quarta-feira, 1 de setembro de 2010

CASTELOS DE AREIA...


“O homem não morre quando deixa de viver,
mas quando deixa de amar...”.

Charlie Chaplin (1889 - 1977)
Ator e cineasta britânico


Confesso que não lembro a data precisa, mas deve ter sido no início dos anos noventa, pouco antes de eu ir morar em Paris. Algo assim... De qualquer modo, sei, apenas, que foi em um dia de muita lucidez da minha avó, dona Conceição (1920 - 2010), mãe da minha mãe, Salete Bernardo – uma das mais espetaculares mulheres que eu já conheci –, que ouvi algo que me surpreendeu e que nunca esqueci. Ou seja, na cozinha da sua casa, em uma conversa íntima, quando certa privacidade era possível, devido a sua enorme prole, sobretudo a porção feminina dessa prole, ela, dona Conceição – acho que, de todos os netos, só eu a chamava assim –, disse que nunca quis se casar. Questionei, então, como ela tinha vivido maritalmente mais de sessenta anos com o meu avô, Manuel Bernardo da Silva (1919 - 2000), e posto no mundo quatorze filhos. Ela me respondeu que, simplesmente, aconteceu. Que devia ter sido a vontade do seu Deus. Respirei fundo...

Católica fervorosa, vovó disse, também, que, por vocação, queria ter sido freira. Não me surpreendi, considerando a devoção que ela tinha por sua Nossa Senhora e pelo seu Nosso Senhor Jesus Cristo, sempre as voltas com a sua Bíblia e os seus rosários. O curioso é que, ainda nessa mesma conversa, vovó acrescentou – o mais poético –, que, em diversos momentos da sua vida, chegou a construir muitos castelos. Castelos de areia, ela disse, que, para sua tristeza, findaram por ruir... Outra vez, respirei fundo. Afinal, além de mim, tínhamos outra poetisa na família e não sabíamos. Sim, vovó escrevia algumas mensagens religiosas em seus cadernos, que chegou a me mostrar, e gostava de ler poemas... Ela apreciava, e muito, as escritoras brasileiras Auta de Souza (1876 - 1901) e Myriam Coeli (1926 - 1982), primeira jornalista profissional do Rio Grande do Norte e madrinha, inclusive, de uma das minhas tias. As duas eram comadres.

O fato é que a minha vó, nascida em Belém, no Estado do Pará, chegou, depois de uma breve passagem por Santos, em São Paulo, a São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte, onde conheceu seu Manuel, um nativo, que viria a ser o meu avô querido – companheiro de todos nós. Anos depois, com a família, transferiram-se para Natal. Em seu último endereço, no bairro de Lagoa Nova, onde viveu décadas, vovó teve participação decisiva na comunidade local, de um tudo fazendo para erguer a Igreja de São Camilo de Lélis – de quem ela também era devota. À época, o meu avô, que, carinhosamente, dona Conceição chamava de Neco, colaborou com o assentamento de cada tijolo da edificação. Para tal feito, vovó passou a pedir contribuições a todos, indistintamente. Fossem ajudas financeiras ou através de algum material de construção. Tornou-se uma missão para ela, ou seja, uma causa. Mas, enfim! Vovó conseguiu erguer a sua igreja.

O curioso é que mesmo depois de ter conseguido construir o seu templo religioso, ao qual se dedicava todo santo dia, como costumava dizer, ela continuou a solicitar contribuições, ou doações, para mantê-lo. Quando, contudo, aos oitenta e poucos anos, vovó começou a manifestar os primeiros dos sintomas do Mal de Alzheimer, deixou de freqüentar a igreja, que era o leitmotiv da sua vida, limitando-se – não por opção – a ficar apenas em casa, recebendo cuidados especiais, sobretudo em seu quarto, diariamente higienizado, e cercada pelo carinho dos seus entes queridos – sempre ao seu lado. A sua memória – o maior bem de um ser humano – ia e vinha, a sua revelia, com o desfecho inexorável já a se revelar... O admirável é que a família não mediu esforços para manter a sua dignidade, um exemplo de dedicação a um parente idoso – atitude tão rara nos dias de hoje, quando a terceira idade costuma ser relegada a sua própria sorte, a destinos imprevisíveis.

Ocorre que, quando a sua situação agravou-se, devido a uma pneumonia, vovó, cada vez mais fragilizada, foi hospitalizada. A memória, paulatinamente, diluindo-se – nem sei se registrou o sofrimento dos que acompanhavam o seu martírio... Infelizmente, não mais saiu com vida do hospital. No último dia 28 de agosto, a pneumonia, implacável, pôs termo a sua existência, deixando órfãos um sem fim de admiradores da sua persistente crença em ajudar os mais necessitados. Enfim! Em seu velório, vi vovó en passant, já que sou muito sensível as perdas de uma maneira em geral, sobretudo a de pessoas queridas. No entanto, foi o suficiente para percebê-la envolta em um véu, protegendo, quiçá, a sua pureza, que, por ela, nunca teria sido maculada. Logo vovó, que sempre quis ser uma imaculada. Bom! Até, dona Conceição: exemplo de fé e generosidade cristã... Falando nisso, já está nos braços de Neco ou, quem sabe, nos do seu Nosso Senhor Jesus Cristo?


Nathalie Bernardo da Câmara

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