quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O RETORNO DA MULHER DA TROUXA & OUTROS CAUSOS

“Superstição: uma sobrevivência do rito desaparecido...”.

Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986)
Folclorista brasileiro


Um inusitado diálogo deu-se:

— Tudo bem com você?
— Tudo.
— Está vindo com quem?
— Com Satanás.
— Quem?
— Satanás.
— Ora, moça, deixe de brincadeira! Diga logo com quem vem...
— Eu já disse: com Satanás.

Não demorou, o dito foi explicado e, assim, desfeito o mal-entendido, com a conversa a mudar de rumo. Tais palavras, contudo – não faz muito tempo –, foram trocadas ao celular por duas mulheres que logo iriam se encontrar, sendo Satanás, na verdade, o apelido de um jovem motorista de táxi que, vez por outra, alugava o seu carro para longas distâncias – situações nas quais ele próprio conduzia o veículo. No caso, ora transportando uma das mulheres, que, outro dia, estava indo para a casa da outra. Assim, saindo do interior, a passageira falou com naturalidade o nome que despertou certa repulsa na sua interlocutora porque, na cidade onde mora, raro é encontrar quem não tenha apelido e o hábito, para todos, apesar de alguns nomes serem incomuns, é normal. Tão normal que, por exemplo, as alcunhas dadas a maioria dos homens – Satanás é uma das exceções – passam a ideia de que eles são propriedades de alguém. O curioso é que, invariavelmente, propriedades de mulheres, passando a ideia de que a comunidade na qual vivem é regida pelo matriarcado ou, então, embora eu não acredite que a hipótese válida seja essa, que os homens locais são desprovidos de todo e qualquer vestígio de personalidade, já que os apelidos são tipo: João de Fulana; José de Beltrana; Pedro de Cicrana e por aí vai, podendo Fulana, Beltrana e Cicrana, no caso, serem a mãe ou a companheira dos respectivos marmanjos, apesar de, em algumas situações, a avó. Mas, e qual o motivo de revisitar a Mulher da Trouxa, como o título desta postagem sugere? É que, tempos atrás, a história de uma senhora lavadeira, de nome, no caso, Misera, me foi contada exatamente pela passageira que havia alugado o carro de Satanás, reproduzida neste espaço em junho de 2009 e, curiosidade: desde então, é uma das dez mais lidas postagens deste blog, cujo motivo, aliás, acho que só descobri hoje, pretendendo, assim, contá-lo mais na frente... De qualquer modo, juntando uma coisa com outra, achei que poderia voltar a abordar o tema, revisá-lo e atualizá-lo, bem como acrescentar outros correlatos.


Misera e o finado Oscar

Então! Durante muito tempo, ouvi falar de Misera, nome, aliás, pronunciado a 3x4 numa cidade litorânea do Rio Grande do Norte. Ocorre que, até então, eu não sabia, como já disse na antiga postagem, e continuo sem sabê-lo, qual a sua faixa etária – o que dirá da sua estatura! Mediana, anã ou, noutro extremo, gigante. Desconheço, também, se ela era uma bruxa, com poderes especiais; uma mulher comum, do povo, ou, simplesmente, um ser humano medíocre. O fato é que era Misera para lá, Misera para cá... Só que o curioso é que as alusões ao seu nome eram normalmente feitas com o intuito de agredir alguém verbalmente, “pondo, de pronto, a autoestima do infeliz na sola dos pés” – coisa que sempre me intrigou. Desse modo, ao consultar dicionários vários, “a fim de desvendar o mistério de Misera, deparei-me com o verbo transitivo direto Miserar, concluindo, então, ser Misera uma conjugação do referido verbo, que significa tornar mísero, desgraçado; desgraçar; desventurar; infelicitar, caracterizando-se, portanto, a pronúncia do nome, em um xingamento e algo, de fato, deplorável, associada a algo repulsivo”. Exemplos?


— Sai, Misera!
— Fora daqui, Misera!
— Isso é que é uma Misera!
— Ô bicho Misera!
— Vai lascar outro, Misera!

