segunda-feira, 16 de julho de 2012

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA BÍBLIA, TINHA UMA BÍBLIA NO MEIO DO CAMINHO...

 Fotos: Nathalie Bernardo da Câmara

“A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana...”.

José Saramago (1922 - 2010)
Escritor português.


Intrigou-me a informação de que, em Natal, no Rio Grande do Norte, a prefeitura local ergueu um monumento a um livro, no caso, a Bíblia, numa das praias da cidade, a do Meio, próximo à subida da Ponte de Todos, que dá acesso à zona norte da cidade, bem como ao litoral norte do Estado... Fui conferir.

Nos anos noventa, a Câmara Municipal de Natal aprovou um projeto que previa a edificação de um monumento a Bíblia na cidade, embora, à época, arquivado pela prefeitura. Porém, desengavetado pela atual gestão, o projeto realizou-se e, no dia 16 de julho de 2011, há exatamente um ano, o referido monumento foi inaugurado. O local, portanto, onde foi edificada a obra – não vou entrar no mérito da sua qualidade arquitetônica –, fica no que inicialmente foi chamado de Complexo Esportivo Alvamar Furtado de Mendonça; depois, caracterizou-se como uma área de lazer, na qual havia uma praça com o busto do escritor, jornalista, jurista e desportista norte-rio-grandense (1915 - 2002), que datava de 2004; um espaço com equipamentos para exercícios físicos e um minicampo de futebol. Não obstante, para concretizar a homenagem, retiraram o busto de uma personagem ímpar na História do RN, para substituí-lo pelo monumento que, na verdade, levou as alturas não apenas um pedaço de concreto em formato de livro para representar a Bíblia, mas quatro, um de cada lado, tipo quatro exemplares da mesma, fora o bloco de sustentação, outro de mármore em declive e um globo terrestre aprisionado; da praça, nem sinal! De igual modo, os equipamentos para exercícios físicos, que ficavam entre a praça e o minicampo de futebol, também foram retirados. À ocasião, segundo a jornalista Salésia Dantas, o então secretário municipal de Serviços Urbanos (Semsur) Cláudio Porpino disse que a retirada dos equipamentos justificava-se porque os mesmos estavam desgastados pela maresia, que havia enferrujado-os, e que, posteriormente, outros novos iriam substituí-los, tipo uma “academia popular”, inspirada nas Academias da Terceira Idade (ATIs) que a prefeitura estava implantando em diversos bairros de Natal. A revitalização da praça, por sua vez, fazia parte do Programa de Recuperação de Praças que a prefeitura deveria executar em três meses. Enfim! Nada de busto, nada de praça, nada de equipamentos para os exercícios físicos dos que caminham no calçadão da orla marítima ou na areia das praias... Só o minicampo de futebol. E sem manutenção, além, claro, do monumento a Bíblia, que, literalmente ao relento, já dá sinais de abandono e sofre com erosões provocadas pelas chuvas – não foram à toa as polêmicas geradas à ocasião de tal decisão, ainda mais considerando que a população local sequer foi consultada. Isso sem falar no objeto da homenagem...

Certa feita, o escritor e editor britânico George William Foote (1850 - 1915) declarou:

— As mulheres ainda sentirão orgulho por nunca terem contribuído sequer com uma linha na redação da Bíblia.

