sábado, 14 de maio de 2011

QUE SEJA FEITA A VONTADE DE DEUS?


PARTE III

ADÃO, EVA E A SERPENTE



GOSSAERT, Jan (Jan Mabuse) – Adam and Eve – c. 1525 – Oil on oak panel, 170 x 114 cm Staatliche Museen, Berlin.

“A diferença entre o bem e o mal tornou-se caduca – são categorias como o calor e o frio, o doce e o amargo. E cada uma delas tem o seu justo lugar em justas proporções...”.

Giordano Bruno (1548 - 1600)
Filósofo e dominicano italiano.



Não conheço quem, quando criança, não tenha ouvido falar de Adão e Eva. E nunca importou se a história contada era ou não verdadeira, visto ser apenas mais uma das inúmeras a nos entreter, alimentando o nosso imaginário: Chapeuzinho Vermelho, Alice no País das Maravilhas, Branca de Neve e os sete anões, Ali-Babá e os quarenta ladrões, Sítio do Pica-pau Amarelo etc. Porém, hoje, percebo que o enredo da história de Adão e Eva extrapola a fantasia, sendo, inclusive, um acinte a mais fértil e criativa das mentes infantis. Afinal, como Deus criou Adão a partir do barro e, de um sopro de vida dado em suas narinas, o tornado um ser vivente? Nem um mágico conseguiria tal proeza! Muito menos criar Eva, nos moldes em que criou, a partir de uma das costelas de Adão...

Enfim! Criados o homem e a mulher, Deus, então, fez-lhes livres. Tão livres que nem vestes tinham a cobrir os seus respectivos sexos, exibidos, inclusive, vinte e quatro horas pelos cantos e recantos do Jardim do Éden, onde eles moravam. O lugar, aliás, criado para o casal e os seus descendentes, era o que poderia ser chamado de Paraíso. Rios banhavam e drenavam o Éden e árvores frutíferas pairavam por toda parte. Duas delas, contudo, se destacavam das demais e possuíam poderes especiais. Uma era a árvore da vida, cujo fruto, se ingerido, concederia a Adão e à Eva a condição de imortais; a outra era a árvore dos frutos que detinham o conhecimento de dois princípios opostos que, um dia, viriam fundamentar as bases da doutrina maniqueísta, ou seja, o bem e o mal.

Um gesto magnânimo, eu diria, o de Deus proporcionar tamanhas benesses as duas criaturas – o primeiro exemplo de generosidade nessas proporções, aliás, da História da humanidade. Só que, como reza um dito popular, quando a esmola é grande o santo desconfia... O fato é que, do alto do seu pedestal, Deus impôs uma restrição ao casal, que, diante de tantas liberdades, entendeu que não havia mal nenhum em aceitá-la. Afinal, era apenas uma única restrição: a de não comer os frutos da árvore do saber. Nada demais! Só que, não tardou muito, eis que Eva, em uma das suas andanças pelo Jardim do Éden, depara-se com uma serpente, que, astuta, recorrendo a uma gíria atual, faz a sua cabeça, como se, por ser mulher, a companheira de Adão fosse desprovida de discernimento...

Bom! Acompanhando, portanto, a recém-criada representante humana do sexo feminino em seu passeio, a serpente a conduz até a árvore do conhecimento – simbolizada por uma macieira. Porém, lembrando da advertência feita por Deus, Eva hesita, mas, como não ceder à dita tentação diante de um fruto de aroma agradável, de textura macia e de aparência tão bela e atraente como a maçã? Não deu outra! Eva come do fruto proibido, deliciando-se, logo convencendo Adão a fazer o mesmo. Detalhe: eles desconheciam a penalidade para tal infração. Assim, tão logo descobre a desobediência do casal, que foi a de ter cometido o chamado pecado original, Deus não hesita e é inclemente, revelando, pela primeira vez, a sua verdadeira face: a de um déspota, incapaz de perdoar.