Desse jeito, mesmo! E, por aí, ia. Misera isso, Misera aquilo... Porém, o tempo passou e, um dia, a mulher resolveu me contar a história de Misera, que, segundo ela, era “uma mulher de carne e osso e que todos faziam de um tudo para evitá-la, igual, antigamente, se evitava um leproso” ou, como se costuma dizer, “igual o Diabo foge da cruz”. Além disso, fiquei sabendo, ainda, que “Misera seria a personificação do atraso. De vida”. Só que do atraso de vida dos outros – “o seu maior atributo, o seu maior poder, preservando, ainda, o hábito de perambular com uma trouxa na cabeça, carregando sabe-se lá o quê”. Ocorre que a mudança de status de Misera, do anonimato à condição de celebridade, apesar de essa realidade limitar-se apenas ao universo agrário, deu-se, digamos, como que por um encanto, literalmente. Ou seja: há muito tempo, conta-se, “Misera teria ficado famosa por tocar a mão do finado Oscar, que logo teria apodrecido. Desde então, passou a ser temida por todos”... A questão é que ninguém sabe dizer o que a levou a tocar na mão do homem nem o motivo pelo qual ela recorreu a seus poderes para, num simples gesto, putrificar a sua mão. O fato é que muitos acreditam nessa história com uma veemência tal que não tem quem os convença de que, na verdade, ela não passa de uma lenda do nosso folclore. Daí ser até uma agressão alguém querer demover quem acredita nessa ou noutras lendas, erradicando-as, visto que, sabemos, trata-se do imaginário popular, que, aliás, é riquíssimo, não devendo, portanto, nem por erudição alguma, ser desmerecido, já que, queiram ou não, esse imaginário faz parte dos nossos bens culturais. Tanto que a imagem de uma mulher com uma trouxa na cabeça é até bastante comum.


A Mulher da Trouxa do interior da Bahia

Uma imagem, inclusive, ou seja, a de uma lavadeira, que, desde os tempos coloniais, no caso do Brasil, tem inspirado artistas como, por exemplo, pintores e fotógrafos. A Mulher da Trouxa, por sua vez, nome homônimo de uma crônica contada por Daniel Dias no site sobrenatural.org. “O episódio, contudo, narrado por Dias, ocorreu quando ele ainda era uma criança no sítio do avô, no interior da Bahia. Ele conta que, uma noite, estando todos em volta da fogueira, assando castanhas de caju, quando o fogo começou a minguar, coube-lhe a missão de ir catar lenha na mata. E foi aí, então, que, para o seu espanto, ele se deparou com a Mulher da Trouxa. Segundo nos conta, a mulher que encontrou na mata deslizava como se o chão não existisse, e, durante uns quinze segundos, ficou ao seu lado – tempo suficiente para ele estimar que ela tivesse cerca de 1,80 de altura, era magra, possuía uma pele pálida, olhos profundos e, vestida de um branco puído, carregava uma trouxa na cabeça. Inicialmente paralisado de temor, assim que a mulher partiu, Dias desfez-se da lenha e saiu correndo, em busca dos seus parentes. Sem acreditar em crendices, a sua mãe disse ser bobagem, enquanto uma tia retrucou, dizendo que não zombassem da mulher, que ela se vingaria. E, ao que tudo indica, parece que se vingou mesmo, pois o irmão de Dias, enquanto o avô contava histórias de lobisomens, caiporas e outras criaturas fantásticas, ao sair para beber água, portando consigo um candeeiro, já que não tinha energia elétrica, não voltou. Quando foram atrás do menino, o quarto onde ele dormia – a casa era de taipa – estava em chamas, sem que ninguém conseguisse explicar o motivo”. Tudo sugeria, contudo, que havia sido o candeeiro que desencadeou o fogo; a causa do incêndio, um tropeço ou outro descuido qualquer. Nada mais, pelo visto, além disso. “Porém, Dias acha que houve um link com a mulher da trouxa... Daí o contato que manteve com ela, mesmo que brevemente, em um curto espaço de tempo, não duvidando até hoje do encontro sobrenatural que teve com ela”...


