sexta-feira, 5 de novembro de 2010

MADE IN BRASIL

“O mundo é bonito...”.
Aldemir Martins (1922 - 2006)

Filho do sertão do Cariri, o desenhista, ilustrador, pintor, gravurista, ceramista, tapeceiro, escultor, cenógrafo e contador de histórias Aldemir Martins nasceu no dia 8 de novembro de 1922, em Ingazeiras, Ceará. De origens indígenas, por parte de mãe, e portuguesas, por parte do pai, e sob os auspícios da arte moderna, Aldemir foi autodidata, fazendo do desenho, com tijolo e carvão, um dos seus brinquedos de criança. Adolescente, aperfeiçoou a sua técnica, fazendo, inclusive, o mapa aerofotogramétrico de Fortaleza e, pelas pinturas feitas em viaturas do Exercito, foi agraciado com o seu primeiro prêmio, conquistado no concurso da Oficina de Material Bélico da 10ª Região Militar do Ceará, ganhando, assim, a alcunha, ou melhor, a patente de cabo pintor. Adulto, ele se profissionalizou, ganhando, entre outros, o mais importante de todos os prêmios: o Internacional de Desenho da XXVIII Bienal de Veneza, em 1956.

Aldemir com um ano de idade.


A mãe, Raimunda, e o pai, Mighel Martins.


Um colecionador de prêmios, Ademir ganhou três consecutivos só na Bienal de São Paulo: a I, de 1951; a II, de 1953, e a III, de 1955. Era um vencedor. E um exportador da cultura brasileira. Exportou cangaceiros, rendeiras, gatos, peixes, galos. Exportou pássaros. Exportou a força da natureza e a magia nordestinas. Exportou luzes, cores e tons. As luzes, as cores e os tons do Brasil, indo no âmago das suas temáticas, como quando, em 1951, realizou uma viagem ao Ceará e retornou a São Paulo de pau-de-arara, marcando profundamente não somente o homem, mas, também, o artista, cujos desenhos, que resultaram dessa experiência, retrataram com poesia e fielmente toda a complexidade nordestina, com as suas áridas paisagens e os seus elementos ásperos e rudes, embora imbuídos de sol e calor – calor esse que ele transmitia no aconchego do seu atelier, onde telas, pincéis e traços se confundiam.


Aldemir em seu atelier, São Paulo.


Uma sinfonia em preto e branco

“Meu novo desenho é antigo. Quando, em 1955, fiz uma série de cangaceiros líricos e truculentos, ninguém viu senão os cangaceiros, quero dizer: o assunto. Ninguém prestou atenção ao desenho, linhas, formas, manchas. Um mês antes de partir para Roma, aí por volta de julho de 1961 – oito anos depois dos cangaceiros –, retomei o filão e executei cinco ou seis desenhos, trabalhando o mais possível com manchas e formas. Outra vez, ninguém reparou nada. Paciência.



O Cangaceiro, 1952

(...) Nunca perdi o contato com as minhas origens. Me gabo disso. Retorno sempre ao Ceará, aos seus bonecos de pano, suas figuras de carvão na parede, seus bichos no tijolo da calçada, no muro do Náutico da praia Formosa, os navios sumários e poderosos nas fachadas das bodegas de cachaça do Pirambu. Volto aos vaqueiros “assinando” o gado, às louceiras fazendo formas de panela, bules, jarras e cacos de torrar café. E tudo isso que eu carrego comigo é o meu desenho. Sempre foi.

Sobre tudo isto meto o meu tracejado, que aprendi das rendeiras, ponto de mosca, cruz e bico, e rendas mesmo, trançado de palhas de chapéu de catolé e de caçuá de bananas. Bananas estão sempre cheias de desenhos amadurecendo. E as nódoas da banana e do caju na roupa da gente, fazendo desenhos belíssimos, você já viu? Tudo isto é o meu desenho, disso não quero e não posso me desvencilhar. Menino contando histórias e riscando no chão, ao mesmo tempo com ingenuidade e malícia, a malícia e a ingenuidade de quem sabe pescar de mão, seguir rastro de boi e caçar de visgo e arapuca. Arapuca que a memória me empresta para fazer o quadrado do meu desenho e nele aprisionar as “pessoas personagens” que invento e crio.