Abusando, então, do seu poder aparentemente ilimitado e supremo, Deus decide banir Adão e Eva do Jardim do Éden, deportando-os para o mundo da mortalidade, evitando, assim, com o seu gesto, que eles também provem do fruto da árvore da vida, que lhes garantiria a imortalidade. Curioso... Afinal, considerado todo-poderoso, se Deus não perdoou o casal por algo tão banal, que foi comer uma simples maçã, como, em 2000, o papa João Paulo II (1920 - 2005) queria que o mundo perdoasse a Igreja católica pelos crimes cometidos ao longo dos seus dois mil anos de História? Enfim! Além de tirano, Deus mostrou que também era vingativo e, caso fosse contrariado, capaz de represálias, exalando arrogância. Desse modo, findo o idílio, Adão e Eva são expulsos do Éden e vão sabe-se lá para onde.

Enquanto isso, Deus designa querubins, portando espadas flamejantes – quanto delírio! –, para vigiar a árvore da vida, a fim de evitar que se, porventura, Adão e Eva retornassem fossem impedidos de comer dos seus frutos. Ocorre que, já instalado no exílio, o casal nem sequer vislumbra um possível retorno ao Jardim do Éden. Afinal, libertos do jugo de Deus e condenados à liberdade, apesar do fantasma da mortalidade pairar sobre as suas cabeças, Adão e Eva descobrem os prazeres da carne e dão à luz a Caim, que se tornará um lavrador, logo seguido de Abel, que irá preferir ser pastor. Porém, lá pelas tantas – os dois irmãos já grandinhos –, uma desavença entre eles marcará, definitivamente, segundo dizem, o destino da humanidade. E que destino!

Essa história, inclusive, que dá início ao Antigo Testamento, não termina, obviamente, por aí. Só que não tenho a intenção de versar sobre a sua seqüência, sobretudo porque a minha proposta inicial, desde a primeira parte do texto Que seja feita a vontade de Deus?, intitulada Alhos e bugalhos, foi a de apenas tecer alguns comentários sobre Saramago ao escrever Caim, publicado em 2009, e a sua repercussão, embora eu não tenha resistido e divagado sobre alguns dos temas contemplados pelo escritor. Além do mais, outro motivo que não me desperta interesse em incursionar pelo Antigo Testamento é por considerá-lo um desrespeito ao bom senso. Isso sem falar que, em seu universo ficcional, certos episódios são puro surrealismo, que não aprecio.

Tipo os filmes do cineasta italiano Fellini (1920 - 1993), permeados de delírios. Desse modo, os textos bíblicos como um todo não são uma das minhas preferências literárias. Tanto que, particularmente, eu nunca faria da Bíblia, considerada sagrada para muitos, o meu livro de cabeceira, sendo vários os motivos que me levam a pensar assim. Entre eles, a quantidade de crimes, as mortandades, as carnificinas, os extermínios, as guerras insanas, os assassinatos em família, as escravidões, as torturas, os martírios, os incestos, os sacrifícios inúteis, os preconceitos, as discriminações, as violações aos direitos humanos, os atentados cometidos por personagens divinamente bíblicas – só gente do bem! – e todo um requinte de crueldades minuciosamente descritas em suas páginas.

Assim, diante de cenário tão desolador, as minhas noites seriam de pesadelos... O filósofo brasileiro Alexandre Montagna, por sua vez, questionando a fé, ressaltou que, paradoxalmente, “os mais alienados, os homens-bomba, os assassinos, racistas, machistas e homofóbicos deste planeta são aqueles que possuem fervorosa fé em suas crenças” religiosas. Segundo ele, 75% da população carcerária dos Estados Unidos, por exemplo, é cristã e apenas 2% ateísta. E o filósofo prossegue: “Traficantes carregam um grande crucifixo no peito; criminosos e marginais picham os muros com Jesus salva após matarem um casal na esquina para lhes roubas as jóias; políticos erguem a Bíblia nas mãos, fazendo média com a parcela crente do eleitorado e cometem as maiores barbáries governamentais”.