A Muda

Foi aí, então, que, ao ouvir falar de Misera, do finado Oscar e da Mulher da Trouxa lá do interior da Bahia, a minha memória despertou e lembrei que, durante um período da minha infância, ao brincar com a minha irmã, às vezes também com alguns amigos da vizinhança, costumávamos esbarrar na Muda, uma senhora que, vez por outra, passava na rua onde morávamos. Como o nome já diz, ela não falava, apenas emitia sons guturais e resmungava. Vestia-se de branco e ornava a cabeça com um lenço vermelho, arrastando um saco numa das mãos e, na outra, uma espécie de cajado de madeira tosca. Assim, quando a Muda passava, era uma festa, pois gritávamos, em uníssono: — Muda, muda, muda! A senhora, coitada, saía correndo atrás de nós, verbalizando algo incompreensível, e, achando pouco, bradava o cajado em todas as direções, querendo nos acertar. Assim, para a minha irmã e eu, a Muda era um divertimento à parte. Mas, como éramos apenas duas crianças levadas, não tínhamos consciência das maldades que cometíamos. De repente, se brincar, a Muda foi a nossa mulher da trouxa – a diferença é que ela não era uma lenda nem, muito menos, uma fábula ou uma história qualquer inventada a fim de divertir, distrair ou, até mesmo, passar o tempo. Não, a Muda foi real, povoando, com o seu temido cajado, o nosso imaginário infantil. Porém, se fosse hoje, com certeza eu iria tratá-la melhor, com mais dignidade, provavelmente até mesmo tentá-la ajudar, saber quem ela era, qual idade tinha, onde morava, qual o motivo que a levava a perambular como uma indigente ou tivesse o nome que tivesse o vagar nas ruas sugerindo estar perdida, sem destino certo. De repente, até tinha um, embora não soubéssemos, podendo, inclusive, numa linguagem atual, ser uma catadora de material para reciclagem. Sim, e já naquela época. O fato, contudo, é que nunca vamos saber qual a verdadeira história de vida da Muda – coisa que, infelizmente, hoje eu lamento.


E os pedaços juntam-se...

À época, portanto, na qual escrevi sobre Misera, a Mulher da Trouxa e a Muda, eu descobri na internet algo extremamente inusitado, que foi a existência do Blog dos Misera, cujo patrono, aliás – pasmem! –, era o papa Bento XVI. Duvidam? Acham que eu estou inventando? Pois bem! O cabeçalho do tal blog, por sua vez, referia-se aos seus administradores, provavelmente também aos seus seguidores, de Miseras abençoados... Só que, detalhe: fui pesquisar para saber se o tal blog ainda existe, mas não encontrei nenhuma referência ao mesmo, apesar de ter encontrado outros espaços virtuais que se autointitulam de miseráveis... Enfim! Quando publiquei o texto original sobre a Mulher da Trouxa, recebi um comentário, que postei, de uma amiga jornalista lá do Piauí, pedindo-me que falasse sobre a Mulher da Trouxa de Maraial, município de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Admito, contudo, que, quando me foi feita a sugestão, não a acatei – já estava ocupando-me de outros temas. Porém, agora, fui atrás e confesso que a única informação a respeito foi a de um bloco carnavalesco pernambucano chamado A Mulher da Trouxa, cujo hino está disponível na internet, embora, diga-se de passagem, mal dá para entender a letra. De qualquer modo, tive aí a explicação para a minha postagem ser uma das dez mais lidas do meu blog. Afinal, como eu já desconfiava, não é nem pelo tema em si que ela é acessada, considerando, obviamente, que a maioria nem por folclore se interessa – o que dirá de lendas do tempo do ronco! –, mas porque o seu título é o mesmo do nome do tal bloco de carnaval, bem como do hino homônimo. Desse modo, sem nenhuma intenção, muitos terminam, casualmente, clicando no link para a minha postagem pensando que vão encontrar algo relacionado com o bloco carnavalesco do mencionado município. Enfim! Da história, mesmo, da possível lavadeira provavelmente igualmente assombrada de Pernambuco, nenhum vestígio. Não obstante, ela existe e tudo indica que tem aspectos similares as que são contadas em demais regiões do país. Afinal, convenhamos, antes de o Brasil ser fatiado em regiões – estas, por sua vez, em estados e por aí vai –, com os seus limites territoriais definidos, tudo, na verdade, ou seja, o país era coberto por uma grande mata, ou uma floresta, como queiram, e as histórias que se contavam nas imediações de um dado rio ou lagoa também eram contadas noutros, mudando-se, apenas, uma coisa ou outra. Duas dessas histórias, portanto, foram-me contadas, embora eu já as conhecesse, no dia em que a mulher que já havia me falado de Misera foi com Satanás encontrar-se com a amiga. No entanto, não foi ela quem me contou, mas uma senhora, cuja idade é imprecisa – não se sabe se oitenta ou mais –, e que, expectadora, assim como eu, dos detalhes do apelido do motorista do carro, sentou-se ao meu lado e, num tom solene, perguntou se eu não queria ouvir as histórias, parecidas, de duas outras personagens que, já na sua infância, viviam nas matas da sua cidade natal, mais precisamente nas brenhas, como se diz, da zona rural do Rio Grande do Norte. Respondi que sim e ela, então, chamada por todos carinhosamente de Joaninha, desatou a falar.


