segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

“Se ousar contra ele [Lula, o criador],
a criatura [Dilma] sabe que a tempestade não lhe será leve...”.

Dora Kramer
Jornalista brasileira, em artigo intitulado Continuísmo



Em meados do seu primeiro mandato presidencial, perdi a confiança em Lula – e tinha votado nele –, deixando de me surpreender, portanto, com não importa mais qual ação empreendida por seu governo. Tanto que, hoje, não me espanta o fato de que, apesar do seu segundo mandato ter sido oficialmente encerrado no dia 1º do corrente, a sua influência, para não dizer tentáculos, ainda continua a pleno vapor, mas apenas a poluir o ambiente, ou melhor, o governo da sua sucessora, a presidente recém-eleita Dilma Rousseff, cuja posse, inclusive, mais pareceu um déjà vu. E em todos os aspectos, pois apenas ressaltou o óbvio, ou seja: não é necessário esperar seis meses ou um ano para saber qual será a cara do novo governo.

Bastou assistir a posse de Dilma como presidente do Brasil e a nomeação dos seus ministros, bem como ouvir o seu discurso, sobre o qual, aliás, me dei à liberdade de comentar algumas passagens. Afinal, no megaevento onde se constituiu o fato, impossível não perceber que a tragédia Sem medo de ser feliz pode até ter encerrado a sua última temporada, mas muitos dos seus atores não saíram de cena, visto que, amparados por contratos previamente assinados, de há muito já estavam, juntamente com outros colegas de métier, escalados para integrar o elenco de outra produção teatral, ou seja, Aonde você for eu vou atrás...





O detalhe é que o roteiro da nova peça é praticamente similar a anterior – o que também não é nenhuma surpresa, já que ambos foram escritos pelo mesmo autor. Na verdade, o que ocorreu no último sábado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília – palco onde costuma se desenrolar os principais atos de todas e quaisquer tragédias (dramas também) interpretadas pela trupe tupiniquim –, foi, apenas, uma avant-première do grande espetáculo que está por vir. Nada mais, independentemente dos cenários, que permaneceram os mesmos, embora tenham sido feitas algumas alterações na figuração. Enfim! Dois momentos do evento, em particular, chamaram a minha atenção, que foram o discurso do senador José Sarney (PMDB-AP) e os efusivos abraços de Lula em Dilma.

No primeiro caso, a presença do senador José Sarney (PMDB-AP) na posse de Dilma tem até, no quesito cerimonial, uma justificativa, já que compete ao presidente do Congresso Nacional – e ele o é, infelizmente – fazer as honras da casa na posse de um presidente eleito. Porém, o que atraiu os meus sentidos, sempre tão atentos, foi o seu discurso, recheado, aliás – era-se de esperar, pois é do seu feitio –, de demagogia. Ué! Não decorou as falas? Afinal, PhD em falácia, nem precisaria de script... O mais louco, contudo, é que – tudo indica –, de há muito ele deve ter perdido a noção do ridículo, já que é pública e notória a sua capacidade camaleônica em se adaptar a não importa qual situação, sobretudo se o contexto for político, apenas com o objetivo de obter vantagens pessoais.

O pior é que – basta observar o seu modus operandi – a necessidade de alimentar um ego – o seu – cada vez mais sem fronteiras, termina por fazer o senador José Sarney (PMDB-AP) esbarrar na ética... Eu, particularmente, confesso que não entendo como ele consegue incorporar tantas personagens! Vai ver, o segredo da sua inspiração encontra-se nos próprios romances que escreve. Bom! De qualquer modo, o mais deprimente, além da sua presença, foram as suas palavras, embora eu não tenha nada com isso, pois não faço parte da trupe, sobretudo depois que ele e Lula tornaram-se unha e carne – quem diria! Falando em Lula, eu queria ter contado quantos abraços ele deu em Dilma... Coitado! Tudo o que o infeliz mais queria era não ter de se desvencilhar do aconchego da seda verde-amarela, matéria-prima da faixa presidencial.



A era Dilma


“O apego não quer ir embora. Diaxo, ele tem que querer!”.

Maria Gadú
Compositora e cantora brasileira



Em um sobe e desce exaustivo de rampa, tudo nos conformes do cerimonial do evento, que, infelizmente, não previu o cansaço da platéia – e só de olhar o ritual! –, eis que, finalmente, Lula transmite a faixa presidencial à Dilma. Ocorre que uma das coisas que o cerimonial também não previu foi o abatimento que acometeu o ex-presidente no momento do gesto. Em contrapartida, os chargistas fizeram a festa! Resta, agora, pelo poder que o cargo confere, resolver um qüiproquó lingüístico, ou seja, daqui para frente, como diremos: presidente ou presidenta? As duas formas estão corretas, mas, segundo o professor de língua portuguesa Pasquale Cipro Neto: “Vai ser o uso que, de fato, vai definir o termo. Como acontece na Argentina, em que Cristina Kirchner faz questão de ser ‘la presidenta’, não vai haver saída que não seguir a vontade da própria eleita”.