O que pretendo é uma imensa sinfonia em preto e branco, sons de longe, do nosso Ceará, música pianíssima às vezes, outras vezes como um trovão, mas música vista, entendida, representada, explicada por este cabra de Guiúba que adora sol, jangada, rendeira, onda de mar, cangulo, chuva, seriguela e cheiro de terra molhada. E mais curimatã prateada e cará escuro, assim como as manchas do meu desenho.

Manchas negras, pintas escuras, sombras que fogem do lombo das cavalas e se arrancham no meu desenho. Estas são as minhas raízes, que vou fazer?”.

Aldemir Martins





Cangaceiro, 1951


De 1951 em diante, após o prêmio recebido na I Bienal de São Paulo, com o trabalho Cangaceiro, feita à nanquim, Aldemir, que só tecia em preto e branco, introduziu a cor em seus traçados, cujo processo de criação era bastante peculiar. Segundo Aluízio Medeiros:

“Tendo a idéia plástica despertado em Aldemir Martins, ela é fixada nervosamente num primeiro esboço feito num pequeno pedaço do primeiro papel encontrado, mas que nunca ultrapassa de quatro centímetros de tamanho. Esse esboço é guardado (e Aldemir Martins possui centenas desses pequenos esboços enchendo caixas de charuto) até que a forma amadureça por completo em Aldemir Martins, quando então o esboço vai ganhando proporção, precisão e encaminha-se para atingir o desenho definitivo”.





Galo – 1964



Versátil. Essa seria a palavra ideal para definir Aldemir, já que ele transitava entre diferentes técnicas e fazia uso de diversos suportes: papéis de carta; cartões e telas de tecidos variados, além de reproduções de seu trabalho em pratos; bandejas; copos; canecas; latas de tintas; caixas de fósforo; embalagens de pizza e demais produtos, nos quais conciliava a produção artística e a sua comercialização.


“Me perguntaram o que era um artista comercial. Aí eu respondi, exatamente dizendo, que eu não conhecia um artista anticomercial. Porque tudo o que você produz, você tem que ter uma retribuição em espécie, ou uma permuta daquilo que você faz. A gratuidade do gesto não existe. A forma como você se comporta na rua, você está compondo a sua imagem. A imagem elegante, do relaxado, do nonchalant do homem simpático, charmoso, do antipático, sério, brincalhão...
Existe um pintor, o qual eu respeito muito e quero muito bem e que a crítica diz que é o maior pintor brasileiro e o mais sério. Eu digo, sério pros outros, porque não acredito que ele só saiba pintar bandeirinhas. Agora, por que é que ele pinta bandeirinha? Porque o cliente quer a bandeirinha! Por que eu pinto o meu cangaceiro? Porque eu sei pintar meu cangaceiro. Claro que vou vender meu cangaceiro! Eu vou vender o meu cangaceiro! Mesmo porque, a minha filha come, a minha mulher come, meu cachorro come, minha cachorra come, eu tenho que pagar o meu automóvel, tenho que pagar o meu rádio, minha televisão, minhas viagens. Tenho que pagar todos os meus livros que eu compro e que pouca gente tem...

As tintas, as telas... A moldura mais barata desta exposição custou 60 mil cruzeiros. Eu, prá sentar aqui nesta prancheta que você está vendo, pago ao governo 50 mil cruzeiros por mês. Senão, eu não posso sentar. É o imposto que eu pago pro imposto de renda prá começar a trabalhar”.

Aldemir Martins


Como ilustrador, além dos jornais e revistas onde se pôde degustar do seu traço, Aldemir ilustrou livros como O Navio negreiro, de Castro Alves (1847 - 1871); Os Sertões, de Euclides da Cunha (1866 - 1909); Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira (1886 - 1968); Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892 - 1953); A Bola e o goleiro, de Jorge Amado (1912 - 2001)...


Capa de Os Sertões, de Euclides da Cunha; a cadela Baleia, personagem de Vidas secas, de Graciliano Ramos, e A Bola e o goleiro, de Jorge Amado.

