalie Bernardo da Câmara


VINDO AO MUNDO no dia 23 de julho de 1952, o rebento Jorge Carlos Amaral de Oliveira, vulgo Mané do Café, nasceu, segundo ele, “na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro...”. Por gentílico ou não, apesar de natureza cosmopolita e espírito cigano, impregnado, ainda, da típica irreverência carioca, o artista não somente é piadista de carteirinha, mas, também, fiel devoto e autor de uma infinidade de charadas, sempre fazendo por onde para estar de bem com a vida – vida essa, aliás, dotada de entusiasmo e audácia felina, raro magnetismo, já que, nativo do signo de Leão, o entrevistado é regido pelo sol, astro que, considerado símbolo da intuição e da criação, guia os seus passos e ilumina as suas múltiplas fases e faces... Desde o primeiro contato, portanto, que tive com Mané do Café, de cara arrebatou-me os seus sentimentos nutricionais de poesia e de afeto, sendo, sobretudo, contagiada por seu bom humor e generosidade, bem como fui surpreendida por sua vasta produção artística ao longo de quarenta e poucos anos de carreira – uma carreira, inclusive, alimentada pela flama das suas causas e por seus instintos gregários, cujo início, ele me revelou, aconteceu mais ou menos assim: — Com dezesseis anos de idade, fui embora de casa e da escola, no Rio. Com uma mala de cartão, corri trecho até a idade militar. Servi a tropa em Ponta Grossa, PR. Fiquei dois anos perambulando pelo Rio até que, com mochila nas costas, saí a pé e, em 1972, de carona em carona e algumas paradas, fui bater em Brasília...

No Distrito Federal, o ainda Jorge Carlos retorna à sala de aula: concluindo – via Supletivo – os atuais ensinos médio e fundamental, ele arrisca na sorte e faz vestibular para geografia. Passa, matriculando-se na Universidade de Brasília (UnB). O ano? 1977. Porém, durante uma greve, o jovem estudante empreende uma inusitada viagem ao Acre, onde, por suposta casualidade, debuta no teatro. Ocorre que, tão logo finda a greve, ele retoma os estudos na UnB, não demorando muito para atuar em algumas peças – experiências que, inevitavelmente, deflagram um dilema, ou seja: como conciliar a graduação com a sua nova paixão? Nesse ínterim, tranca a matrícula e dá um pulo no Acre para montar uma peça com uns amigos. De volta a Brasília, renova a matrícula, apesar de, em meados do ano seguinte, para driblar o assédio da ditadura militar (1964 - 1988), Jorge Carlos é praticamente obrigado a largar o curso e o Distrito Federal, optando por buscar “guarida” em solo amazônico, onde, além de manter amizades, ingressa, por contingências, na graduação de geografia da Universidade Federal do Acre (UFAC). O teatro, por sua vez – ironia ou não do destino –, cruza novamente o seu caminho, levando-o, definitivamente, a sair de cena do cenário acadêmico para, sem hesitação, mapear, ele mesmo, a sua própria geografia, encerrando-se, assim, um dilema. Tanto é que, não demora muito, ao se profissionalizar nas artes cênicas, ressaltando que, à época, demais expressões artísticas também já atraiam o seu interesse, Jorge Carlos adota o pseudônimo de João Maiara, tipo um batismo!

O fato é que, em 1990, o viajante despede-se das terras tupiniquins e fixa residência em Portugal, país que, por vinte anos, acolhe a sua prática artística e o seu ativismo cultural, sendo que, em 1995, por sugestão do pintor Zé Cordeiro, artista visual e gravador paulistano, Jorge Carlos troca de pseudônimo, passando a ser conhecido como Mané do Café. Então... Desde o seu retorno ao Brasil, em 2010, o artista vem dando continuidade as seus múltiplas facetas, num fôlego impressionante! Sim, porque, versátil por excelência, o outrora aspirante a geógrafo já ousou e fez quase de tudo na vida: inicialmente, fazendo cair o pano no palco, embora, dinâmico, tenha igualmente pautado, ponto a ponto, palavras, sons e notas musicais. Cores e imagens, interagindo com as artes plásticas, a fotografia, as artes gráficas, o artesanato e com o que ele chama de invenções práticas, acumulando, assim, por tamanha diversidade, pela qualidade da sua profícua produção e inúmeras exposições dos seus trabalhos, um considerável leque de prêmios, nacionais e internacionais. Isso sem falar que, nas suas andanças mundo afora, incursionou no jornalismo e no magistério, além de ser um ávido e estimulado animador cultural. Enfim! Degustemos, agora, nem que seja um gole do café de Mané, cujo aroma e sabor, diga-se de passagem, são por demais peculiares... Lacônico? Nem sempre, mas, nem por isso, prolixo. Imprevisível, eu diria! E lúdico. Tanto que, certa feita, me perguntou: — Quem sabe, um dia, a gente não socializa o céu?