Curiosamente, em Natal, foi uma mulher que decidiu executar o projeto do monumento a Bíblia, a prefeita da cidade, jornalista e empresária Micarla de Souza. Até aí, tudo bem. Ocorre que, como se já não fosse tendencioso o fato do autor do projeto, do vereador que o apresentou e do arquiteto que pôs o seu traço na homenagem serem evangélicos, a prefeita se converteu no segundo semestre de 2011, tornou-se evangélica – dá uma charge, embora não seja o meu intuito questionar as crenças de quem quer que seja, mas o fato é que a prefeita até que poderia erguer uma, duas ou mais edificações reverenciando o livro em questão, quantas ela quisesse, só que no quintal da sua casa, no templo religioso que frequenta ou em qualquer outro lugar, desde que fosse um espaço privado, não público. Afinal, a laicidade do Estado brasileiro não permite esse tipo de iniciativa, muito menos que ela parta seja do poder municipal, estadual, distrital ou federal – nenhuma dessas esferas tem autoridade para isso, caracterizando, contudo, caso o faça, uma instrumentalização do Estado. Isso sem falar que, por ser um livro que registra os mais diversos tipos de violência praticados pela dita humanidade ao longo da sua História – chega a ser acintoso –, se já é uma afronta a muitos adultos, a leitura da Bíblia nem deveria ser aconselhada a crianças e a adolescentes. O mais grave, ainda, é que muitas igrejas – não diria nem religiões – recorrem a esse livro para arregimentar fiéis. Enfim! Fico a imaginar... E se um grupo organizado de marxistas resolvesse, por exemplo, erguer um momento aos quatro tomos (1867 - 1905) de O Capital, obra-prima do filósofo, teórico e economista alemão Karl Marx (1818 - 1883), ou, então, ao Manifesto do Partido Comunista (1848), do mesmo autor e em parceria com o também teórico alemão Friedrich Engels (1820 - 1895), ou, ainda, se os muçulmanos fincassem os pés e, em meio a um arranca-véus daqueles decidissem erguer um monumento ao Alcorão em espaço público? Já imaginaram, digamos – outro exemplo –, se os judeus quisessem pôr uma imensa Estrela de Davi no alto de uma escultura não importa em qual praça pública? Os neonazistas, por sua vez, não deixariam por menos e, com certeza, iam querer fixar uma suástica em cada esquina do país – seria o caos. Desse modo, sem defender nenhuma das possibilidades mencionadas, mas reconhecendo o direito de cada um de homenagear, materialmente falando, o objeto de seu culto, desde que o faça num ambiente privado, a prefeitura de Natal não poderia, em hipótese alguma, ter patrocinado o monumento a Bíblia numa das praias da cidade, já que a iniciativa fere os princípios de laicidade do Estado brasileiro – princípios esses, aliás, contidos na Constituição Federal.

E o mesmo vale para o monumento em homenagem aos 10 Mandamentos bíblicos, erguido por iniciativa da Igreja adventista, mediante a autorização das autoridades públicas locais na principal praça da cidade de Tavares, no Rio Grande do Sul, no dia 28 de abril deste ano, tal qual fizeram as também cidades gaúchas de Viamão, Taquara e Rio Grande. O fato é que, para ser erigido, um monumento deve, a priori, reverenciar a memória de fatos ou de personalidades históricas – e sem conotação religiosa –, não de livros, que, em si, comportam ideologias. Agora, imaginem se desse na telha de todos e todos resolvessem sair por aí a edificar monumentos a não importa qual livro de sua predileção! E quem tivesse mais de um livro de cabeceira, como seria? A questão, então, lembra outra, a respeito da qual, inclusive, muitos têm emitido a sua opinião, que trata da decisão, tomada este ano pelo Conselho da Magistratura do tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), de que sejam retirados crucifixos e demais símbolos religiosos de todos os espaços públicos vinculados à instituição no Estado – obviamente que tal decisão causou polêmica. E, como eu disse à época, deve ser levado em consideração que, apesar de o Estado brasileiro respeitar a liberdade ideológica e religiosa, entre outras, “não significa que, por isso, toda uma população tenha a obrigação de conviver e dividir espaços tidos como públicos com imagens ditas sagradas”, ainda mais com todo o simbolismo que nelas está impregnado. Os credos, portanto, são pessoais e, quando grupais, não têm de, necessariamente, serem socializados além dos adros dos templos onde são cultuados. Para muitos, contudo, a decisão do TJ-RS deveria ser extensiva a todo o país, sendo, assim, uma iniciativa a ser tomada pelas autoridades competentes a nível federal. Para o professor adjunto de Direito Constitucional da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Procurador Regional da República Daniel Sarmento, em declaração durante evento sobre o ensino religioso nas escolas da rede pública, realizado em maio deste ano e divulgado pela revista Fórum no dia 1º de junho:

— A laicidade do Estado significa que ele deve ser neutro em matéria religiosa e isso não quer dizer que ele seja ateu ou agnóstico, quer dizer que o Estado não tem posição, deve respeitar todas as posições religiosas, mas não pode endossar nenhuma delas.

Em relação à postagem que me referi anterioremente, publicada no dia 3 de maio deste ano e intitulada Culto ao personalismo: nada mais démodé!, nela está inclusa a transcrição do texto Territórios livres, de autoria do escritor brasileiro Luis Fernando Veríssimo, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo no dia 22 de março, que – diga-se de passagem – aborda o assunto de maneira extremamente pertinente. Aos interessados, é só clicar no link: http://abagagemdonavegante.blogspot.com.br/2012/05/culto-ao-personalismo-nada-mais-demode.html


Enquanto isso, noutra dada praia de Natal...



Erosão provocada por chuvas:



E poluição a céu aberto!


O que fazer?

Nathalie Bernardo da Câmara

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