No audiovisual, Aldemir fez a aberturas das novelas Gabriela (1975), de Walter Avancini, e Terra do sem fim (1981/1982), de Herval Rossano, exibidas pela Rede Globo, baseadas em livros do escritor Jorge Amado, criando, ainda, o cenário do I Festival de MPB da TV Record e de peças de teatro.


Cora Pabst e Aldemir Martins, Bodas de prata, 1977
O artista teve dois filhos: Pedro e Mariana



GALERIA


S/ título, 1952


Rendeira, 1954


Violeiro, 1956


Menino com pipa, 1956


Menino com cabaça, 1959


Bumba meu boi, 1962


Galo, 1962


Perfil de mulher, 1967


Rendeira, 1973


Gato, 1975


Mariana, 1976


Flor, 1976


Gato, cadeira e violão, 1976


Cangaceiro, 1977


Cangaceiro, 1980


Mulher na praia, 1980


Baiana, 1980


Macunaíma, 1982


Bumba meu boi, 1981


Gato, 1982


Caju, 1999


Para Aldemir, o caju faz a coisa mudar, literalmente, de figura: “O caju é caju amigo, é o símbolo da contagem do tempo, é o símbolo de uma época da cultura brasileira. Sabe, aquela coisa da guerra do cajú. O Brasil nunca completou o ciclo, né !? Acontece uma coisa, um fato novo e modifica. Quando a guerra do caju aconteceu, o Brasil foi descoberto. O caju se come, dá castanha na entressafra. Nessa época você usa a castanha do caju como massa, você usa o próprio caju azedo, como vinho, como bebida, como comida. Você chupa o caju e o bagaço, você corta e frita como se fosse camarão. Quer dizer é uma coisa de louco, né?! Você tem tudo o que possa imaginar com o caju. Assim como a carnaúba. São dois produtos brasileiros que dão aproveitamento total. A carnaúba chama-se árvore da vida por causa disso. Porque serve de remédio purgativo contra a sífilis, chá, torrada, serve como café, serve para fazer casa, chapéu, sandália, esteira... Você dorme, serve para enrolar morto, o palmito, serve para construir a casa...”.


Família de gatos, 2003


“O gatos tiveram uma maior aceitação do público,
mas não da crítica de arte”.


Sergio Peres




DEPOIMENTOS



“Eu deixo no bolso um monte de desenhos
e num dia resolvo pegar para pintar...”.

Aldemir Martins

“Dos artistas brasileiros [Aldemir Martins], é o único que tem estampado na testa, MADE IN BRASIL. Brasil com S”. – Carlos von Schmidt

“Aldemir Martins é um homem cultíssimo. Como dizem em certas regiões do interior do Brasil: é um poço de sabedoria”. – Nilson Moulin e Rubens Matuck

“Aldemir Martins tinha uma visão única do Brasil um olhar amoroso, pois observava o território nacional e o que nele existe como uma fonte de vida, uma fonte de beleza em abundância. O artista criava a sua versão da identidade nacional”. –
Jacob Klintowitz
“Neto de avó tapuia, filho de um modesto funcionário de pequena estrada de ferro do Ceará – que antepassados seus lhe terão transmitido a vocação plástica? Estou inclinado a pensar que os mais remotos ancestrais artísticos de Aldemir podem bem encontrar-se entre os desenhistas da Pré-história que deixaram nas paredes das cavernas de Altamira tão admiráveis figuras de animais. Lembro-me de ter visto a fotografia de um remotíssimo parente dos bichos do desenhista cearense.

Os primeiros trabalhos de Aldemir que tive a oportunidade de ver, me surpreenderam pela sua extraordinária qualidade decorativa e pela novidade da fatura. Lá estavam seus gatos, galos e peixes traçados a bico de pena, nanquim sobre papel branco, num desenho caprichoso, duma finura de renda, contrastando com a relativa simplicidade da estrutura das formas. E o curioso é que essa delicadeza quase feminina não enfraquecia, antes acentuava o vigor viril das figuras.