Enfim! Discurso vai, discurso vem... O de Dilma, por exemplo, tecnicamente falando, foi bem redigido, evitando os floreios, embora, por duas vezes, tenha citado o escritor brasileiro Guimarães Rosa (1908 - 1967), apesar de não lhe dá os créditos dos versos que citou e de classificá-lo como poeta, quando, na verdade, o escritor, que, de certa forma, criou uma prosa poética, seja mais conhecido como contista e romancista. Bom! Se a poesia é assim tão necessária para la presidenta “dirigir os destinos do país”, como ela mesma disse, que o seja. Gostaria, contudo, de dizer que, em todo esse aparente novo cenário político, algo anda a me incomodar, que é o fato de muitos terem ovacionado a vitória de Dilma nas urnas antes mesmo da sua posse e, de antemão, já validado o seu governo apenas pelo simples fato de ela ser a primeira mulher a presidir o Brasil.

Ora, reconheço que a eleição de Dilma foi uma conquista para todas as mulheres brasileiras, sobretudo depois de pouco mais de quinhentos anos de opressão, de cerceamento de direitos – todos! –, de estigmas e de muitas formas de injustiças, mas, daí, e só por isso, aplaudi-la até na coxia, antes mesmo do encerramento do espetáculo? Sei não, mas, também de antemão, eu só espero que as feministas não se antecipem e, antes mesmo de vermos os resultados do mandato da atual presidenta, provando ou não a sua competência, já passem a sonhar com um bis... Afinal, convenhamos, sexo não determina competência. E não importa em qual esfera da vida de uma pessoa, seja ela privada ou pública, ainda mais quando se ocupa um cargo que requer um alto grau de responsabilidade, coerência e lucidez, mas, antes de tudo, ética – condição sine qua non para todas as nossas ações.

Então, retornando ao discurso de posse da nova presidenta do Brasil... É ingênuo pensar que, apesar de provavelmente cultivar os seus próprios sonhos, ainda mais quando ela disse que “sonhar é ir além do possível”, e acalentar, ainda, as aspirações de todo um povo, Dilma iria nos representar. Ledo engano! Afinal, em seu discurso, pudemos claramente ouvi-la dizer que chegou à presidência do país “para dar continuidade ao maior processo de afirmação que este país viveu” e “para consolidar a obra transformadora do presidente Luís Inácio Lula da Silva, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida”, concluindo que “a maior homenagem que posso prestar a ele é ampliar e avançar as conquistas do seu governo.”... Sei não, mas, pelo andar da carruagem, a jornalista Dora Kramer tem toda razão. Daí eu a ter escolhido para a epígrafe deste post.

Sim, porque, quer queiram quer não, o governo Dilma já mostrou a sua cara, apenas reforçando o que muitos, de há muito, já sabem, ou seja, o continuísmo será a principal característica do seu governo. Um governo – diga-se de passagem – que, antes mesmo do seu début, nem questão fez de disfarçar outro traço forte que o distingue, que é o fisiologismo. E nem adianta la presidenta dizer que a sua luta mais obstinada “será pela erradicação da pobreza extrema [jargão usado pelos economistas para se referir à miséria] e a criação de oportunidades para todos”, garantindo, ainda, que não vai “descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças pobres abandonadas à própria sorte”. Legal! Nunca vi nada igual. E, aliás, bastante comovente, sim, o discurso, além de poético.

Tanto é verdade que eu vou imprimir uma cópia e, daqui a quatro anos, comparar as suas propostas com as realizações. Ora, nenhum país, em parte alguma do mundo, já foi capaz de erradicar a miséria em apenas quatro anos. Nem Cuba! Dilma, contudo, fez a promessa e se comprometeu com o seu cumprimento. Sinceramente, ou o poder provoca delírios ou ela agiu irresponsavelmente ao prometer algo que – sejamos sensatos – não dará conta de fazer ou, ainda, é de uma coragem admirável para, em um curto período de tempo, como se pretende o seu mandato de quatro anos, impor a si mesma um desafio de tamanha envergadura, que, no caso, é a erradicação da miséria. Para ela, inclusive, “a forma mais trágica de atraso”. Curioso... Ao assumir em 2002, Lula também prometeu erradicar a miséria, apostando as suas fichas na chamada inclusão social.