Em sua opinião, a fé seria apenas “uma ferramenta de manipulação”, sem falar que a Bíblia ainda ousa dizer que os ateus é que são “tolos”... De qualquer modo, não há motivo algum para a reação de hostilidade do Vaticano diante, por exemplo, de quem diverge de valores católicos, recheados, inclusive, de machismo. O pior é que não poderia ser diferente, já que, desde os seus primórdios – é público e notório –, o catolicismo é regido, unicamente, pelo patriarcado, que engendrou Deus, substantivo masculino, que, por sua vez, é tido como o suposto criador do universo, incluindo a criação da espécie humana, cujo primeiro exemplar, que teria sido Adão, foi um homem. Não poderia ter sido uma mulher? Não, algo, aliás, inconcebível para mentes obtusas.

Ah! Falando nisso, a criação de Adão por Deus é qualquer coisa de erótico. Afinal, a quem foi que Deus recorreu para inserir no mundo já criado uma criatura que fosse a sua imagem-semelhança? Ao barro, a mãe terra, fecunda... E teria sido dessa relação que surgiu uma forma chamada de humana, moldada a partir da argila, apesar de lhe faltar vida, mais parecendo um natimorto. Mas, não demorou muito – provavelmente depois de um insight –, Deus, através de um simples sopro na recém-invenção, torna-a um ser vivo chamado de Adão. Agora, quanto à criação da mulher, não tão poética – convenhamos – como a do homem... Afinal, se pretendia entregar-se ao descanso eterno no dia seguinte, Deus agiu de má fé ao criar Eva. Ou já estava com preguiça, sem quase mais nenhuma inspiração.

Um ato falho, pois, depois disso, ainda não descansou, já que, até hoje, muitos não tiram o seu nome da boca, sempre a evocá-lo, seja para agradecer por uma graça alcançada ou para reclamar de uma desgraça. O fato é que, para os crentes, Deus continua na ativa. E, pelo andar da sua carruagem, que, por onde quer que ela passe, tem enfrentado as avarias do tempo, resultantes do aquecimento global e demais disfunções ambientais, ele está cada vez mais intolerante. Enfim! Eva também teria sido fruto de clonagem ou de transplante, como algumas vozes andam a sugerir? Tudo indica que de clonagem, já que só se caracteriza transplante quando existe um corpo material e, no caso, o de Eva ainda não existia, já que ele só passaria a existir após a retirada de uma costela de Adão.

A Bíblia, contudo, não explica como se deu tal procedimento, que se subtende cirúrgico – o que, tudo indica, não aconteceu. A não ser que tenha rolado um pozinho mágico emprestado à fada Sininho para dar vida ao osso de Adão... Bom! Sabe-se, apenas, que “Deus mandou ao homem um profundo sono e, enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela” (Gênesis 1,11 – 21). Pelo visto, Deus não sabia o que era ética, já que o ingênuo Adão não tinha o menor conhecimento dos seus planos escusos, que eram o de sedá-lo e, em seguida, retirar uma das suas costelas. O episódio torna-se ainda mais bizarro porque sabemos que transplante consiste na reposição de um órgão, tipo coração, pulmão, rim, pâncreas, fígado... Ou até mesmo de tecido, seja da medula óssea, de alguns tipos de ossos, de córneas...

Nunca de uma costela, já que, na medicina, quando se retira uma é, apenas, segundo pesquisei, com finalidade de um autotransplante, sendo o doador o próprio receptor, quando, por exemplo, um dos seus ossos está danificado e necessita de uma restauração. Daí nunca ter sido feito um transplante de costela. No máximo, da sua cartilagem, enquanto tecido. Nada mais! Por isso ser mais sensato defender a teoria evolucionista do naturalista britânico Charles Darwin (1809 - 1882) do que acreditar em uma história para lá de inverossímil. Por outro lado, se levarmos em consideração a versão bíblica, Deus e Adão foram pioneiros em muitas coisas. Deus, por exemplo, apesar de incorpóreo, teria sido o primeiro ser a ser clonado, já que, dizem, Adão é a sua imagem-semelhança.