Os motivos dos desenhos desse moço de Ingazeiras eram de caráter regional e folclórico, com um alto quociente de pitoresco. Lá estava o Nordeste com sua paisagem magra e áspera, seus homens minerais – pedra e cobre – suas rendeiras, seus vaqueiros, suas divindades de origem indígena e africana e suas frutas doces e perfumadas, dessas que “às vezes apodrecem antes mesmo de amadurecer”. É possível e até mesmo provável que um homem incessantemente esporeado por uma curiosidade insaciável, como Aldemir Martins, um desenhista que na infância se encantou com as “nódoas da banana e do caju na roupa da gente, fazendo desenhos belíssimos” acabe fazendo repetidas incursões no campo do abstracionismo. Se isso acontecer (acho até que já aconteceu) só espero que nessas viagens aventurosas Aldemir não esqueça de levar consigo aquela bússola cuja agulha aponta sempre para o Norte de suas origens.” – Érico Veríssimo (1905 - 1975)

“O homem [Aldemir Martins] é vasto, vivido, gerador; santo nunca foi. Mas o importante é que ele soube deixar-se fluir pela intuição dos elementos da realidade do seu meio ambiente cearense, eventualmente aceitando que a razão interviesse, mas apenas na ordenação formal da obra. As etapas seguintes foram os reencontros com as origens e a grandes fases da sua natureza forte – do másculo espaço inicial ao do tempo – e a consequência de uma vaidade no essencial da unidade”. – Jayme Maurício (1927 – 1997)

“O primeiro gesto que o tornou famoso foi a linha rude, quase retilínea, que descrevia os também rudes tipos do seu Nordeste, particularmente o cangaceiro. Outros vieram depois – gatos, galos, peixes, figuras femininas – sempre surgidos de um esquema linear, no qual a silhueta e o desenho interior fortemente acentuado se integravam totalmente, criando o estilo Aldemir Martins – um dos mais fortes e pessoais que o desenho brasileiro já conheceu. Aldemir poderia continuar seus temas e sistemas formais até a exautão, sem que sua arte perdesse com isso – tal a força que dela emanava. Mas o amor nordestino pela cor, insidiosa e irresistivelmente, introduziu- se em seus desenhos e gravuras em preto e branco, até que eclodiu, como uma explosão, sua pintura”. – Flávio de Aquino

“A realidade não é um patamar, mas um degrau da escala interminável. E em cada degrau uma nova realidade espera o novo olhar. Assim é a pintura de Aldemir Martins.

Nas cores de suas cores e nas linhas de suas linhas, nas curvas de suas curvas de sol e de vulva nas frutas de sua mesa e na terra de suas figuras na alfombra de sua sombra e nas flores de sua tarde em todos os seus gatos que de dia são pardos a realidade voa como um pássaro. Operário de todas as cores Aldemir Martins pinta como quem ama e brinca na cama.

E à noite nasce o sol, embrulho de luz deixado no degrau da escada”. – Lêdo Ivo

“A obra de Aldemir Martins significa uma ruptura na Arte Brasileira, a partir do que ele estabeleceu como diálogo, um vocabulário profundamente Nacional, Raiz e Força de uma Terra exuberante, dourada pelo sol. Daí, estas flores, estes frutos nas naturezas mortas, estas figuras de mulheres morenas, estes cangaceiros e estas paisagens, memória de um Nordeste sofrido, estas marinhas, estes caranguejos e gatos, estes pássaros e peixes, tamanduás, estes sapos e borboletas, todos estes seres sabem a Brasil. Admirável, corajoso, ele derrama com vitalidade seu enorme talento, a cada aventura embarcada sem barreiras ou preconceitos, o que prova que a arte serve e sempre servirá para expressar toda a grandeza do sentimento humano, o pulsar da própria vida.

Daí estas pinturas marcam tanto quanto suas cerâmicas, esculturas, desenhos, gravuras, tecidos, móveis, luminárias e jóias.