Porém, nem mesmo sendo eleito para um segundo mandato ele foi capaz de realizar tal feito... Eu é que não posso dizer, reconheço, que ele não erradicou a miséria porque, na verdade, apesar das promessas, não era esse o interesse do seu governo ou porque, de fato, não se erradica a miséria da noite para o dia. No caso, nem em oito anos nem, muito menos, em quatro – tempo, contudo, previsto por Dilma para que o seu governo ponha termo ao que, a exemplo dos economistas, ela chama de pobreza extrema, talvez porque o nome miséria seja cru demais, sem direito a temperos – daí ser indigesto. Só que é apenas raios-x de uma realidade deplorável e desumana, embora lucrativa para muitos, apesar de indigna até para o mais empedernido dos mortais. Bom! O fato é que, segundo estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea, a previsão mais aproximada que se tem para a eliminação dessa chaga social no Brasil é o ano de 2016. Não menos. E olhe lá! 

Só que, enquanto isso... Em entrevista concedida no ano passado à revista Istoé, Dilma analisou a previsão do instituto e disse que, “mantido o padrão de distribuição de renda e crescimento econômico do governo Lula, a previsão do Ipea é factível”, embora tenhamos de ser “mais ousados”, apostando que dá, sim, para finalizar tal tarefa já em 2014. Ulalá! Nem dá para acreditar, mas, se ela diz que dá, que bom para o povo brasileiro, que, agora, com essa garantia, pode, despreocupadamente, sentar e ficar apenas aguardando que tamanha graça sacrossanta lhe seja concedida, já que, no discurso de posse de la presidenta, encontramos, por exemplo, aqui e acolá, menções ao adjetivo sagrado ou sagrada. É, pelo visto, tudo indica que Dilma espera receber uma mãozinha dita divina para cumprir com as suas promessas, inclusive quando, confiante, ela diz que “o pré-sal é o nosso passaporte para o futuro”.




Otimista quanto ao pré-sal, Dilma acredita que a sua exploração deverá “produzir uma síntese equilibrada de avanço tecnológico, avanço social e cuidado ambiental”, sendo o seu desenvolvimento “fator de valorização da empresa nacional” e os seus investimentos “geradores de milhares de novos empregos”. Para ela, “muita coisa melhorou em nosso país, mas estamos vivendo apenas o início de uma nova era. O despertar de um novo Brasil (...), que se vê diante da possibilidade de se tornar (...) uma nação em que a preservação das reservas naturais e das suas imensas florestas, associada à rica biodiversidade e à matriz energética mais limpa do mundo, permitem um projeto inédito de país desenvolvido com forte componente ambiental”. De fato, muito otimismo, ainda mais quando a Organização das Nações Unidas - ONU elegeu 2011 o Ano Internacional das Florestas.

Por fim, ainda em relação à questão ambiental, Dilma considera “uma missão sagrada do Brasil a de mostrar ao mundo que é possível um país crescer, aceleradamente, sem destruir o meio-ambiente” e que “defender o equilíbrio ambiental do planeta é um dos nossos compromissos nacionais mais universais”. Opa! Será que a ambientalista Marina Silva põe fé? Bom! Outra questão de extrema importância abordada por la presidenta em seu discurso diz respeito à liberdade de expressão e à de opinião, reafirmando que, para ela, a garantia de ambas representa compromissos inegociáveis. É, quem sabe, agora, o jornal O Estadão, por exemplo, há 521 dias sob censura, não seja contemplado pelo governo Dilma, que disse preferir “o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”, já que ela não se esquece de que lutou “contra o arbítrio e a censura”?

Além disso, espero que Dilma também não se esqueça de aproveitar a influência dos ditos novos ares pairando sobre o também dito novo Brasil desperto, fazendo a diferença, para apoiar a Proposta de Emenda Constitucional - PEC nº 33/2009, que restabelece a exigência do diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista, cuja votação, no Senado, foi adiada para 2011, bem como a PEC nº 386/2009, igualmente prevista para ser votada este ano. E que sejam votações favoráveis, já que, no dia 17 de junho de 2009, a categoria dos jornalistas foi sumariamente injustiçada pelo Supremo Tribunal Federal - STF. Enfim! Como disse a própria Dilma, citando, em seu discurso, o escritor mineiro Guimarães Rosa, seu conterrâneo: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.


Não seja por isso, la presidenta...
Bon courage!




RESUMO DA AULA DO DIA: LULA, A TRUPE DO PT, ALIADOS E CONGÊNERES



 

Quem viver, verá!


Nathalie Bernardo da Câmara

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