Além disso, visto que Deus criou Eva de um simples osso de Adão, não tendo sido o procedimento um transplante, ele também teria sido o primeiro dos mágicos. E mais! Se Deus sedou Adão sem o seu conhecimento, não havendo, portanto, por parte do doador, nenhuma autorização para a retirada do osso, ele teria sido o primeiro dos traficantes de órgãos, ou melhor, o primeiro e único traficante de costela, já que a única transplantada na História da humanidade que se tem notícia foi a de Adão. Só que, aí, existe um problema. Não existia corpo para receber a costela doada. Daí tudo não ter passado de uma clonagem, apesar do clonado não ter autorizado-a, o que nos leva a reconhecer que Deus cometeu um ato ilícito, que, se fosse hoje, dava um processo criminal daqueles!

Agora, só nos resta saber qual das vinte e quatro costelas foi retirada de Adão para a criação de Eva... E qual costela era: verdadeira, falsa ou flutuante? Falando nisso, parece que a população do Jardim do Éden, compreendendo seres corpóreos ou não, era, deveras, flutuante, já que Deus tinha o péssimo hábito de banir do pretenso Paraíso quem o desagradasse. Aconteceu a Adão e a Eva; aconteceu a Lúcifer, que, anjo de luz, não media esforços para iluminar a consciência de Deus. Ocorre que Deus nunca foi chegado a uma concorrência, embora – espanta-me – tenha demonstrado fraqueza ao temer um anjo, embora nem precisasse, já que Lúcifer era seu subalterno. Afinal, o único empenho do anjo de luz foi o de tentar evitar que Deus causasse maiores estragos.

Sim, porque, qual o sentido de criar a espécie humana se, por qualquer motivo besta, Deus já a punia? Assim, por não querer reavaliar os seus atos, o dito todo-poderoso teve o desplante de criar a, hoje, tão famosa propaganda enganosa, a fim de difamar Lúcifer, que, só por querer salvá-lo, terminou caindo em desgraça... E caiu. Tanto que, desde os tempos mais remotos, Deus é um membro virtual, por exemplo, da maioria das famílias ocidentais. Ao coitado do Lúcifer, por ter querido ajudar? Padecimento, além da acusação de ser culpado pelas tragédias acontecidas no mundo, fruto, a bem da verdade, da ganância humana. O dilúvio, por sua vez, por exemplo, foi registrado no Antigo Testamento como obra e graça exclusivamente ditas divinas.

Sim, porque Lúcifer não teve nada a ver com isso, muito menos Adão e Eva. Enfim! Cada um, se assim for a sua vontade, seja adepto da religião que quiser – ou não seja de nenhuma – e siga não importa qual livro considerado sagrado, seu referencial – ou não siga nenhum –, mas, que o faça sem fanatismo nem proselitismo, tentando manter o bom senso. Se é que isso é possível... Agora, que Eva foi a primeira feminista da História da humanidade foi, pois assumiu o seu desejo – a influência da serpente foi nula – de comer uma singela maçã, que, aliás, se é tão poderosa assim, capaz de mudar os nossos rumos, a nossa dieta diária básica deveria se constituir, portanto, em uma cesta do fruto, bastante nutritivo e rico em pectina, que contribui para a redução do colesterol no sangue.

Então! O fruto dito proibido, que, por ter sido mordido, causou o maior estardalhaço no Jardim do Éden, possui, ainda, vitamina B1, que estimula o apetite, o desenvolvimento do corpo e o bom funcionamento do sistema nervoso, músculos e coração; vitamina B2, importante para o equilíbrio da pele, metabolismo das enzimas, olhos, células nervosas etc; niacina, que aumenta o bom colesterol; ferro e fósforo, além das suas propriedades adstringentes, excelente para a garganta e cordas vocais, bem como evita problemas intestinais. Quanto a Caim (2009), de Saramago... O livro resume-se a narrar a redenção do primeiro assassino/fraticida da História, expondo, caso a caso, como diz o autor, “a maldade de deus”. Este será o tema da quarta parte dessa série de textos.


Nathalie Bernardo da Câmara


Em tempo: postagem originalmente publicada neste blog em 1/6/2010. Teriam mais duas partes, com reflexões sobre Caim e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), de José Saramago (1922 - 2010), mas, após a morte do escritor português, ambas estão suspensas.

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