Eis aí um artista que é também um mágico que a tudo toca e transforma e que por tudo é tocado. Eis aí um homem inteiro, honesto, generoso e amigo. Profundamente amigo, de bem com a vida e com o mundo”. – Emanoel Araújo

“Aldemir nos apresenta, acima de tudo, um obra fina, delicada, com raízes na mais pura tradição do desenho linear, universal pelas afinidades que tem com os mestres orientais sem, contudo, abandonar suas ligações formais com o Ocidente. Nas linhas cheias, cortantes e firmes está contida uma análise delicada, sintética, característica que Aldemir jamais abandonou. De toda sua obra se desprende humor, um bom humor permanente, sem literatura, sem descrições sentimentais”. – José Gomes Sicre (1916 - 1991)

“O desenho de Aldemir
possui inconfundível caráter nacional...”. – Jorge Amado (1912 - 2001)

“Gostaria muito que os artistas nacionais fossem amplamente conhecidos por todas as camadas da população, que a produção cultural brasileira fosse mais divulgada e incentivada, para que meu pai fosse reconhecido por todos, não mais por uns do que por outros e não como “o maior”, “o único”, “o melhor”, mas como mais um dentre os muitos que tentam melhorar a arte nacional e, certamente, um dos mais profundamente brasileiros.

Talvez nesse dia eu saiba responder o que é ser filha de um grande artista e não me sinta mais tão esquizofrênica”. –
Mariana Martins
A Realidade brasileira

Jacob Klintowitz


Aldemir Martins é o moderno artista viajante que registrou e deu fisionomia ao Brasil contemporâneo. A sua missão foi muito árdua. Ele apresentou ao país os animais que habitavam em suas terras, os peixes que nadavam em suas águas, as variadas e multicoloridas plumagens das aves. Além disso, revigorou e mostrou alguns de seus moradores-símbolos, como o cangaceiro e a mulher rendeira. No conjunto descritivo de seu país, este artista viajante não descurou da paisagem e registrou horizontes no limite da credibilidade, as luzes explodidas e fundidas no espaço e o sol, como um deus de energia e claridade, presidia esta atmosfera panteísta. É este o Brasil visto pelo seu filho andarilho, este colecionador de imagens e sensações.


Ninguém registrou a mais íntima realidade brasileira melhor do que Aldemir Martins. Ninguém registrou mais a realidade brasileira. De uma maneira não premeditada, ele fez um percurso completo pelo seu país e mergulhou na sua extensão física, marcou a sua flora e a sua fauna, os seus tipos humanos, os símbolos de sua saga. Mais até do que isso, Aldemir Martins impregnou-se de uma vivência particular e nos devolveu esta experiência única através da expressão plástica, na qual realizou um feito extremamente raro. Estas imagens são, ao mesmo tempo, elas mesmas e referências aos modelos e são, de maneira acentuada, marcas expressivas e estilísticas de um artista. Esta universalidade do particular, a identificação do momento humano e pessoal ao momento coletivo, esta vivência da individualidade e do natural e antropológico, é dado raro em nossa época. Talvez, na cultura especifica da tauromaquia, nós tenhamos um exemplo em Pablo Picasso. Entretanto, em extensão e profundidade. temporalmente alongada e prenhe de um sentimento dilacerado, mistura de observação e memória, é possível que não haja caso igual na arte contemporânea.

As proximidades comparativas do processo pessoal tornam-se tênues, no caso de Aldemir Martins. Há exemplos particulares e delimitados no tempo, momentos em que um artista dedicou-se ao entendimento de sua gente, das raízes antropológicas e do impacto dos elementos naturais. Ou ainda, o que é mais comum, artistas que se dedicaram a registrar e interpretar o páthos de seu povo, concentraram-se na figura humana e foram capazes de expres- sar a solidão e o progresso industrial e social. E. Hopper, o americano das solidões desalentadas, é o melhor exemplo disso e é profético como o estabelecimento da solidão, depois ampliada para o país e sua vivência internacional.

Aldemir Martins é diferente, em sua dinâmica, desses exemplos, aos quais podem ser agregados algumas centenas de outros. Ele não se especializou na vertente psicológica e nem transformou em heroísmo a manifestação primária e primitiva da emoção. Nem Hopper. nem Picasso. Em Aldemir Martins o heroísmo não está manifesto, mas se adivinha na saga de uma memória afetiva transformada, de maneira extremamente humilde e não narcísica, em fato real da existência de um povo e de um país. De tal maneira essas imagens tornaram-se públicas e patrimônio coletivo, que já não saberíamos o que são os nossos peixes, os nossos animais e a figura de cangaceiro, sem esta elaboração pessoal.

