terça-feira, 21 de setembro de 2010

QUAL É O MEU DNA?

“Você deve pedir desculpa por ocupar um lugar no espaço...”.

Nise da Silveira (1905 - 1999)
Psiquiatra brasileira



Digressão à parte, falemos de uma mulher especial, que eu tive a graça de conhecer e que muito me encantou por seu maravilhoso bom-humor, carisma e simpatia, ou seja, Nísia Bezerra de Medeiros, brasileira nascida em Pureza, no Rio Grande do Norte, que, inclusive, por ser extremamente espirituosa, disse ser difícil definir pureza, a “inocência no sentido lato da palavra”. O prenome, Nísia, dado, segundo ela, pelo pai, foi em homenagem à educadora, escritora e feminista brasileira Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810 - 1885), nascida em Papary, também no Rio Grande do Norte, e o meu objeto de pesquisa há mais de dez anos. Coincidência, né? Por isso mesmo que, anos atrás, visitando-a, perguntei: “Tem Floresta, também? E Brasileira Augusta?”. Segundo ela, o pai, que deu o seu prenome, pode até ter sido louco, mas não tanto, embora deixasse um espermatozóide por onde passasse... Impossível não rir, né? 

O Fato é que essa mulher, Nísia Bezerra de Medeiros, é divertidíssima! E, aos seus setenta e oito anos de vida (à época de uma de nossas conversas), embora parecesse ter dezoito, de idade, ela me fez conhecer a sua porção poetisa. E das boas! Um caso raro. Tão raro que teve a honra de conhecer pessoalmente a psiquiatra junguiana Nise da Silveira, renomada discípula do suíço Carl Gustav Jung (1875 - 1961), de quem ouviu a epígrafe deste texto. E qual o motivo, alguém pode perguntar, para eu falar dessa mulher, Nísia Bezerra de Medeiros? Simples. Ela disse que iria completar oitenta anos (já completou) e que não morreria sem me conhecer. É demais, né? Bom, qualquer um, em meu lugar, sentaria diante do computador, e, lisonjeado, com certeza escreveria algumas linhas em sua homenagem. Mesmo porque ela também é filósofa. O curioso, contudo, é que a homenageada, no dia, fui eu. Mas, falemos de Nísia Bezerra de Medeiros...

O escritor brasileiro Sanderson Negreiros, por sua vez, sabe muito bem quem Nísia Bezerra de Medeiros é. Afinal, ele escreveu um texto belíssimo sobre ela, mais precisamente no dia 21 de setembro de 2003, no jornal Tribuna do Norte. No referido artigo, intitulado Para Nísia, ele ressaltou a inteligência, bondade e simpatia – qualidades raras, hoje em dia – da sua ex-professora. Tanto que, um dia, segundo Sanderson, Nísia teria, por exemplo, lhe dito que era difícil viver em Natal, a capital do Rio Grande do Norte, “deflagrada de maldade”. E, segundo ele, ela continuou: Uma Natal difícil de viver “na queimação dos melhores nomes e apaziguamento de elogio em torno de tantos medíocres que não conseguem movimentar o bestunto nem para sentir a certeza de existir...”. Depois, respondendo a sua amiga, Sanderson disse que, apesar disso, de há muito não ouvia críticas, o rumor da inveja nem o orvalho da maledicência.

Só que o bonito do texto do escritor foi ele dizer: “Se nos atingirem, faz parte da viagem”, não produzindo a tristeza “vitória para ninguém...”. E que “o humor é uma forma de simpatia quando não se perde a delicadeza...”. Sejamos, então, Nísia Bezerra de Medeiros, Sanderson Negreiros – diante dos dizeres de ambos – e muitos de nós, vitoriosos. E que façamos de nossos “pequenos e mínimos momentos existenciais, instantes de esplendor silente...”. Quanta sensibilidade, Sanderson! E só citei o seu texto porque foi a própria Nísia quem meu deu uma cópia. Assim, minha amiga octogenária, “não feche os olhos...”, como disse o poeta, cúmplice que é “da aurora ao crepúsculo, que empolgam seu quotidiano”, apesar de só enxergar vultos... Mas, ora! Somos todos, no frigir dos ovos, vultos. Nada mais. E, um dia, segundo as suas próprias palavras –Nísia fez uma previsão –, deixaremos todos de enxergar...

Enfim! O título deste post, embora proposto por mim, é nada mais nada menos do que uma frase proferida certo dia por Nísia Bezerra de Medeiros, que, à época, aproveitou para citar uma frase de Nise da Silveira, ou seja: “Não me atrevo a definir a loucura...” – faço minhas as palavras da psiquiatra. Hoje, contudo, espero, minha amiga, que se recupere de certas adversidades e que, junto com Cléa, sua irmã querida, que você, vaidosa, diz ser a maior filósofa do Rio Grande do Norte, possa continuar a nos receber, a minha mãe, Salete Bernardo, e eu, já que adoramos compartilhar momentos com as duas, sempre tão hospitaleiras. Da última vez, por exemplo, ao visitá-las – outro dia –, levei para Cléa um vinho e para Nísia uma caixa de chocolate, que só não digo o nome para não fazer propaganda gratuita. O fato é que ela, Nísia, se refestelou com os doces, que adora! E ainda me pediu que voltasse com mais. Pode? Quanta gula, por vida...


Nathalie Bernardo da Câmara

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