Eita, bué da Fixe!


NATHALIE BERNARDO DA CÂMARA – O seu nome artístico é deveras particular... Qual a influência que o café teve e continua tendo na sua vida?
MANÉ DO CAFÉ – Morei nas montanhas com os meus avós paternos dos três meses de idade até os sete anos, em meio a uma plantação de café. Já adulto, nas cercanias do Gama, no Distrito Federal, trabalhei na plantação de café da mãe de uma amiga. Adotei o café como tinta para os meus desenhos. E gosto da bebida.

NBC – Jorge Carlos foi uma criança irrequieta, já intuindo o porvir?
MC – Levada da breca!

NBC – E a decisão, tomada na adolescência, de abandonar a Cidade Maravilhosa, deixando para trás família, amigos e escola para se aventurar num mundo até então desconhecido?
MC – Para ser uma boca a menos em casa do pai e da madrasta.

NBC – Trocando em miúdos, a sua chegada e permanência em Brasília, no Distrito Federal...
MC – Estava indo para um batalhão de fronteira em Cruzeiro do Sul, no Acre, mas, quando apareceu um voo da FAB para lá, eu já tinha arranjado trabalho e fui ficando.

NBC – No Acre, viveu por doze anos... Qual a importância dessa experiência amazônica para a sua vida?
MC – Posso dizer que lá nasci para a vida. Até então não sabia de nada, não fazia nada.

NBC – E a lira dos vinte anos, em Lisboa?
MC – Fui para a Europa fugindo de um casamento e, por lá, fiquei, com vergonha por ter entrado o Collor... Muito trabalho, também, para criar a filha Ariane, que nasceu numa capicua – é de sorte – no Inverno de 1991.
                           
NBC – Os anos passaram-se e, em 2000, à época, ainda, do seu “exílio” na capital portuguesa, o Tejo bar, no bairro de Alfama, entrou na sua vida...
MC – Foi um trespasse, inclusive o nome, com o seu “espírito anarquista” começando no meu tempo, mas, atualmente, o local é administrado pela minha filha e a mãe.

NBC – Frequentado por diversas personagens, o espaço tem, ainda, uma proposta itinerante: já esteve nas cidades de São Paulo, em Bolonha, na Itália, e, no último final de semana, em Olinda, foi um dos destaques da Alt Fest, evento paralelo na Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto)...
MC – O Tejo bar estimula o exercício da liberdade, incentiva músicos, pintores, poetas, artistas de uma maneira em geral... Já se espalha fisicamente pelo mundo afora. Afinal, nasceu de uma ideia e ideia anda muito.

NBC – Como você definiria o seu retorno ao Brasil, em 2010?
MC – Uma das maiores aventuras: larguei tudo e vim atrás de outro casamento, com a Eliana [Castela]. Porém, ir morar em Petrópolis é que foi um voltar às raízes.

NBC – E quais as impressões do carioca de batismo em relação ao seu país de origem após tanto tempo distante?
MC – Carioca, nunca me senti... Quanto ao Brasil, falta podermos exercer o direito de cidadania amplamente, pois o medo ainda fala mais alto.

NBC – Uma curiosidade: existiria alguma condição sine qua non para desencadear o seu processo de criação?
MC – A necessidade que faz o sapo pular...

NBC – Sendo a sua produção vasta e diversificada, como costuma divulgá-la?
MC – Não deixo nada na gaveta. Faço exposições, participo de concursos, ponho à venda...

NBC – Em Natal, dia 20, na Quarta Cultural do Mercado Municipal de Petrópolis, um dos livros lançado foi o Cafeopeia (2013), em parceria com Edison Nequete, jornalista, teatrólogo e ator gaúcho, falecido em 2010. Uma epopeia do café?
MC – Sim, como o nome diz. E as cantigas, originais, são de minha autoria; os textos, em versos decassílabos, junto o Nequete; as ilustrações, com os portugueses Luis Morgadinho e Carmo Maciel, que também usam o café como tinta. É um livro para adultos, mas que crianças também podem ter acesso.

NBC – O outro livro é Padre Emílio... ou A Romanesca Vida do Padre Emílio em Crônicas de Noninhas da Silva Com a Prestimosa Colaboração da Senhora Ednéia Gomes (2013), em parceria com Eliana de Castela, geógrafa de formação, atriz e produtora cultural acreana, presente ao evento. Qual é a da crônica?
MC – Pura diversão.