O nosso conhecimento passa pelo trabalho de Aldemir Martins, Hoje, a experiência da nação brasileira, a vivência de sua realidade íntima e o percurso do artista, estão unidos. É um prodígio de experiência coletiva quando a criação de um artista organiza as matrizes da percepção de seu povo. Aldemir Martins saiu diretamente deste povo, cruzamento de culturas, e voltou a ele através de sua manifestação artística. O registro e a interpretação individual tornaram-se uma vivência coletiva de percepção e conceituação.

É redundância dizer que Aldemir Martins trabalha com o assunto nacional, com o retrato do Brasil, E não é a verdade completa, uma vez que este retrato não existia anteriormente ao seu trabalho. A definição do país, de uma maneira sutil, foi inventada por Aldemir Martins. Esta invenção, do ponto de vista da criação artística, consiste em descobrir a face universal da imagem, a individualidade única e possível destas imagens e a transformação de signos ou concretitudes em valores simbólicos e psíquicos. Deste ponto de vista, o do processo criativo, Aldemir Martins articulou e tornou forma aquilo que eram aspectos fragmentados da nossa memória, intuição e conhecimento.

Se formos qualificar o artista segundo a sua iconografia manifesta, podemos dizer, contudo, que ele se coloca como um artista que trabalha com o assunto regional e que o seu estímulo nasce da observação do natural. Ele recolhe, observa, estuda, registra os dados da fauna, da flora e da tipologia social de uma determinada região. Esta qualificação e caracterização o diferenciam, em grande medida, da tendência geral da arte brasileira e dos movimentos internacionais das últimas décadas. A arte brasileira, a par destes movimentos internacionais e de suas habituais correspondências eruditas, trabalha com as manifestações da emoção ao nível do gesto, com a emergência de símbolos inconscientes e com a reflexão em torno das formas e suas interferências no mundo da tecnologia, da psicologia, da ciência e no desenvolvimento possível e histórico das próprias formas. Da mesma maneira, as tendências voltadas para a experiência fora das tradições artísticas, ligadas às experiências da psicologia experimental ou da recuperação imaginária de estados sociais primitivos e totêmicos, estão distantes do proceder de Aldemir Martins. Por esta breve qualificação, fica evidente que o artista está fora da corrente principal que informa a nossa arte e não tem correspondência imediata no interesse que é demonstrado em ultrapassar os limites da arte para uma vivência mística, primitiva e totêmica.

Não há limites claros para o exercício da criação de Aldemir Martins. Ele trabalhou em praticamente todos os segmentos existentes na sociedade brasileira. Aldemir, com maestria, exercitou-se nas técnicas tradicionais da pintura, desenho, gravura, cerâmica e escultura. E avançou, de acordo com o avanço dos meios de comunicação do país, nas áreas do desenho industrial, da ilustração e do trabalho eletrônico de séries televisivas. A sua abertura para uma das telenovelas de maior audiência do país, “Gabriela Cravo e Canela”, realizada a partir de romance homônimo de Jorge Amado, é uma das experiências mais emocionantes da televisão brasileira. É uma obra em que o artista junta, numa argamaça única, a sua qualidade expressiva de desenhista e pintor, o seu conhecimento das entranhas emocionais do pais, a sua percepção da comunicação em massa e a utilização dos meios tecnológicos modernos. Nessa abertura, suite preparatória, apresentação do tema, caracterização emocional da realidade e da motivação do telespectador, Aldemir.



Suite notável na nossa arte


Martins interfere diretamente no saber anônimo da população, oferece novos padrões de entendimento e produz uma abertura pioneira das possibilidades inerentes aos processos tecnológicos de comunicação.


Talvez, dada a integridade da motivação e da iconografia pessoal, não haja realmente limites para o artista moderno. Outra afirmação de nossa época. É por isso que o artista pode fazer padronagem de tecidos, ilustração de objetos cotidianos, decoração de formas industriais, murais e, ao mesmo tempo, conservar íntegro e em expansão o seu universo particular, a sua iconografia pessoal e a empatia entre o seu saber e o saber de seu povo.