Uma nova versão da Uiara e a Caboclinha

Certa feita, um irmão seu, de mais idade do que ela, de nome Luiz, retornava para casa por volta da meia-noite. Era dia de lua cheia. No meio caminho, após sair da trilha ladeada de árvores, próximo à lagoa, ele resolveu tomar um banho. Pensando estar sozinho, ele se despiu e pulou na água quando, de repente, não somente ouviu um som característico de alguém agitando a água, mas, também, viu, com os olhos que, um dia, a terra haveria de comer, uma mulher lavando roupa. Ela estava um pouco distante, mas, mesmo assim, ele percebeu que o seu cabelo era muito bonito, preto e longo, mas desalinhado pelo vento, nele refletido a luz do luar. De imediato, pensou que já era tarde para uma mulher, desacompanhada, estar a lavar roupa na beira do lago, ainda mais cantando, uma bonita canção, por sinal, e, se lembrando das histórias que o povo contava, retesou-se. Um arrepio atravessou-lhe a espinha: só podia ser a Mãe d’Água – a mãe biológica já havia prevenido. E se fosse, de verdade, logo ia encantá-lo, levando-o para o fundo da lagoa. Não foi à toa que ficou tão assombrado que, na mesma hora, saiu correndo da lagoa, em disparada, nem mesmo se dando conta de que, não muito distante, a casa de farinha estava em pleno funcionamento, com um grupo de mulheres a preparar pratos apetitosos.

— Oxente! – Teria exclamado Maria José, a cevadeira, ao ver Luiz nas carreiras. – Tomando banho uma hora dessas!

E Luiz calado, atemorizado, “atacado de um negócio”, explicou-me a senhora que contou essa história, que, por sua vez, também lhe havia sido contada por terceiros. Na verdade, irmã do notívago aventureiro, Joaninha, que é dotada de lucidez e memória espetaculares, disse que, desde esse dia, Luiz nunca mais chegou tarde da noite em casa. Porém, segundo ela, noutra noite... E foi emendando um ocorrido noutro, mais ou menos assim: estando Luiz com o pai, este percebeu que estava sem fósforos. O irmão, querendo agradar, arvorou-se no mundo para lhe encontrar uma caixa de palitos. Não demorou muito, ele retornou bastante aflito, tentando exprimir ao pai o que lhe tinha acontecido: na escuridão do caminho, na busca pela tal caixa de fósforos, percebeu o vulto de uma mulher “aboletada debaixo de uma árvore”. Parando, ouviu quando ela lhe pediu “um fuminho” e, caso ele não o desse, ia se arrepender. Ocorre que, como não dispunha de fumo consigo, logo no meio da mata, Luiz aperreou-se e fez carreira para casa, sem fósforo, sem nada. O pai, imaginando a cena presenciada pelo filho, gracejou e se limitou a dizer:

— Ah, Luiz! Você viu a Caboclinha...

Só que Luiz, não afeito a nomes, temia, mesmo, as coisas que via. Não o que o povo contava, virando, assim, um supersticioso. E Joaninha, que sempre gostou de ouvir essas histórias, pois, naquela época, “não tinha televisão que nem hoje” para distrair a todos a noitinha, contou, ainda, que um dia o pai contou do desassossego de um amigo que havia ido caçar na mata. De repente, ao se deparar com uma leva de veados, ele tentou acertar um, que garantiria, aliás, mais de uma refeição para a família. Só que, como disse Joaninha, “a ambição não é de agora, vem de muito longe, de muitos séculos”, o homem não se contentou em matar apenas um veado. Diante da fartura, que parecia não ter dono, ele se arriscou a acertar noutro veado e, depois, num terceiro. Ocorre que, montada num deles, a Caboclinha tudo observava. Como permaneceu em silêncio e um pouco afastada do homem, este não a viu de imediato, só ao final, quando, após eliminar os três veados, saiu a arrastar apenas um, literalmente preso às costas, deixando os demais ao relento. Chamando-lhe, portanto, a atenção, a Caboclinha fez-se ouvir, querendo saber o motivo de o homem não levar consigo os veados que matou. Tomado de espanto, pois, para ele, a tal da Caboclinha parecia ter surgido do nada e, de repente, lá estava ela a lhe repreender, o caçador incauto caiu em si: a mulher estivera ali o tempo todo e, embora a sua função fosse a de proteger os animais, ela havia se limitado a observar os seus movimentos. Os do homem, claro, que, falando a verdade, disse que só levaria um porque, além de só precisar de um, não tinha como levar os outros dois. Sem hesitar, a mulher aproximou-se e disse que se não precisava dos demais, não os tivesse matado. Desse modo, iria pagar por isso. Sem saber o que dizer, o homem perguntou:

