sábado, 12 de outubro de 2013

NÍSIA FLORESTA: LENDAS & MITOS

“Um preconceito desfaz-se – basta a simples reflexão...”.

Machado de Assis (1839 - 1908)
Escritor brasileiro


Por Nathalie Bernardo da Câmara


Quase dois séculos depois do seu nascimento, no dia 12 de outubro de 1810, em Papary, no Rio Grande do Norte, Nísia Floresta Brasileira Augusta continua sendo, sob o majestoso pseudônimo que a consagrou, uma das personagens mais importantes da galeria dos grandes vultos brasileiros, apesar de ainda ser uma mera desconhecida para a maioria dos brasileiros. Na verdade, destacando-se por sua singularidade em pensar e defender publicamente ideias por demais revolucionárias para a época em que viveu, a humanista Nísia Floresta foi plural. Educadora e escritora, publicou livros e artigos, abordando temas os mais variados: a problemática do índio brasileiro, subjugado pelo colonialismo estrangeiro; a abolição do sistema escravocrata e a instauração do regime republicano no Brasil; a educação da mulher e sua emancipação, entre outros. Assim, perpassando a sua vida e obra, todas essas causas fizeram da sua militância um leitmotiv, fosse no Brasil, fosse na Europa, onde ela morou durante vinte e sete anos, falecendo em Bonsecours, na França, em 1885, aos 74 anos de idade.

Infelizmente, discriminada por sua liberdade de pensamento e ideias arrojadas, criticada por adotar métodos de ensino inovadores e polêmicos, assim como pelas várias bandeiras que desfraldou, sobretudo a do feminismo — sendo ela o estandarte primeiro da justa emancipação das mulheres do seu tempo –, Nísia Floresta foi vítima de campanhas difamatórias ao longo da sua vida, boicotes e censuras. Exemplo disso foram os cortes que sofreu o livro A Lágrima de um Caeté, de sua autoria, publicado em 1849, no Rio de Janeiro. O governo da época, escravocrata e patriarcal, suprimiu passagens do livro, as quais denunciavam a degradação do índio brasileiro, espoliado pelo branco colonizador, além de ser uma homenagem a Nunes Machado (1809 - 1849), líder da Revolução Praieira (1848 - 1849). O fato, inesperado para Nísia, somou-se a outros tantos constrangimentos públicos e contribuiu para que ela decidisse passar uma temporada na França, longe das pressões e dos desafetos.


Isabel Gondim (1839 - 1933)


Sim, campanhas caluniadoras estavam sendo movidas contra Nísia Floresta. Algumas delas, por ignorância e desconhecimento; outras, por mero preconceito, inclusive, dos seus próprios conterrâneos, como foi o caso da educadora e escritora Isabel Gondim, que, a partir da segunda metade do século XIX, encarregou-se de divulgar boatos, já existentes em Papary, sobre as maldições que associavam ao nome de Nísia Floresta. Na verdade, Isabel Gondim, apesar da soberba e sensível historiadora que foi, não mediu esforços para denegrir publicamente a imagem de Nísia. Por tal postura, moralmente inquisitorial, ela se tornou uma das mais ilustres porta-vozes de campanhas contra Nísia Floresta, exatamente o seu oposto. Portanto, antítese de Nísia, Isabel não hesitou em manipular e difundir as histórias fantásticas que lhe foram contadas, provavelmente quando ainda era apenas uma criança, sobre a mulher “atrevida”, que desafiava o establishment, em nada lembrando os seus austeros e rígidos princípios puritanos.

Curiosamente, em 1985, um século depois da primeira contestação pública de Isabel Gondim, uma outra conterrânea de Nísia Floresta, a jornalista e escritora Socorro Trindad, afirmou que “Nísia Floresta tornou-se mito por ser maldita”. Sugerindo ainda que Nísia teria sido uma “puta erudita”, Socorro Trindad pecou por cultuar um mito, reforçando todo o estigma votado à Nísia, embora tenha reconhecido que para desvendar um mito “é necessário desvendar a sua maldição”. No entanto, quem conhece a vida e a obra de Nísia Floresta, brasileira de solo e augusta nos princípios, sabe muito bem que a sua história nada tem de maldição. Pelo contrário! No Brasil e alhures, a sua trajetória sempre foi marcada por conflitos, dramas e desafios vários, os quais sempre foram superados pela lucidez que lhe era peculiar, à revelia de todo um preconceito arraigado e dos inúmeros adjetivos à ela atribuídos. “Leviana, mestiça e adúltera”; “indecorosa”; “mulher extraordinária, notável”; “monstro sagrado”; “adorável mito”...