Esta gama ilimitada de meios utilizados demonstra a participação do artista em sua época e no processo particular de seu país. Não é. simplesmente, que Aldemir Martins seja um artista múltiplo. É, antes de tudo, a verificação de que a época é múltipla e esta variedade pode ser fertilizada pelo saber individual, Não há. na ação do artista, uma discriminação entre o Bem e o Mal e ele não divide o mundo maniqueisticamente. O sol, deus de luz a presidir o seu universo cruel e veraz, é senhor de todos os seres e de todas as situações. O predador e a presa são, igualmente, criaturas do mesmo senhor.


Entende-se por que a sua obra, tão freqüentemente aproxima-se de manifestações primitivas como as africanas ou as etruscas ou, também, de anônimos registros em cavernas pré-históricas Ou, ainda, como seu desenho pode apresentar pontos de contato com o elaborado desenho oriental, realizado a partir de uma percepção zen da realidade. O processo de criação, a integração entre a mão e a mente, entre o sentimento e a memória, entre a intuição e o modelo representado, entre o ato de fazer e o ato de ser, são semelhantes. Aldemir Martins entrega-se a si mesmo. É um caçador na espreita de sua presa e é, simultaneamente, a paisagem onde está inserido, a própria presa e uma criatura semelhante às outras criaturas, obedece às mesmas leis e tem o mesmo senhor solar que ilumina e alimenta a vida.


Nas suas explosivas manifestações verbais, na enunciação das verdades intuídas e verificadas, na sua habitual não demonstração de sua realidade, Aldemir afirmou em entrevista: “O meu moderno é antigo”. O artista identifica a semelhança entre as ações humanas em várias situações. Ele não necessita discursar sobre o totêmico ou o espaço mágico da casa e da aldeia, pois, no seu trabalho, ele reafirma o caráter religioso da arte ao promover a integração entre o ver e o ser, entre o fazer e o objeto criado, entre a memória e o que é, entre a sua insaciável sede de conhecimento e o Universo como objeto de respeito, amor e fonte de vida. Aldemir Martins, dentro da modernidade de suas formas, utilizando todos os recursos con- temporâneos disponíveis, cria formas impregnadas de sacralidade.


Aldemir Martins é um caso único de unanimidade social. A sua correspondência é farta em depoimentos de escritores, poetas, pintores, anônimos. Todos encontram em seu trabalho fonte inesgotável de energia e conhecimento. Não é necessária uma explicação demorada para cada trabalho. Ele encontra eco na vida das pessoas. E, também, não é necessário ser um especialista em linguagem para perceber do que se trata. Ele ultrapassa a margem da arte brasileira e rompe com a sua secular solidão. Em Aldemir Martins não se passa essa dissociação entre público e obra de arte. Certamente, além das qualidades formais de seu trabalho, existe na sua obra uma carga de ancestralidade e do vigor primordial da sacralidade. Criar pode ser a repetição da primeira criação, a criação do mundo. Esta recuperação do mito primeiro confere sacralidade ao ato criativo, autentica o processo e comove e torna as pessoas, através da identificação, agradecidas e cativas da imagem.


Um trabalho de Aldemir Martins é facilmente identificado. O artista tem uma invisível marca registrada. Isto é um Aldemir Martins. Uma vez conhecido, ele é sempre reconhecido. Não só porque estilisticamente haja coerência entre as formas, mas porque elas, pelo seu lado, marcam, também, o interlocutor. O diálogo impede a indiferença e a indiferenciação. Podemos dizer, esta obra é de Aldemir Martins, como é comum afirmar entre a população brasileira na sua relação com o seu artista mais conhecido. E, da mesma maneira, também é possível afirmar: esta é a população brasileira. Aldemir Martins formaliza os fragmentos formais contidos nessa população, mas, mais importante do que isso, ele recupera para o seu país e a sua população o caráter sagrado de sua vida coletiva.


