sábado, 11 de agosto de 2012

DIA DE FEIRA...

“‘O próprio Deus não poderia subsistir sem os homens sábios’ – disse Lutero com muita razão, mas ‘Deus tampouco poderia permanecer sem os tolos’ – isso o bom Lutero não disse...”.

Friedrich Nietzsche (1844 - 1900)
Filósofo alemão em As Condições para Deus – AFORISMO 129 de A Gaia Ciência (1882).


Esta semana, na terça-feira (7), publiquei neste blog a postagem MARCHA A RÉ DOS VALORES, na qual, entre outros, critiquei o inconveniente assédio religioso das Igrejas evangélicas, bem como, embora só de passagem, o seu enriquecimento a custa dos fiéis de boa vontade. Curiosamente, nesta quinta-feira (9), recebi um e-mail desaforado por causa das minhas críticas, que, segundo o remetente, eram infundadas. Ok! Ocorre que, como eu não conhecia o autor da mensagem, que, por sua vez, ao invés de redigir um comentário no blog, abaixo da referida postagem, optou por consultar a página do meu perfil, anotar o meu e-mail pessoal, redigir a referida mensagem e me enviá-la – detalhe: sem assiná-la –, fiquei por um instante sem saber o que fazer, embora, num momento, achei que deveria responder, enviando a minha resposta no próprio corpo do e-mail recebido, que, aliás, chegou-me numa espécie de codinome. Desse modo, não dispondo de dicas nem para tomar conhecimento de quem se tratava, achei mais oportuno registrar o ocorrido no próprio blog, já que foi através deste espaço que, dois dias antes, eu havia feito as minhas observações acerca de algumas particularidades do universo evangélico. Ressalto, contudo, que não é minha intenção polemizar. Pelo contrário! Porém, gostaria de dizer que não tiraria sequer uma palavra do que disse na postagem em questão e, se fosse o caso, assinaria novamente o que foi dito. Isso sem falar que, aproveitando o ensejo, acrescentaria mais algumas considerações a respeito. Tipo: apesar da liberdade de opinião, não falei nenhuma mentira. E só nega o conteúdo do que eu disse quem o ignora, mas, por algum motivo, normalmente por conveniência, acha por bem tapar o sol com a peneira, seja não importa qual fiel ou mesmo alguém que manipula a fé desse mesmo fiel. Não obstante, é pertinente dizer que quando o teólogo e monge agostiniano alemão Martinho Lutero (1483 - 1546) decidiu iniciar o movimento que ficou conhecido como a Reforma Luterana, ele não poderia prever que, com os seus protestos contra o que ele considerava abusivo na Igreja católica, iria cindir em duas partes e de maneira tão radical o Ocidente cristão. Tais protestos, portanto, culminariam no surgimento do protestantismo, de há muito, contudo, desvirtuado por homens de má fé. E desvirtuado, inclusive, porque muitas das práticas da Igreja católica criticadas pelo teólogo e afixadas em uma espécie de manifesto na porta da igreja da Universidade de Wittenberg, onde ele lecionava, em 1517, o que lhe valeu, obviamente, a excomunhão pelo papa Leão X (1475 - 1521) em 1521, são reproduzidas pela quantidade exorbitante das ditas Igrejas evangélicas espalhadas mundo afora. Ou seja, elas em nada comungam com as ideias de Lutero, podendo, portanto, serem tudo, menos protestantes, ou melhor, luteranas. Tanto é que, por exemplo, a principal das práticas contestadas pelo teólogo, que era a venda de indulgências, à época corrompendo de bom grado as entranhas da Igreja católica, tem sido o leitmotiv das Igrejas evangélicas, transformadas, digamos, em empresas privadas, tudo em conformidade, aliás, com as leis que regem o capitalismo.

O mais grave, contudo – e nem me falem de democracia! –, é que, e não é de hoje, empresários evangélicos, invariavelmente os ditos pastores, estão trocando o púlpito pelas tribunas políticas. Desse modo, se já é maçante o assédio de um evangélico qualquer, o que dirá de um evangélico candidato durante não importa qual processo eleitoral! E a História repete-se: com o crescimento numérico da população evangélica e a exemplo das catedrais católicas medievais, a construção das suas suntuosas catedrais, mudando todo um cenário. Basta relembrar, portanto, que se, no passado, um pastor era alijado dos processos decisórios de uma dada comunidade, hoje ele está em pé de igualdade com o prefeito, o juiz, o delegado e o padre, sendo, contudo, a grande responsável por isso não a fé que movem os evangélicos, mas a política, que lhes garantem legitimidade na sociedade – fato que não nos resta constatar e, infelizmente, retroceder na História. Isso sem falar nos dilemas éticos que muitos têm enfrentado – e não estou aqui, por dizer isso, defendendo quem quer que o seja. Enfim! Simpatiza-se muito com as ideias de um dado candidato, mas não se vota na criatura porque ela é evangélica – um preconceito, aliás, criado, obviamente e com toda razão, pelas muitas das posturas escusas adotadas pela maioria dos seguidores da religião. Ocorre que – seguindo o mesmo raciocínio – a maioria dos políticos de maior visibilidade – e não somente no Brasil – é católica, religião que, há quase 500 anos, Lutero combateu por seu desregulamento interno, o qual, diga-se de passagem, não foi contido apenas porque ele protestou. Pelo contrário! Perdura até os dias de hoje, o que não me surpreende, e, desde então, o que os políticos católicos têm feito – políticos esses, inclusive, que, por uma questão cultural, sempre receberam a maioria dos votos do eleitorado, independentemente deste ser ou não cristão? Daí que, diante de um cenário ao qual a maioria das populações ainda está se adaptando, surgem os conflitos éticos. E todos estão passíveis de tê-los, visto a sua vulnerabilidade frente a uma mudança cultural tão brusca e acachapante, pesando-se, agora, na balança não mais os partidos políticos e as suas respectivas ideologias, mas as religiões dos candidatos. É óbvio, entretanto, que nada disso estaria acontecendo se estivéssemos livres das religiões, mas, lamentavelmente, elas estão aí, pululando por toda parte. E eu perguntaria: em que mundo nós estamos? Essa é fácil: estamos num mundo que ora vive uma crise global – econômica, ambiental, social e de valores. Porém, a mais difícil das respostas: no quê realmente acreditamos e queremos para o mundo em que vivemos e para as nossas próprias vidas, de preferência, é claro, sem as historicamente comprovadas influências nefastas das religiões? Enfim! Para quem tiver algum interesse, eis abaixo o link para a postagem que motivou um (a) desconhecido (a) a me escrever e que, a bem da verdade, que eu saiba, não é novidade para mais quase ninguém:


Nathalie Bernardo da Câmara

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