sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PONTO PARA MADONNA!

“Com a idade, toda puta velha tende a dar lições de moral a todo mundo, especialmente durante as suas viagens ao estrangeiro...”.

Dmitri Rogozin
Vice-primeiro-ministro da Rússia, político nacionalista, referindo-se, no twitter, à cantora norte-americana Madonna, que, durante show em Moscou, na terça-feira (7), vestindo uma balaclava preta, fez um apelo: sob aplausos, pediu que as autoridades russas libertassem as cantoras da banda Pussy Riot, que, no dia 21 de fevereiro deste ano, invadiram o altar da principal catedral russa, a do Cristo Salvador de Moscou, e, vestidas de balaclavas fluorescentes, entoaram uma ‘oração punk’ invocando à Virgem Maria que livrasse o país de Vladimir Putin, que, à época, estava em campanha presidencial. No dia 7 de maio, o alvo do protesto político das jovens russas assumiu pela segunda vez o Kremlin.


Pelo senso comum, o entendimento que se tem é que todo comunista, sem exceções, não importa a sua nacionalidade, compactua, incondicionalmente, com as políticas adotadas por Moscou – o mesmo valendo para Cuba. Não é bem assim e de há muito esse entendimento está para lá de equivocado, mesmo porque a única coisa que os governantes russos sabem fazer – e não é de hoje – é destruir o legado deixado por Lênin (1870 - 1924), desvirtuando as ideias do líder da Revolução de 1917. A atual conjuntura política da Rússia, por exemplo, não é bem vista por autênticos comunistas. Afinal, o presidente da antiga União Soviética, o advogado Vladimir Putin, nem do Partido Comunista da Federação Russa (PCFR) é – ele faz parte dos quadros do Rússia Unida (RU), partido considerado de centro-esquerda, cuja orientação ideológica é a socialdemocracia, inclusive chamado recorrentemente pelo povo de corrupto – nome, aliás, que nem é mais tão ultrajante assim... Isso sem falar que Putin é religioso, da Igreja Ortodoxa Russa, embora para alguém se sentir comunista não tem de necessariamente ser ateu – uma coisa não está vinculada à outra. Além do mais, a atitude antidemocrática do governo russo de prender três jovens cantoras apenas porque, corajosas, exerceram a sua liberdade de pensamento e expressão não cabe no atual período histórico em que o mundo vive. Não cabe, igualmente, um ministro de Estado usar a linguagem preconceituosa e discriminatória que usou para deixar registrada, ainda mais num veículo de comunicação comumente utilizado de maneira fútil, que é o twitter, a sua repulsa por outra cantora – esta de renome internacional –, que recorreu à fama que tem no planeta apenas para tentar influenciar na libertação das jovens russas.

Yekaterina Samutsevich, 29, Maria Alyokhina, 24, e Nadezhda Tolokonnikova, 23, foram presas por um “crime” que nem existe, já que o que fizeram não passou de um protesto político. Porém, embora de curta duração (1 minuto e 52 segundos), o ato corajoso repercutiu mundialmente – por isso mesmo maquiado pelo governo russo com o nome de vandalismo e incitação ao ódio religioso. Só que, detalhe: Madonna não está sozinha no seu apelo. Diplomatas de várias nacionalidades, políticos, músicos, intelectuais etc estão engajados para que a Justiça russa não condene as três jovens cantoras a três anos de reclusão, como pretende fazê-lo, num tribunal, no próximo dia 17...

Outro momento polêmico da passagem nada discreta de Madonna pela Rússia foi o show que a cantora fez em São Petersburgo, cidade natal do presidente russo, na quinta-feira (9). No evento, Madonna posicionou-se a favor dos direitos dos homossexuais no país, atualmente perseguidos por uma lei assinada em março pelo prefeito de São Petersburgo Georgy Poltavchenko – aliado de Putin. Discriminatória, a lei impõe uma multa de até 500.000 rublos (17.100 dólares) para quem difundir o que o seu autor, o deputado legislativo Vitali Milonov, chama de “propaganda homossexual”, que poderia prejudicar a saúde, e o desenvolvimento moral e espiritual do menor de idade (18 anos) – em 2010, é bom lembrar, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos multou a Rússia por banir paradas gays em Moscou. O fato é que, indignado, diante de mais um apelo pertinente de Madonna, o autor da lei acusou a cantora de fazer apologia ao homossexualismo, devendo, ela ou os organizadores do seu show, receber punição. Pronto: vai virar um caso diplomático, ainda mais se considerarmos a nacionalidade de Madonna, que, inclusive, no show, se apresentou com as palavras no fear (sem medo) escritas nas costas, pedindo à plateia para declarar “o seu amor e apreciação pela comunidade gay” – plateia essa, aliás, pincelada de rosa, já que fitas dessa cor foram distribuídas na entrada do show pela própria cantora, que disse lutar pelo direito à liberdade. Por fim, comunista que se preza não discrimina nada nem ninguém. Infelizmente, tem algo pútrido no país de Gorki (1868 - 1936), autor de A Mãe (1906), um dos mais emblemáticos livros que já li e que, com certeza, Putin e os seus correligionários não leram. Se o leram, esqueceram...

Nathalie Bernardo da Câmara

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