— Como, se não tenho dinheiro?
— Com um pisa que eu vou lhe dar.

E a Caboclinha deu, sim, uma sova no caçador, que, sem menos esperar, conheceu a fúria das matas, dos seus protetores e dos bichos também. Ao final, para completar a lição, a mulher o obrigou a levar todos os veados que matou. Afinal, segundo ela, “matou estava matado”. Que ele, então, se virasse e tratasse de levar os bichos abatidos. Dito isso, a Caboclinha esperou que o homem recolhesse os outros dois veados e, dando o jeito dele, levasse os três que abateu. Quando percebeu que, apesar da dificuldade em transportar os animais, ele o fazia nem que fosse por penitência, a Caboclinha assoviou, reuniu o bando e, montada num deles, prosseguiu. Ao longe, parando um pouco e olhando para trás, o homem ainda teve tempo para olhá-la partir, fumando o seu cachimbo e cantando uma canção...

Quanto a mim, quando vi que, mais uma vez, Joaninha ia emendar um conto no outro, aproveitei a deixa para lhe perguntar se ela acreditava naquilo tudo, ao que me respondeu:

— Tempos antigos, minha filha, tempos antigos, quando tudo era encantado!
— E hoje, a senhora acha que essas coisas ainda acontecem?
— Não sei, pois me desliguei das lagoas, mas era muito bom...

De fato, devia o ser, mesmo, tais quais as histórias contadas pelo escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882 - 1948) que li quando ainda era criança. O curioso, contudo, nos causos de Joaninha, é que nos deparamos com a Uiara dos índios numa versão lavadeira, sendo, ainda, chamada de Mãe d’Água, enquanto, no litoral, o mito seja a sereia do mar. A Caboclinha, por sua vez, não é que a Caipora do nosso folclore, embora o seu nome, dependendo da região, como foi o caso, tenha lá as suas variantes. Isso sem falar das demais histórias que Joaninha queria continuar me contando. Falei, então, para irmos fazer mais café e que, depois, eu as ouviria de bom grado. Como ouvi! Só que essas ficam para outra oportunidade...

Nathalie Bernardo da Câmara

2 comentários:

  1. Os contos sem fim de Joaninha do Rio Grande do Norte, Euócia do Acre, Antonia do Amazonas estão situados no meio rural, propiciadas pelo mistério das matas, o silêncio das águas e os animais terrestres e aquáticos, são contraditoriamente, estórias verdadeiras, de pessoas que viviam, e ainda vivem, num isolamento, da convivência com outras pessoas, e talvez por isso, ficam dialogando com os rios, lagoas, cachoeiras, florestas, pássaros, peixes e tudo que o universo místico rural abriga.
    Foram as estórias e histórias como as contadas por Joaninha, que me foram contadas por Eudócia, no Acre, que tiraram meu sono e me causaram temor, de figuras como a Misera, a Mulher da trouxa, a Uiara, o Caboclinho da mata (que no Acre é uma figura masculina). Histórias que correm o mundo e que nos fazem crer, que mesmo sendo as pessoas, tão distintas e morando distante, a característica humana e muitas vezes desumana, compartilha identidades, que são levadas pelas águas, por sementes de plantas, que o vento transporta e vão povoar outras terras e outras gentes ou por viajantes, pessoas que contam suas experiências e são recriadas qundo contadas novamente.
    Cabe a pergunta, que lugar esse universo místico rural ocupa hoje nos espaços urbanos, repletos de civilidade, urbanidade e outros indicadores considerados importantes na sociedade? Como essas histórias estão sendo recriadas?
    verdadeiras

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    1. Da "civilidade", ao qual vc se refere, eu não sei, mas... Quem sabe uma ou outra criatura como nós consiga, aqui e/ou acolá, resgatar "esse universo místico rural"!?! Para qual finalidade? Tb não o sei...

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