O certo é que, pela sua ousadia intelectual e idéias revolucionárias, realmente um “atrevimento” que desafiava os costumes da época, Nísia Floresta foi por muitos adorada e respeitada; por outros, relegada às brasas de um purgatório que até hoje queimam e teimam em mantê-la no ostracismo do mundo das letras e nas sombras implacáveis da história. Na cidade em que nasceu, por exemplo, antiga aldeia de Papary, pequenina e provinciana, Nísia ainda é para muitos nada mais que um espectro a vagar pelas ruas do lugar; um vulto, arrastando correntes ou coisa parecida, a se lamentar, seduzindo homens casados ou assustando solitários noctívagos nas noites de lua cheia. Ou seja, um mito, uma personagem lendária, desafiando o tempo e o espaço no imaginário popular.

Acontece que vivemos num mundo onde a informação, apesar de dinamizada virtualmente e pulverizada na tão decantada aldeia global, nem sempre é assimilada como deveria — filtrá-la torna-se ainda mais difícil — por tantas e quantas pequenas aldeias, se falarmos de Brasil, deste imenso e paradoxal país. Assim, se pensarmos no mito enquanto palavra, na definição do multifacetado francês Roland Barthes (1915 - 1980), e se considerarmos a palavra uma mensagem, resta-nos, neste caso, decifrar a mensagem que nos deixou Nísia Floresta, decifrando os seus enigmas, superando os estigmas e dissipando as lendas e as falsas crendices que até hoje envolvem a sua vida e obra. Sim, porque todo mito, qualquer que seja ele, evapora e deforma a história. Aliena. Daí a necessidade de desvendar o mito e, inevitavelmente, destruí-lo.

Caso contrário, ou seja, se nós o mantivermos em sua redoma aparentemente inquebrantável, no alto do seu pedestal, o mito continuará alimentando a nossa vida cotidiana, onde nós vagamos entre a palavra e a sua desmitificação. E é aí que nasce, portanto, através de uma explicação e de um entendimento do ser ou objeto mitificado, a oportunidade de nos reconciliarmos com o real: única prenda capaz de promover a ruptura necessária de todos os tabus, mitos e preconceitos, no caso, contra a mulher, os quais, aliás, apenas aniquilam o nosso livre pensar. Foi pensando dessa forma que, já em meados de 1853, Nísia Floresta sabiamente alertou: “Sabemos que muitos anos, séculos talvez, serão precisos para desarraigar herdados preconceitos a fim de que uma tal metamorfose se opere. Esperamos somente que os zelosos operários do grande edifício da civilização em nossa terra atentem para os exemplos que a História apresenta do quanto é essencial aos povos, para firmarem a sua verdadeira felicidade, o associarem a mulher esse importante trabalho.” Disse tudo!

(Transcrito do extinto jornal O Galo. Ano XIV, n° 7, Fundação José Augusto, Departamento Estadual de Imprensa do Rio Grande do Norte, Natal-RN, julho 2002).


Da autora: Fragmentos de uma obra inédita - Notas biográficas. Editora da Universidade de Brasília (UnB), 151 páginas. Brasília-DF, 2001 - tradução do original em francês Fragments d’un ouvrage inédit - Notes biographiques, de Nísia Floresta Brasileira Augusta, A. Chérie Éditeur, 111 pages. Paris, 1878. 


4 comentários:

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  2. Nathalie, adorei as postagens do seu blog. Sou aluna da UFRN e realizo pesquisas sobre Nísia Floresta. Inclusive atualmente enquanto eu trabalho com cintilações de uma alma brasileira, minha companheira de pesquisa está trabalhando com o livro escrito por você. Diga-se de passagem MARAVILHOSO.

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    1. Cara Angélica, grata por sua visita. Caso ainda queira entrar em contato, estou disponível no e-mail nathaliebernardo@hotmail.com

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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