NBC – À ocasião, houve, igualmente, o lançamento da Folhinha Poética de 2014, organizada juntamente com Eliana Castela, com poemas, ilustrações. Desde quando o calendário existe e como ele surgiu?
MC – Desde 2012. Disseram que o mundo ia-se acabar – portanto que se acabasse em poesia. Daí, em 2011, começamos a coletar poemas de quem nunca havia pego uma pena, daqueles que nunca mostravam. Meio a tudo isso, alguns famosos também participaram da brincadeira.

NBC – Além da Folhinha Poética de 2014, planos para o próximo ano?
MC – A Folhinha Poética de 2015, para a qual já começamos a receber obras, e a ida do Tejo bar para Maputo, em Moçambique, a fim de aliviar as tensões da guerra, que teima em continuar.

NBC – Meio a tantos ofícios, qual o que mais lhe toca?
MC – Os desenhos a café foram que me tornaram mais conhecido e que por muito tempo deu-me o sustento. Incentivar outras pessoas a produzir arte é o meu mais importante avatar. Porém, prazer pessoal, dá-me a escrita.

NBC – Meses atrás, você confessou ser do “tempo de fumo de rolo”...
MC – Não só do tempo, mas da filosofia. Estou mais para o campo do que para a urbe.

NBC – Mané do Café pela borra do café no fundo da chávena...
MC – Romântico incorrigível que ainda acredita no comunismo.

NBC – Bom! Para encerrar este papo, colhido num vai e vem de e-mails e em meio a nem sei mais quantos cafés, o que acha de lançar uma charada para os leitores? O primeiro, contudo, a decifrá-la e entrar em contato com este blog receberá um exemplar do Padre Emílio...

MC – Que tal aquela, então, que você não conseguiu decifrar? Ou seja: ESCRITOR italiano OFERECE um coito a quem comprar seu livro. (Uma e Uma).


Tête-à-tête com Mané do Café

Foto: Raul Pinto

Alimento sólido: Arroz ou o que estiver pronto.
Alimento líquido: Leite, com um pouco de café.
País: Acre, que houve; Basco, que haverá, e Haiti.
Cidade: Lisboa.
Estação do ano: Outono.
Ecossistema: Floresta tropical.
Paisagem natural: Planície alentejana.
Paisagem urbana: Bairros castiços das cidades antigas.
Praia, rio e/ou congêneres: Rio dos Cavaleiros, em Magé, no Rio de Janeiro.
Expressão artística: Cinema.
Livro e autor: O Encontro Marcado, de Fernando Sabino.
Palavra: Ênviro ou envirão para substituir a redundância “meio ambiente” e taprobanada, para o lugar do anglicismo serendipidade.
Filme, roteirista e diretor: A Grande Ilusão, Jean Renoir/Charles Spaak, Jean Renoir.
Peça e dramaturgo: Rasga Coração, de Oduvaldo Viana Filho.
Pintura e pintor: Café, de Cândido Portinari.
Cor: Azul, na infância; vermelha, sempre e, agora, castanho.
Música e intérprete: Todas e Bach, que fez de tudo que há.
Instrumento: Violão e clavicórdio.
Nota Musical: Lá.
Temas do seu interesse: Luta de classes... Tanta coisa! Eu gosto até de telenovela como gostava das radiofonizadas.
Ócio criativo: Viver.
Sonho de consumo: Acabar com a sociedade de consumo.
Ativismo cultural brasileiro: O cinema que está sendo feito no Nordeste.
Cenário político brasileiro (atualidade): O povo nas ruas.
Lembrança boa: Infância na roça.
Saudade: Do silêncio.
Conceito de beleza: Nenhum, porque a vejo em tudo.
Conceito de felicidade: Uma obrigação do adulto.

Filosofia de vida: Estar obrigado à felicidade.

*Devido a sua extensão, apenas parte desta entrevista foi publicada dia 20 de novembro no Novo Jornal, periódico editado em Natal, Rio Grande do Norte, embora aqui, no blog, ela esteja sendo postada na íntegra.

2 comentários:

  1. Eu costumo dizer que não leio quem já morreu (o fiz demais quando discente) e isso soa à maioria como tolice... Deve mesmo ser tolice e risco, pois assim há o perigo de escrever algo que já tenham escrito antes de mim e etc. Embora eu não creia que se possa fazer o novo... E aí acabei "conhecendo" virtualmente o Mané do Café (e estava aqui tentando lembrar de onde e quando)... Se o que ele faz não for novo, ótimo, pois passo a ser menos ignorante! Agradeço a oportunidade de conhecer um pouco mais acerca dessa figura diferenciada! Hora dessas, penso eu, acabarei por conhecê-lo pessoalmente...

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