segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

OS OSSOS DE CRISTAL DA ANTROPÓLOGA RITA AMARAL (1958 - 2011)

“Divertimento é coisa séria e pode até mesmo ser entendido como a segunda finalidade do trabalho, vindo logo após a necessidade de sobrevivência...”.

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“O divertimento (pressuposto da festa) é uma rápida fuga da monotonia cotidiana do trabalho pela sobrevivência, não tendo, a princípio, qualquer ‘utilidade’. No entanto, a humanidade precisa da ‘vida séria’, pois sabe que, sem ela, a vida em sociedade tornaria-se impossível. Disto resulta que a festa deixa de ser ‘inútil’ e passa a ter uma ‘função’, pois ao fim de cada cerimônia, de cada festa, os indivíduos voltariam à ‘vida séria’ com mais coragem e disposição. A festa (como o ritual) reabasteceria a sociedade de ‘energia’, de disposição para continuar. Ou pela resignação, ao perceber que o caos se instauraria sem as regras sociais, ou pela esperança de que, um dia, finalmente, o mundo será livre (como a festa pretende ser, durante o seu tempo de duração) das amarras que as regras sociais impõem aos indivíduos...”.

Rita Amaral
Antropóloga brasileira


Na década passada, durante as pesquisas que, no período, eu desenvolvia sobre a Festa do Divino, inicialmente focadas na realização do evento numa dada cidade do Distrito Federal, mas que, no decorrer da empreitada, ao longo de alguns anos, aos poucos foi adquirindo outras dimensões, tive acesso à produção acadêmica Festa à Brasileira – Sentidos do festejar no país que “não é sério”, de autoria da pesquisadora Rita Amaral, do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Considerada a primeira antropóloga brasileira a publicar, pela internet, integral e exclusivamente, uma tese de doutoramento, a sua, ou seja, Festa à Brasileira..., defendida em 1998, disponibilizando-a para download gratuito em diversos formatos, Rita Amaral dedicava-se, ainda, aos estudos de antropologia urbana desde 1986 – ela pertencia ao Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da USP, cuja revista eletrônica, a PontoUrbe, era por ela editada, bem como a Os Urbanitas. Não demorou muito, ficamos amigas e passamos a trocar algumas ideias sobre festas populares, no caso, mais especificamente, sobre a Festa do Divino, com ela, inclusive, me enviando um belíssimo texto, de sua autoria, comentando a minha pesquisa de anos, o qual, aliás, destinei à contracapa do meu livro, que, por motivos que fogem da minha alçada, se encontra, ainda, inédito. Curiosamente, depois do período em que Rita Amaral e eu mantivemos certa ligação, fosse por telefone ou por e-mail, perdemos, infelizmente, todo tipo de contato.


Rita Amaral: — Quem não ter perna, voa...


Porém, não faz muito tempo, soube, meramente por acaso, que a antropóloga havia falecido no dia 24 de janeiro de 2011 de problemas respiratórios decorrentes de uma rara doença genética, a osteogênese imperfeita, também chamada de Ossos de cristal, por torná-los frágeis – eu desconhecia, diga-se de passagem, que Rita Amaral padecia desse mal, por ela contraído e diagnosticado aos sete anos de idade, após uma fratura do fêmur. Desde então, ao longo da sua existência, ela iria quebrar os ossos várias outras vezes, embora as adversidades não a tenham impedido de levar uma vida dita normal. Afinal, intrépida, desafiou os limites físicos e, para frequentar o curso de Ciências Sociais, frequentava a USP de cadeira de rodas, formando-se em 1986. Na década de noventa, passou a se dedicar a sua doença, investigando-a, além de criar, em 1999, a Associação Brasileira de Osteogenesis Imperfecta (Aboi). Segundo o jornalista brasileiro Estêvão Bertoni, no obituário que escreveu para a Folha de S. Paulo, Rita Amaral, inclusive, na sua busca incessante sobre a patologia que lhe acometia, chegou a descobrir “um médico canadense que criara um tratamento” para a mesma, aproveitando para traduzir textos de sua autoria a respeito para a língua portuguesa, pesquisando, a fundo, as suas próprias entranhas, enquanto a Aboi, por sua vez, passou a reivindicar ao governo brasileiro o fornecimento de remédios aqueles cujos ossos são de cristal “e, graças a sua atuação, existem, hoje, no país, vários centros de referência para o tratamento da doença”. Nesse ínterim, em 1992, Rita Amaral concluiu o mestrado sobre os terreiros de candomblé, e, em 1998, o doutorado sobre festas brasileiras, ambos pela USP – universidade através da qual, ainda, em 2002, obteve pelo Museu de Arqueologia e Etnologia o pós-doutorado em etnologia afro-brasileira. No período que antecedeu a sua morte, a antropóloga interrompeu os seus estudos de religião e cultura nacional, bem como, “com os movimentos limitados, segundo ainda o seu obituário, sentia falta de tocar violão” – uma das suas paixões. No dia de hoje, portanto, 18 de fevereiro de 2013, se viva, a paulistana Rita de Cássia de Mello Peixoto Amaral estaria completando 55 anos de idade...

Maiores informações sobre a osteogênese imperfeita, ou Ossos de cristal, cuja estimativa, no Brasil, é de um para cada dez mil nascimentos, clicar no link da Aboi, criado para fornecer informações detalhadas aos portadores da doença, bem como aos seus familiares, amigos e profissionais da área de saúde: http://aboi.org.br/

NBC

3 comentários:

  1. Uma vez, ao telefone, ela me disse q era pernambucana... Pense! rs

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  2. Coisa muito séria... é pena que uma pessoa como esta, tenha falecido tão ...cedo!

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  3. Então... Foi uma grande perda para a cultura popular. E para ela mesma, q perdeu a vida.

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