Aldemir Martins lembra os artistas viajantes do país, aqueles que vieram com expedições científicas e políticas e se dedicaram a registrbos usos, os costumes, as pessoas, a flora e a fauna. Na ausência de instrumentos éticos e eletrônicos de registro, o artista tinha o papel de fazer a memória do conhecimento. Uma espécie de inventário do paraíso. É forçosa esta comparação. Mas as diferenças são acentuadas e valorizam e individualizam o artista.


Em primeiro lugar, há esta individualidade. Aldemir Martins não está preocupado em ser veraz, do ponto de vista naturalístico. A sua obra não servirá para estudos acadêmicos em universidades distantes. E ele sabe do uso contemporâneo de instrumentos de registro. Mas, ao não pretender a objetividade do naturalismo, Aldemir Martins é mais veraz do que os viajantes, pois a sua observação traz para dentro da realidade a figura do observador. Ele não pretende esta objetividade desprovida da individualidade. Ao contrário, ele se revela a partir dessa individualidade. Essa diferença é notável e mareante.


Por outro lado, Aldemir Martins não está deslumbrado com o paraíso dos trópicos. A sua visão da realidade é mais complexa, não é exótica e idealizadora. A vida é bela pela sua dinâmica, não por uma visão adulcorada e falsificada. A beleza, se é que ela se coloca nesta obra, é a verificação de uma natureza feroz, lírica e comovente, iluminada panteisticamente e energizada por Apolo. O mundo é.


Aldemir Martins faz, a partir de diferenças tão marcantes, uma viagem diferente. Ele não precisa percorrer as extensões geográficas. ainda que o tenha feito, pois o seu mergulho é em direção a si mesmo.


Rememorar o existente, o visto e sabido, o conhecido e o escutado, é uma maneira de conhecer a si mesmo, Aldemir Martins se coloca. como artista, no mesmo universo de seu objeto de estudo. Ao fazer o itinerário do existente, ele descobre a si mesmo, ser atuante dessa mesma realidade. O que está lá fora é o mesmo que está aqui dentro.


Numa estada em Roma, Aldemir Martins alimentou e consolou a sua saudade com pequenos desenhos. Verdadeiras anotações, desenhos traçados diretamente, sem planejamento, anotações de sua alma e de sua saudade.


Nostalgia, saudade de seu lugar. Desenhos memorialísticos, pequenos esboços de um olhar para dentro, vivência mágica realizada através da imagem, viagem para dentro de si mesmo, itinerário imaginário de sua memória, recuperação de seu saber e oração em honra de suas emoções. Esta série memorialística é uma suite notável na nossa arte e a repetição do processo do artista. Ver e registrar o seu país como uma maneira de tornar, para si mesmo, mais evidente a sua existência. O desenho como criador do mundo e do ser. A mão empenhada na formalização de conceitos, o gesto determinado e sem correções como ponto essencial de contato, como sentimento do mundo e como verificação de que o que é, é, e a realidade não é fruto da imaginação, mas um sistema aberto e intercomunicante entre o ser e o ser do mundo.





No dia 6 de fevereiro de 2006, o escorpião que destilava o preto na cor e sonhava colorido, vagando igual coruja, feneceu igual flor, sob as cinzas de uma São Paulo em calor, deixando um legado de sonhos, os quais, inclusive, ele se deu ao luxo de sonhar e viver.



“Não posso fugir à temática nordestina.
Não posso negar a influência de tudo o que eu mastigo, respiro, como e vivo...”.

Aldemir Martins


Nathalie Bernardo da Câmara

2 comentários:

  1. Cara colega Nathalie!!! Estou impressionada com o material que você postou. Está de parabéns, pelo blog, pelo empenho em mantê-lo, pelas ilustrações, enfim! Vou retornar outras vezes para encontrar coisas bacanas e do bem!!! Grande abraço!!!

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  2. Gostei muito Nathalie.
    Ademir Martins é um dos meus ídolos na área linear e pictórica. Seus cangaceiros desenhados a nanquim são modelos de expressividade insuperáveis.
    A temática nordestina teve nele um dos seus maiores mestres e até hoje ele é uma referência forte para muitos artistas nordestinos ou de outras regiões.
    Um abraço.

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