terça-feira, 11 de outubro de 2016

CASA DA MÃE JOANA

 “Política é a segunda profissão mais antiga do mundo.
Aliás, muito semelhante à primeira...”
.
Ronald Reagan (1991 - 2004),
ator e ex-presidente dos Estados Unidos.



Séc. XIV. Palco das venturas e desventuras de uma mulher que, de uma hora para outra, apesar dos títulos de nobreza, passou à condição de fugitiva. A história é deveras interessante, sobretudo por ser tratar nada mais nada menos de Jeanne I D’Anjou (1326 - 1382), rainha de Nápoles, princesa de Achaea, condessa de Provence e Forcalquier, rainha consorte de Maiorca, princesa consorte de Taranto e duquesa consorte de Brunswick-Grubenhagen. Nascida em Nápoles, Joana – em português – era filha de Charles, duque de Calabria e o primogênito do rei napolitano Robert (1278 - 1343) de Nápoles, chamado de O Sábio, e de Marie de Valois, irmã do rei francês Philippe VI de Valois (1293 - 1350).

Coroada rainha, em 1344, após a morte do avô, Joana era tida como uma protetora de poetas, artistas e intelectuais. A sua vida, contudo, foi recheada de escândalos e polêmicas as mais diversas, sendo, inclusive, acusada de conspirar contra a vida do primeiro marido, o príncipe húngaro Andrew, barbaramente assassinado. Exilada em Avignon, na França, Joana instalou-se em um castelo que já havia sido residência de vários papas. Levada a julgamento pelo suposto envolvimento na morte do marido, foi inocentada, ficando livre para mandar e desmandar em Avignon. O seu segundo marido, pois colecionou alguns, foi Louis de Taranto, o único à quem ela concedeu o status de co-rei.

Na seqüência, viria, ainda, James IV de Maiorca e Otto, duque de Calabria. No dia 8 de agosto de 1347, indignada com a prostituição feminina nas ruas de Avignon, Joana publicou um edital que, segundo o escritor francês Alexandre Dumas, Pai (1802-1870), em seu romance Comemorou crimes, escrito em 1839/40, foi, provavelmente, o primeiro no gênero. No edital, além de determinar a criação de um prostíbulo, decretou normas de funcionamento e de conduta, a fim de que a ordem fosse mantida, a aplicação de severas sanções para toda e qualquer violação das normas de disciplina. A Nova Babilônia, no dizer de Dumas, era, por assim dizer, uma "instituição salutar".

No prostíbulo, portanto, reinavam soberanas línguas e costumes, esplendor e trapos, riqueza e miséria, rebaixamento e grandeza. Entre as normas, contudo, constava a restrição de que o estabelecimento abriria todos os dias do ano, "com exceção dos últimos três dias da Semana Santa", além – o mais curioso – de "a entrada ser barrada aos judeus", o que, de certa forma, contrariava a principal norma:


"O lugar terá uma porta
por onde todos possam entrar...".

Toulouse-Lautrec (1864 - 1901), pintor francês

Au Salon de La rue des Moulins, 1894
Paris, França – Museu Toulouse-Lautrec


Joana foi mal interpretada, coitada, já que a sua intenção era a de ser a mais democrática possível, a fim de ser querida e popular por todos de Avignon, que ela, então, dominava. Porém, em 1380, foi declarada herege pelo papa Urbano VI (1318-1389) por diversos motivos, políticos e desregramento de comportamento, devendo ser executada – por ironia, um ancestral de Joana, o rei francês Louis IX (1214/15 - 1270), foi canonizado em 1297. O fato é que, após renunciar, ela foi presa na fortaleza de San Fele. Porém, à espera da execução, encerrada em uma cela, ainda segundo Dumas, a solidão aterrou o seu passado de glórias, cuja morte iminente não seria nada gloriosa. Tudo tinha desaparecido. Ajoelhou-se e rezou.

Para as suas respostas, um cordão de seda e ouro. Para o pescoço... Joana chorou e caiu sobre ele. Foi estrangulada. O dia? 12 de maio de 1382. O mandante da sua execução? O seu sobrinho Charles de Durazzo, que lhe herdou o trono, mas não a popularidade. Ao abrir o seu famoso prostíbulo, contudo, a ousadia de Joana foi tamanha que a norma "o lugar terá uma porta onde todos possam entrar" – virou máxima – viajou o mundo de várias formas, embora com o mesmo sentido, e, chegando ao Brasil, trazida pelos colonizadores portugueses, tornou-se conhecida na expressão: Casa da mãe Joana, que, segundo o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986), significa onde cada um faz o que quer.

Pior! Um lugar onde impera a desordem, bem como a desorganização e o desmando, além da variante chula: Cu da mãe Joana – ninguém merece! No caso do gesto de Joana, uma alcunha, no mínimo, injusta. Alguém tem alguma dúvida?

Nathalie Bernardo da Câmara




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