terça-feira, 9 de junho de 2009

A MULHER DA TROUXA

“Superstição: uma sobrevivência do rito desaparecido...”
Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986)
Folclorista brasileiro
Diante de tantos acessos a esta postagem, sugiro a leitura deste, que está atualizado: http://abagagemdonavegante.blogspot.com.br/2012/08/o-retorno-da-mulher-da-trouxa-outros.html
Na postagem 7 em 1, do dia 17 de maio, falei de Misera, nome proferido a três por quatro em uma dada cidade – quiçá em outras, também – do Rio Grande do Norte. Ao consultar dicionários, a fim de desvendar o mistério de Misera, deparei com o verbo transitivo direto Miserar, concluindo, então, ser Misera uma conjugação do referido verbo, que significa tornar mísero, desgraçado; desgraçar; desventurar; infelicitar, caracterizando-se, portanto, a pronúncia do nome, em um xingamento e algo, de fato, deplorável, associada a algo repulsivo.

No entanto, depois disso, conversando com uma moradora da tal cidade, que fica no litoral, tomei conhecimento de outra explicação. A de que Misera seria, de fato, uma mulher de carne e osso e que todos faziam de um tudo para evitá-la, igual, antigamente, se evitava um leproso ou igual o Diabo foge da cruz. Além disso, fiquei sabendo, também, que Misera seria a personificação do atraso. De vida. Dos outros. Essa seria o seu maior atributo, o seu maior poder, preservando, ainda, o hábito de perambular com uma trouxa na cabeça, carregando sabe-se lá o quê.

E mais! Há muitos anos, Misera teria ficado famosa por tocar a mão do finado Oscar, que logo teria apodrecido. Desde então, passou a ser temida por todos que acreditam nessa história, que, a meu ver, não passa de folclore, de uma lenda rural. Ou, no caso, litorânea. O pior é que a pessoa que me contou isso falou com uma veemência que não tem quem faça demovê-la de que Misera resume-se a uma superstição. Sinceramente, é cada uma! O curioso é que a imagem da mulher com uma trouxa na cabeça não é de hoje, é bastante antiga e pertence ao imaginário popular.

Tanto que vi na internet, uma história similar, contada por Daniel Dias, que mantém um blog na homepage sobrenatural.org e escreveu uma crônica intitulada A Mulher da trouxa. O episódio, contudo, narrado por Dias, ocorreu quando ele ainda era uma criança no sítio do avô, no interior da Bahia. Ele conta que, uma noite, estando todos em volta da fogueira, assando castanhas de caju, quando o fogo começou a minguar, cabendo-lhe a missão de ir catar lenha na mata. E foi aí, então, que, para o seu espanto, ele se deparou com a mulher da trouxa.

Segundo nos conta, a mulher que encontrou na mata deslizava como se o chão não existisse, e ficou uns quinze segundos ao seu lado – tempo suficiente para ele estimar que ela tinha cerca de 1,80 de altura, era magra, possuía uma pele pálida, olhos profundos e, vestida de um branco puído, carregava uma trouxa na cabeça. Inicialmente paralisado de temor, assim que a mulher partiu, Dias desfez-se da lenha e saiu correndo, em busca dos seus parentes. Sem acreditar em crendices, a sua mãe disse ser bobagem, enquanto uma tia retrucou, dizendo que não zombassem da mulher, que ela se vingaria.

E, ao que tudo indica, parece que se vingou mesmo, pois o irmão de Dias, enquanto o avô contava histórias de lobisomens, caiporas e outras criaturas fantásticas, ao sair para beber água, portando consigo um candeeiro, já que não tinha energia elétrica, não voltou. Quando foram atrás do menino, o quarto onde ele dormia – a casa era de taipa – estava em chamas, sem que ninguém conseguisse explicar o motivo, apesar do candeeiro que ele havia levado ter desencadeado o fogo, podendo ter sido, quiçá, um tropeço ou um descuido qualquer a causa do incêndio. Nada além disso. Porém, Dias acha que houve um link com a mulher da trouxa...

Daí o contato que manteve com ela, mesmo que brevemente, em um curto espaço de tempo, não duvidando até hoje do encontro sobrenatural que teve com ela. Ai, ai, meu ceticismo! Dito isso, contudo, lembrei-me da Muda, uma senhora que, quase todo santo dia, passava na rua onde eu e a minha irmã morávamos quando crianças. Como o nome já diz, ela não falava, apenas emitia sons guturais e resmungava, vestindo-se de branco e, ornando a cabeça com um lenço vermelho, além de arrastar um saco à mão e uma espécie de cajado de madeira tosca.

Assim, quando a Muda, contudo, passava, era uma festa, pois gritávamos, em uníssono: — Muda, muda, muda! A senhora, então, coitada, que deveria ter pouco mais de dois neurônios, saía correndo atrás de nós, verbalizando algo incompreensível, e, achando pouco, bradava o cajado em todas as direções, querendo nos acertar. Assim, para a minha irmã e eu, a Muda era um divertimento à parte. Mas, como éramos apenas duas crianças levadas, não tínhamos consciência da maldade que cometíamos. De repente, se brincar, a Muda foi a nossa mulher da trouxa, povoando o nosso imaginário infantil...
Nathalie Bernardo da Câmara

Um comentário:

  1. pq não adicionam a lenda da mulher da trouxa de maraial-pe
    carla

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